Fixação com chumbadores químicos em concreto pode ter norma no País

Há cerca de dois anos, a Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece) criou um comitê para discutir questões relacionadas à regulamentação do uso de ancoragens químicas no Brasil. Atualmente, o trabalho deste comitê finaliza um texto que traz recomendações para projetos de fixação com chumbadores químicos em concreto.

A revista OE conversou com Tiago Carmona, coordenador do comitê sobre chumbadores químicos na Abece, e Renato Shimokawa, engenheiro de especificação da fischer Brasil, empresa que faz parte desse grupo na entidade, para esclarecer detalhes da criação da recomendação técnica que pode se transformar em norma brasileira.

1 – O que representa a criação de norma nacional para projetos de fixação com chumbadores químicos em concreto?

Tiago Caromona: Representa uma evolução técnica fundamental em processos construtivos que, em alguma de suas etapas, utilizam as fixações. Quando se consolidam premissas técnicas mediante um consenso entre os intervenientes (projetistas, fabricantes e aplicadores) se evitam erros de especificação e execução, por meio da definição de regras claras a serem observadas em cada etapa do processo.

Renato Shimikawa: Normatizar sistemas de ancoragens em concreto é aumentar o nível de exigência no que se diz respeito à qualidade de produtos e da execução. Atualmente, falhas de execução e produtos inferiores representam a maior parcela de motivos de problemas em obra. Com a norma, será possível dimensionar e exigir mais dos fornecedores e instaladores, gerando uma competição mais justa em relação à compra e venda de produtos do ramo de fixações e mantendo um nível mínimo (desde que atendendo à norma) de qualidade de material e informação disponível.

2 – Por favor, comente sobre como anda a tecnologia de chumbadores químicos no Brasil, incluindo potencial e vantagens à construção?

TC: O Brasil vem acompanhando com agilidade a evolução dos sistemas de fixação com chumbadores químicos. Novos materiais e equipamentos são apresentados ao mercado da construção pelos representantes de empresas multinacionais que pautam o desenvolvimento desta tecnologia. As fixações com chumbadores químicos se arraigaram na indústria da construção de forma ampla, de pequenas a grandes obras, em função de sua execução rápida, limpa e racional.

RS: A tecnologia dos chumbadores químicos no Brasil tem avançado muito sob a dependência das inovações técnicas oriundas da Europa. As empresas que apresentam os melhores produtos do ramo estão sempre atentas às exigências do mercado nacional, importando suas soluções mais compatíveis com a realidade brasileira. A tecnologia fornecida pelas multinacionais tem atendido perfeitamente a construção civil e indústria por possuir flexibilidade para inúmeras peculiaridades de execução.

3 – Por que a criação de um comitê específico dentro da Abece para esse assunto?

TC: A entidade de classe formada por profissionais da área de estruturas com forte representação na cadeira construtiva, tem como um de seus objetivos o desenvolvimento e disseminação de tecnologia e boas práticas construtivas no Brasil. A constatação sistemática de erros construtivos, a falta de critérios claros de projeto e até mesmo de acidentes envolvendo este tipo de fixação motivaram a criação do comitê. A intenção do grupo é elaborar, inicialmente, uma recomendação técnica que servirá de texto base para uma futura norma brasileira.

RS: Os sistemas de ancoragem em concreto envolvem análises complexas para seu dimensionamento, pois a maioria das possíveis falhas do sistema envolvem o comportamento do substrato. Para isto, nada melhor do que ter à disposição especialistas nos quesitos projetos e cálculos estruturais, pois a “tropicalização” das normas europeias e americanas dependem de um processo clínico e analítico das normas brasileiras de concreto e aço.

4 – O que esse comitê pode contribuir para o mercado da construção no que refere aos chumbadores químicos?

TC: O comitê contribuirá de forma decisiva na regulamentação da prática, definindo tipologias de materiais, situações recomendáveis de aplicação e rotinas de cálculo/projeto. Processos construtivos com respaldo normativo estabelecem requisitos mínimos de segurança e desempenho em serviço, objetivando a qualidade final da construção e protegendo a sociedade.

RS: Impacta positivamente, tendo em vista que muitos profissionais da construção civil não consideram o assunto importante em uma visão macro da obra. Os chumbadores químicos são indicados para aplicações estruturais, portanto, espera-se que, com a normatização, os responsáveis passem a dar melhor atenção para estas instalações. Consequentemente, o mercado exigirá mais de seus fornecedores, aumentando a qualidade dos produtos, informações, comunicação e divulgação de seus serviços pré, durante e pós-vendas.

5 – Quais são os desafios para que essa tecnologia avance no País?

RS: Um dos obstáculos para um avanço na tecnologia dos chumbadores é a cultura “barateadora” da construção civil brasileira. Em nossa realidade, comparam-se valores e preços de produtos de qualidades distintas. A exigência para compra e utilização destes produtos ainda é baixa e a falta de informação (inclusive nas disciplinas oferecidas nas faculdades de engenharia civil) contribui para um mercado cujos produtos com melhor tecnologia são, por muitas vezes, descartados por conta do alto valor.

Com isto, uma das formas de melhor divulgar a necessidade de estudar e avançar na tecnologia dos chumbadores, independentemente das iniciativas estrangeiras, é abordando o assunto nas faculdades, em palestras e atividades extracurriculares; manter o nível de qualidade dos produtos já existentes; forte apresentação técnica e foco na análise estrutural junto aos executores, contribuindo para reverter esta cultura nacional.

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Pré-fabricados vencem grandes vãos – montados numa sequência precisa

 

A nova unidade do Senai, no Recife (PE), foi construída com o sistema pré-fabricado de concreto pela T&A Pré Fabricados, juntamente com a construtora CSG. O projeto, elaborado pelo calculista Sérgio Osório, da Engedata, adota grandes vãos, que exigiram alguns diferenciais na execução. Há vigas com mais de 17 m de extensão e lajes com 13,4 m.

A montagem teve início em setembro do ano passado e a conclusão ocorreu em fevereiro último. A edificação, com seis pavimentos, possui 20.938,19 m² de área construída – e foi erguida anexa a um prédio existente da instituição.

Para suportar as carga das peças pesadas e de porte e finalizar a edificação dentro do prazo acordado com o cliente, a T&A utilizou dois guindastes, um de 250 t e outro de 70 t. A engenharia de montagem dessa obra foi bem específica, pois foram montadas vigas com 17 m de comprimento, pesando 29 t, a uma distância de 22 m, usando guindaste de grande porte.

“Tivemos que conciliar as carretas, transportando elementos de concreto para os dois guindastes. E como o terreno é apertado, os guindastes muitas vezes trabalharam próximos um ao outro”, explica o diretor da T&A, Vitor Almeida.

 

Ele destacou ainda a complexidade da logística em vista da sequência da montagem. “Tecnicamente só poderíamos montar dois pavimentos por vez, esperar o capeamento (solidarização), para depois montarmos mais dois andares, e assim por diante”, afirmou.

A empresa tomou cuidado em evitar a parada das equipes de montagem. O engenheiro explica que a obra foi dividida em setores e cada um deles foi liberado para o capeamento em momentos diversos. “Isso fez com que a equipe de montagem nunca ficasse parada esperando a solidarização”, diz Vitor.

A T&A Pré-fabricados, com sua planta industrial de Pernambuco, no município de Igarassu, forneceu toda a superestrutura da obra: pilares, vigas e lajes alveolares, todos pré-fabricados, alcançando volume total de 2.121,58 m³.

Ficha técnica – Prédio do Senai no Recife (PE)

Construtora: CSG
Pré-fabricados: T&A
Projeto: Engedata

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Biblioteca Nacional resgata fachada histórica

 

A fachada do prédio histórico e tombado da Biblioteca Nacional sofreu a sua maior reforma desde a sua inauguração em 1910. Constituída com um dos mais importantes acervos do mundo, a edificação é de arquitetura eclética, onde há mistura de vários estilos arquitetônicos, que marcou o início do século passado naquele quadrilátero da cidade do Rio de Janeiro.

A área total da fachada reformada tem 9.714 m², com o perímetro em torno de 290 m e altura média de 32 m. A restauração envolveu esquadrias de madeira (portal e janelas), argamassa da parede, ornamentos, escada frontal e cúpula. A obra foi executada pela Concrejato Engenharia, entre dezembro de 2016 e maio de 2018.

De acordo com o arquiteto da construtora, Alexandre Vidal, para execução dos trabalhos foi preciso mobilizar equipe especializada de marceneiros, para restauração de esquadrias, e restauradores para condução dos serviços de argamassa, incluindo ornamentos.

Foram 285 esquadrias restauradas. Partes danificadas da madeira foram reparadas e as diversas camadas de tinta sofreram decapagem. Algumas esquadrias tiveram que ser removidas de seu local para se fazer o trabalho.

A recuperação das esquadrias incluíram ainda descupinização e pintura com esmalte sintético. Testes de estanqueidade atestaram a qualidade dos serviços executados.

Na parede de argamassa precisou-se fazer um estudo para ver qual revestimento seria compatível, para identificar o traço e dosagem a ser aplicada. A opção pela pintura com pigmento mineral de base silicada, valorizando o prédio e ressaltando os ornamentos, foi a escolhida, permitindo a argamassa “respirar”.

O canteiro de obras contava com oficinas para restauração de ornatos de argamassa da fachada e das esquadrias.

Na reforma anteriormente feita na fachada da biblioteca, quando se empregou tinta plástica, a parede foi prejudicada com acúmulo de umidade. Assim, a construtora fez a remoção das partes da argamassa afetada, dos fungos e da vegetação, para restaurar as paredes externas da estrutura.

De acordo com Alexandre, a obra foi dividida em 21 panos (setores) progressivos para não prejudicar o funcionamento da biblioteca. Conduzindo as obras dessa forma, as intervenções internas no funcionamento da biblioteca pública seriam minimizadas.

O arquiteto conta que toda vez que se fazia o restauro de uma esquadria, o espaço na área interna dela (conectada à esquadria), chamada na obra de capela, era cercado com tapumes ou divisórias – o tamanho do espaço interno variava, dependendo da disponibilidade de área. Dessa forma, fazia-se a proteção ao acervo e às pessoas dentro da biblioteca. Do lado de fora, o trabalho progredia com uso de andaimes.

A Biblioteca Nacional possui cinco andares e vários mezaninos, sendo que o terceiro andar é composto por acervo raro e nos quarto e quinto andares outros acervos. Seção também importante são os laboratórios de microfilmagem, restauração, conservação e digitalização.

150 profissionais envolvidos na restauração 

DINÂMICA

Luiz Antonio Lopes de Souza, arquiteto da Fundação Biblioteca Nacional, conta que as esquadrias nunca tinham sofrido restauração, incluindo nas ferragens e suas diferentes formas de acionamento das janelas.

Os vidros também foram trocados e receberam películas de raio UV. Os vidros têm vários tipos de brasões, com o logotipo da Biblioteca Nacional. As esquadrias possuem tamanhos variados e podem medir até 4 m de altura – cuja originalidade foi mantida.

“A restauração mexeu com a dinâmica da biblioteca e atendimento do público. Tinhamos que proteger o acervo contra poeira e ainda manter o acesso a ele. E ainda havia a questão do barulho e o odor dos materiais com relação às pessoas que transitam na biblioteca”, conta. “A solução de se isolar as capelas foi fundamental”.

Ele conta que a comunicação com os funcionários foi permanente e até visitas guiadas com os trabalhadores foram feitas, para conscientizar a importância de se trabalhar em silêncio na biblioteca, com o menor impacto possível.

O arquiteto Bruno Sebollela, da gerenciadora da obra, a Uchino, ressalta também que o diálogo foi fundamental para execução dos trabalhos, já que o acervo é enorme.

Na fachada principal, de frente à praça da Cinelândia, três portas de bronze de acesso principal ao saguão foram incluídas na restauração. A cúpula quadrada de cobre no topo do prédio, de 16 m x 16 m, foi restaurada, envolvendo remoção da oxidação, rejuntamento e restauro de seus elementos.

No pico, no meio do ano passado, chegou-se a ter 150 pessoas trabalhando na restauração. O custo total da obra chegou a R$ 10,4 milhões.

Prédio conta com ornamentos em seu entorno

Ficha técnica – Reforma da fachada da Biblioteca Nacional (RJ)

Construtura: Concrejato Engenharia
Gerenciadora: Uchino

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Aditivos recuperam barragem de concreto em Pernambuco

 

A Barragem de Jucazinho, no Agreste de Pernambuco, passou por obras de renovação e reparos essenciais depois de identificadas fissurasna estrutura de concreto. Uma gama de produtos cristalizantes foi utilizada para tornar a estrutura de concreto impermeável.

Construído em 1998, é o maior reservatório de Pernambuco, com70 m de altura e 430 m de largura. Responde pelo fornecimento de água para cerca de 800 mil pessoas de 15 municípios da região.

Mas, no início de 2016, a barragem praticamente secou, em decorrência da pior seca dos últimos 60 anos no Estado. Agora, preparada para o período de chuvas, atingiu em abril último 6,2 milhões m³, da sua capacidade total de reserva de 327 milhões m³.

“O clima muito seco e as chuvas esporádicas causaram muitas infiltrações pelas fissuras e juntas da estrutura de concreto da barragem, que foi se deteriorando, com descamação parcial de suas superfícies”, conta o engenheiro Cláudio Ourives, diretor-executivo da Penetron Brasil.

Assim que as chuvas retornassem, a estrutura desidratada poderia se romper, pondo em perigo cidades próximas. O diagnóstico foi feito em 2013 pelo governo estadual, em relatório que recomendou a reparação dos muros de concreto e das galerias de drenagem da barragem.

Os especialistas da Penetron Brasil trabalharam com o Departamento Nacional de Armazenamento de Água (DNOCS) para encontrar uma solução adequada de reparo e renovação. “Fizemos cuidadoso exame das paredes de concreto danificadas e das galerias de drenagem. Optamos por sistemas projetados para uma aplicação eficaz, com excelente aderência do material projetado, bem como outros tratamentos por cristalização superficial aplicados por pulverização”, explica Ourives.

SOLUÇÕES

Os trabalhos de restauração começaram em janeiro de 2017. Para selar as fissuras e reduzir a permeabilidade da superfície, as paredes de concreto foram tratadas com combinação de produtos, incluindo PenetronInject Flex, resina de poliuretanto flexível; Peneseal Pro, selante líquido aplicado por pulverização; e Patchline SM, argamassa cimentícia modificada por polímero.

A injeção da resina PenetronInject Flex foi usada para selar 6 mil m de juntas de concreto. Já o Patchline SM foi aplicado em mais de 20 mil m² das paredes da barragem, com uma espessura de 2cm. E o PenetronAdmix foi adicionado ao concreto projetado para melhorar seu desempenho e impermeabilizar as galerias de drenagem. Favoreceu a escolha dos produtos cristalizantes o fato de não serem tóxicos e isentos de compostos orgânicos voláteis (COVs).

O projeto de recuperação da Barragem de Jucazinho foi desenvolvido pela JLC Engenharia de Projetos e Consultoria, contratada pela Concrepoxi Engenharia, do Recife (PE). Seu diretor, o engenheiro Luiz Eduardo Cardoso, projetista de estrutura de concreto armado e protendido, explica que as estruturas fundamentais recuperadas foram as de paramento – parede vertical com variação de seção de 80 cm de espessura até 60 cm na crista da barragem.

“Havia um problema muito severo de lixiviação e carbonatação. O concreto compactado a rolo (CCR) do núcleo da barragem se mostrava altamente permeável e o conjunto manifestava uma série de infiltrações muito nocivas. Existia grande concentração de umidade, inclusive no túnel de inspeção para acesso ao sistema hidráulico”, diz.

O projeto contemplou a recuperação do paramento e, também, da base da barragem, o que foi feito com estacas injetadas. Já a recuperação do substrato foi complexa pela dificuldade de acesso e pelo trabalho realizado em temperatura altíssima – que chegava a 50°C e ainda com incidência de vento. Daí, a necessidade de especificação de um produto que pudesse ser ensaiado em laboratório, simulando o microclima local. A JLC Engenharia definiu a metodologia e o laboratório para os ensaios, que foi o Holanda Engenharia.

“A melhor solução foi o Peneseal Pro, selante líquido, para não só reduzir a permeabilidade do concreto, mas também toda a parte de reação dos silicatos com a pasta de cimento”, conta o engenheiro, apontando que o processo de lixiviação rouba hidróxido de cálcio não estáveis do cimento, gerando a carbonatação. Era preciso, ainda, recuperar o pH e criar uma estrutura que pudesse suportar toda a ação da pressão hidrostática, garantindo permeabilidade zero à estrutura.

As juntas longitudinais Fungenband foram substituídas por juntas em Ómega, que também eram pontos críticos de grande concentração e infiltração de água sob pressão. Além do tratamento do substrato, foi preciso atuar dentro do túnel. Em alguns trechos, o teto dessa galeria, estruturado a partir do CCR, já tinha desabado por processo de corrosão e falta de armaduras principais. Ele foi totalmente recuperado e as ancoragens refeitas.

“Utilizamos na reconstituição dessas seções, concreto projetado aditivado com o cristalizante PenetronAdmix. Esse cristalizante, além de se incorporar à estrutura do concreto, cria um sistema de impermeabilização e de proteção da armadura contra agentes agressivos, evitando novas corrosões. Esse aspecto ficou crítico porque havia vários veios de infiltração de água. O emprego do cristalizante associado a injeções de poliuretano trouxe resultados muito satisfatórios”, comenta. Avaliações pós-obra indicam que houve uma melhora significativa do comportamento da barragem, tanto estrutural quanto da sua vitalidade.

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Construção de dois túneis de traçado curvo exigiu atenção à baixa cobertura de solo, recalques e redes de utilidades

 

Um túnel rodoviário sob a linha férrea da CPTM fez parte das obras de qualificação e readequação viária do centro de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Tratam-se de dois túneis curvos, denominados por Túnel 1 (sentido bairro-centro), com 246 m, e Túnel 2 (sentido centro-bairro), com 115 m, que permitem a passagem de carros e ônibus. O complexo viário tem o nome de Jornalista Tirreno da San Biagio.

A empresa projetista foi a GeoCompany – Tecnologia, Engenharia e Meio Ambiente, e o consórcio construtor foi integrado pela Engeform e Serveng Engenharia.

A obra foi idealizada para extinguir a passagem de veículos pelos trilhos da CPTM, de modo que a passagem dos trens ficasse livre das interrupções para a passagem dos veículos, que ocorria a cada três minutos.

Na etapa de projeto e execução dos túneis foram enfrentados diversas dificuldades, podendo-se listar como características importantes da obra: a baixíssima cobertura de solo (3 m, entre o topo da escavação e superfície do terreno natural existente), o solo mole existente na região da escavação, o nível de água elevado e a impossibilidade de rebaixamento do lençol freático; a interferência entre a escavação e o centro histórico da cidade e a interferência com a linha férrea e estação da CPTM próxima.

A obra de passagem sob a ferrovia tinha como premissa de projeto a limitação dos recalques admissíveis na superfície, por dois motivos principais: não causar danos à operacionalidade da ferrovia e não causar danos às edificações lindeiras à escavação (centro antigo do município de Mogi das Cruzes). O procedimento de rebaixamento do lençol freático por poços profundos gera recalques superficiais, por esse motivo não pôde ser adotado nessa obra. Foram adotados para a drenagem da frente de escavação, drenos horizontais profundos a vácuo.

O uso da linha durante a construção não foi interrompido em nenhum momento, não tendo sido necessária nenhuma mudança na rotina operacional da ferrovia.

A locação física da obra impôs restrições e cuidados, sendo encontradas diversas dificuldades, como: área de implantação dos túneis ocasionando rampas com a maior declividade permitida nas valas, baixa cobertura sob a linha férrea sendo de 3,37 m para o Túnel 1, e de 3,00 m para o Túnel 2.

Mapa esquemático do projeto executado no centro da cidade de Mogi das Cruzes (SP)

A obra se localiza em área no centro histórico, com diversas edificações antigas. Outro ponto impactante é o prédio da Estação Mogi das Cruzes, Linha 11 – Coral da CPTM. A distância entre a borda da escavação da vala coberta e a projeção da marquise do prédio foi de 1,60 m apenas, o que caracteriza as dificuldades desta obra.

Tendo em vista essas limitações, o projeto foi inteiramente pensado para limitar deslocamentos na superfície ou subsolo, de modo a mitigar possíveis danos estruturais aos prédios da região. Foi efetuada uma extensa campanha de monitoramento e instrumentação acompanhada diariamente pela projetista. Antes da obra, foram feitas vistorias para conhecer as condições exatas do local.

Para a escavação das valas de entrada e saída dos túneis, foi utilizada parede diafragma com 70 cm de espessura e contenção em tirantes ou estroncas. Para minimizar os recalques oriundos da escavação foram tomados alguns cuidados, como efetuar este trabalho em pequenos lances. A pressão de injeção dos bulbos dos tirantes foi limitada para evitar movimentações de solo desnecessárias.

Parede diafragma, concreto moldado e laje de fundo 

FUNDAÇÕES

Outro ponto crítico na execução da obra foi a influência dos tirantes com as fundações e utilidades públicas enterradas. Foi realizado um cadastro unificado de utilidades públicas e levantamento das fundações para verificar possíveis interferências e fazer as realocações necessárias à construção.

O revestimento secundário nos trechos em vala foi executado com concreto moldado nas paredes laterais e laje de fundo, e concreto pré-moldado para a laje de cobertura. O concreto pré-moldado foi adotado como alternativa para agilizar o processo de construção e adiantar o prazo para entrega da obra.

Os trechos dos túneis sob a linha férrea foram escavados pelo método NATM (New Austrian Tunnelling Method), sendo necessária a utilização de um robusto tratamento para realizar a escavação com segurança, levando-se em conta as características da obra: baixa cobertura dos túneis, sobrecarga devido à ferrovia (TB- 360) e solo com baixa capacidade de suporte. Os tratamentos previstos incluíram 2 linhas de colunas de jet grouting ou enfilagens na calota, pregagens de frente em barras de fibra de vidro, DHP´s a vácuo e tamponamento de jet grouting, quando necessário.

O revestimento primário dos trechos em NATM é de concreto projetado armado com cambota treliçada, tela soldada e fibras metálicas. O revestimento secundário é concreto projetado armado com telas soldadas.

Revestimento de concreto projetado armado 

As escavações se iniciaram com a vala a céu aberto, seguida pela vala coberta e, posteriormente, o túnel que foi escavado em duas frentes de ataque. A escavação do túnel se deu inteiramente em solo. Para limitar os deslocamentos foi executado um extenso tratamento do maciço. A drenagem foi limitada a drenos executados internamente aos túneis.

O trecho em Túnel NATM tem área da seção transversal de 52,93 m³. A extensão é de 165,98 m para o Túnel 1, e de 33,33 m no Túnel 2. O trecho em vala coberta com 1 faixa (utilizado na entrada dos túneis) tem área de 53,13 m² e extensão de 35,08 m no Túnel 1, e de 55,56 m no Túnel 2. Já o trecho em vala coberta com 2 faixas (utilizado na saída dos túneis) tem área de 78,05 m² e extensão de 44,90 m no Túnel 1 e de 26,34 m no Túnel 2.

O volume de concreto e toda obra alcançou 20.000 m³; já de aço o volume foi de 1.800.000 kg.

O momento mais crítico foi a execução do tratamento de calota para a escavação do Túnel 2, que era o trecho mais raso da obra. A pressão de injeção de concreto das enfilagens teve que ser ajustada para garantir a exequibilidade do tratamento sem interferir na passagem de trens na ferrovia.

Passagem em operação 

Foram desapropriados 14 imóveis, sendo um deles um posto de gasolina desativado, quatro residenciais, oito comerciais e uma garagem.

As obras, que começaram em agosto de 2015 e terminaram recentemente, tiveram um investimento total de R$ 128 milhões, sendo R$ 98 milhões em recursos federais e R$ 30 milhões de contrapartida da prefeitura.

Execuções de túnel no método NATM por debaixo da linha da CPTM em funcionamento

Ficha técnica – Complexo Viário Jornalista Tirreno da San Biagio, em Mogi das Cruzes (SP)

Projetista e gerenciadora: GeoCompany – Tecnologia, Engenharia e Meio Ambiente
Construtora: Consórcio Viário Mogi – Engeform e Serveng Engenharia
Ficha técnica – Complexo Viário Jornalista Tirreno da San Biagio, em Mogi das Cruzes (SP)

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Nove de Julho dobrou a área construída — com os serviços médicos em funcionamento

 

Um dos maiores grupos hospitalares do País, a Rede Ímpar, realizou a ampliação de seu hospital, o Nove de Julho, em São Paulo (SP), conduzindo uma série de trabalhos de engenharia de complexa execução, sem interromper as operações do estabelecimento. Quem conta são os engenheiros do hospital Márcio Grossman e Wanderley Silva, e Antonio Carlos Marchini Jr., diretor de Obras da Afonso França.

Para se entender o que se passou por lá, é preciso relatar as obras de ampliação promovidas recentemente no hospital – que estavam previstas de serem concluídas em maio de 2018. Destaca-se que o estabelecimento localiza-se numa região altamente adensada da capital paulista, na rua Peixoto Gomide.

PRIMEIRA OBRA

De 2014 a 2016, a construtora Afonso França construiu na mesma rua, ao lado da edificação hospitalar existente, um prédio de 17 andares, sendo oito subsolos, um térreo com pé direito duplo e mais oito pisos. A metragem da área construída foi de 20 mil m².

Além de estacionamento no subsolo, o prédio passou a comportar 120 apartamentos para pacientes. De acordo com a construtora, os andares foram executados com estrutura convencional de concreto armado.

Wanderley Silva

Antonio Carlos Marchini Jr.

A principal dificuldade foram os subsolos, cuja escavação, escoamento de resíduos e concretagem tiveram que conviver com um desnível de 25 m entre a rua Peixoto Gomide e a movimentada avenida 9 de Julho abaixo, com atenção dobrada para evitar danos aos prédios da vizinhança e as questões relacionadas à logística no quadrilátero.

SEGUNDA OBRA

A partir de 2016, deu-se inicio a segunda grande intervenção dentro do projeto de ampliação do hospital. Um antigo prédio de 15 andares pertencente ao hospital – usado como área administrativa – foi demolido.

A demolição iniciou-se em janeiro de 2016 e foi concluída em julho do mesmo ano. A Afonso França, também responsável pela obra, explica que cada parte era alvo de um estudo profundo antes da demolição por que as outras edificações do complexo hospitalar mantiveram-se em plena operação.

A construtora conta que a demolição foi mecanizada com robôs, e controlada para garantir a segurança do hospital existente e em funcionamento, da circunvizinhança e dos passantes, além de operação silenciosa para não perturbar os pacientes e vizinhos.

Assim, a técnica de demolição adotada foi realizá-la com máquinas de dentro da estrutura, andar por andar, de cima para baixo. Assim, reduziria consideravelmente o impacto.

O espaço limitado do terreno também exigiu rápida remoção do material que foi demolido.

Márcio Grossman

TERCEIRA OBRA

O prédio que se ergueu no lugar do demolido, executado pela Afonso França, foi de complexa execução já que parte dele ficaria sobreposta a uma edificação existente. Essa nova estrutura – metálica treliçada – de 5.600 m² é formada por térreo, dois subsolos, mais sete andares e a cobertura com a área técnica do hospital (ar, cabine primária para distribuição de energia, boilers de água quente etc.), perfazendo um total de 11 andares. Parte dessa nova edificação foi construída incorporando a antiga estrutura. Assim, nessa parte existente, ergueram-se seis andares sobre a CTI do hospital no subsolo, o pronto socorro no térreo e o centro cirúrgico no 1º andar – todos já construídos, como citado.

O desafio foi passar os novos pilares por essa estrutura hospitalar existente em pleno funcionamento, para se encontrar com as estacas feitas no segundo subsolo – 42 hollow auger e 48 estacas raiz.

Os pilares adotados, metálicos, foram instalados independentes da estrutura existente. O engenheiro calculista Cesar Pereira Lopes foi responsável por este projeto.

Na ligação do prédio novo com o antigo, a construtora conta que foram adotadas juntas de dilatação para viabilizar o acesso entre as estruturas nova e antiga.

Destaca-se ainda que um trecho desse novo prédio foi erguido primeiro, na parte do terreno em que não havia a demolição da antiga estrutura. O objetivo era erguer logo a caixa de escadas e elevadores do prédio, para ir adiantando a obra numa parte sempre complexa, que é a dos elevadores.

Na face para rua dessa caixa, foi feita uma pintura pelo grafiteiro Kobra, remetendo a imagem a uma ação de acolhimento de um profissional da saúde – um crachá deste profissional reproduz a foto do fundador do hospital, falecido ano passado, e que foi um entusiasta na ampliação do estabelecimento hospitalar.

FACHADA

Concluídas as obras de ampliação, na fachada do complexo hospitalar instalou-se uma imensa pele de vidro de aproximadamente 6.470 m², fornecido pela empresa Bimetal.

A construtora lembra que não havia espaço para o canteiro de obras, numa área altamente adensada, e tudo deveria chegar o máximo possível pronto e montado. No pico, de julho a setembro de 2017, a obra chegou a ter cerca de 400 trabalhadores na parte civil, instalações e montagem.

Segundo a Rede Ímpar, foram investidos somente na obra civil de ampliação do Hospital 9 de Julho R$ 250 milhões. Já na infraestrutura hospitalar foram aplicados outros R$ 150 milhões. Nos trabalhos de ampliação, a área construída do complexo passou de 27 mil m² para aproximadamente 60 mil m².

Além do Hospital 9 de Julho, a Rede Ímpar mantém na capital paulista o Hospital Santa Paula. No Rio de Janeiro, possui o Hospital São Lucas e Complexo Hospitalar de Niterói. No Distrito Federal, mantém o hospital e maternidade Brasília. Seus estabelecimentos hospitalares contam no total com mais de 1,4 mil leitos de internação, atendendo anualmente aproximadamente 5 milhões de pessoas e realizando 63 mil cirurgias.

Ficha técnica – Ampliação do Hospital 9 de Julho São Paulo (SP)

Construtora: Afonso França
Instalações elétricas e hidráulicas: Qualieng
Instalações metálicas: Codeme
Sistema de ar condicionado: Heating Cooling
Sistema de gás: Enimed
Concreteira: Engemix
Formas deslizantes: Tec Barragens
Elevadores: Atlas
Demolidora: Elite
Pele de vidro: Bimetal

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