Na seção Engenharia Global no início desta edição, convidamos empresas de engenharia de diversos países instaladas no País para se pronunciar, mas apenas Ferrovial, Salini Impregilo e Acciona se manifestaram. Um aspecto que chama a atenção nestas empresas é a disponibilidade de inteligência global na engenharia, justamente pela dispersão geográfica de suas obras, de modo que é possível encontrar as melhores técnicas e os profissionais mais experientes para desenvolver soluções complexas, que tiveram sucesso e podem ser replicadas aqui.

Não é à toa que nos seus canteiros de obras, as equipes gerenciais e de engenheiros são multiculturais, oriundos de vários continentes. Os especialistas se deslocam de obra em obra e ata- cam os problemas das suas áreas de conhecimento.

Essas empresas globais também atuam como concessionárias e participam de parcerias público-privadas (PPPs). A Ferrovial espanhola é operadora por concessão do terminal 5 do aeroporto de Heathrow, em Londres, na Inglaterra, um dos mais movimentados do mundo, com 75,7 milhões de passageiros/ano. Ali, a empresa, em parceria com a BAA e a Mott MacDonald como projetista, construiu um túnel de 2,1 km interligando os terminais
5, 3 e 1 para alojar o maior sistema integrado de manuseio de bagagens no mundo. Sua subsidiária Cintra, por sua vez, opera 27 concessões rodoviárias somando 1.920 km, em sete países, inclusive Estados Unidos e Inglaterra.
A Salini Impregilo, italiana, que liderou o consórcio que se responsabilizou pelas obras de ampliação do Canal do Panamá, aponta os seguintes diferenciais como companhia global: garantias bancárias ou seguro garantia para
completion da obra, junto a bancos e investidores institucionais — especialmente os que entraram no mercado brasileiro em novos leilões de concessão; linhas de fi nanciamento com bancos multilaterais, sejam como “epecista” ou investidor em concessões; regras de compliance estritas conforme normas internacionais, para serem aplicadas
localmente; e fl uxo de caixa positivo — que não é afetado pelo mercado brasileiro, já que 95% dos negócios estão no exterior.
A empresa tem 30 anos de Brasil, onde começou construindo a hidrelétrica de São Simão (MG), e foi durante 15 anos acionista da concessionária Ecorodovias. A direção dessas empresas reafirma que não falta funding privado para projetos de infraestrutura no mercado global, mas investidores institucionais como os fundos demandam regulação sólida com regras claras, que não pode se sujeitar a interferência política e insegurança jurídica, além de ter solução estruturada para o risco cambial.

Como amostra da dinâmica do mercado global, a revista ENR-Engineering News Record, de Nova York — parceira editorial da revista O Empreiteiro — publica uma pesquisa anual sobre as maiores construtoras internacionais, representando EUA, Europa, China, Japão, Índia e Turquia, além de outros países. A edição de 2016, com os resultados do ano de 2015, mostra que as 250 maiores construtoras Internacionais movimentaram US$ 500 bilhões em receita fora dos seus países de origem e somaram US$ 518 bilhões em contratos novos.

Desse montante, segundo o gráfico, Ásia e Austrália lideram com 24,2%; Europa, 18,7%; Oriente Médio, 15,3%; EUA, 10,7%; e América Latina, 10,6%. Imaginem 1% desse total alocado para o Brasil?