Evocação de Times Square

Com algum atraso venho falar um pouco do livro do historiador Marshall Berman, "Um século em Nova York – Espetáculos em Times Square". Publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Rosaura Eichenberg, a obra nos convida a um passeio pelo centro do mundo. Não se trata, no entanto, de um passeio linear, que nos deixa à vontade para ler letreiros de publicidade e observar o design de lojas e vitrinas preparadas para captar os olhares famintos dos consumistas deslumbrados.

O passeio é um mergulho histórico no ambiente urbano, que não é apenas a convergência da rua 42 com a Sétima Avenida e a Broadway, mas um estilo e um estigma de vida. A análise de Berman, que tem algo de confessional e de análise aprofundada nos estudos da literatura e da sociologia urbana, parte de uma data – aquele começo de século, mais precisamente o inverno de 1904, quando o metrô de Nova York foi inaugurado. A data é apenas uma referência, a partir do qual o pensamento e os ensaios avançam para a frente ou para trás, de modo a desenhar o Times Square nas dimensões múltiplas de espaço e tempo que ele tem.

Mas o importante nesse painel em que se cruzam personagens de ficção (Sister Carrie, de Theodore Dreiser, por exemplo) e personagens reais, são as constatações da necessidade de multidão, dia e noite, em sítios urbanos como aquele, a fim de que áreas centrais de metrópoles, não se esvaziem nunca. O vazio urbano tem um efeito corrosivo. E "pode ser uma força ativa, maligna, destruidora das cidades", conforme diz o autor. É o que tem acontecido em São Paulo e em outras capitais.

A realidade comprovaria, com exceção, claro, de Times Square, que a desgraça do esvaziamento dos centros metropolitanos torna muitas paisagens urbanas importantes, em áreas degradadas, tanto pelas ruínas das edificações desocupadas ou pessimamente ocupadas, quanto pela ocupação predatória da exclusão social. Para entornar o caldo, muitas das transformações realizadas pelo poder público, em diversas metrópoles, na tentativa de reverter o processo degenerativo, tiveram mais um efeito de remoção, do que de renovação urbana.

Essas observações, talvez perdidas em pequenos espaços de leitura, deveriam ser absorvidas pelos urbanistas e administradores públicos, para serem levadas a sério toda vez que se toque no assunto delicado de obras de renovação, um tema que tem se tornado comum, sobretudo quando se fala das possibilidades do legado da Copa e da Olimpíada.

Ocupar, valorizar e modernizar – sem excluir – seria a receita para não degradar. A Evocação do Times Square, feita pelo historiador nascido em Nova York, é uma contribuição para se pensar nessas urgências sociais.

Fonte: Estadão

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