Com a economia mostrando claros sinais de se descolar da política e indicadores econômicos apontando o princípio de uma retomada nas atividades – que ainda precisa de iniciativas para se sustentar -, as obras de infraestrutura dependem da volta do fluxo de recursos nas três esferas de administração pública, hoje gravemente prejudicado pela queda da arrecadação.
O governo não pode se furtar do seu papel de principal contratante de obras públicas, em especial as de médio e pequeno porte, porque esse tipo de investimento é o motor da economia em tempo de recessão, como se viu de forma recorrente tanto em países industrializados como emergentes.
É ótimo atrair novos players globais para grandes projetos de infraestrutura via concessões ou parceria público-privada (PPP) — como Fraport, Vinci e Zurich nos quatro aeroportos recém-concessionados -, mas são os programas regulares licitando obras públicas medianas, nas três esferas administrativas, que movimentarão de forma significativa o mercado de construção nas cidades e nos Estados, mobilizando toda a cadeia de
produção instalada no País.
A União, os Estados e as principais cidades brasileiras precisam que a arrecadação de tributos se recupere — para então pensar numa nova arrancada em obras públicas. É verdade que o custo da máquina administrativa (folha de pagamento) subiu 96,6% entre 2009 e 2015, segundo estudo do Ministério da Fazenda e os recursos para investimentos fi caram relativamente estagnados. Essa prática arraigada de inchar os quadros mediante novas contratações a cada gestão que se inicia, precisa acabar — mas somente uma nova geração de gestores públicos
vai ousar esta façanha. O investimento em tecnologia, e não somente em pessoal, é a ferramenta preferida dos gestores hoje na iniciativa privada.
Na seção “Cenários”, que abre esta edição trazendo o Ranking da Engenharia Brasileira 2017, importantes lideranças empresariais dos vários segmentos da engenharia posicionaram–se a favor do processo de depuração em curso no mercado, em benefício de uma maior abertura e livre concorrência, e colocaram-se contra exigências descabidas e “dirigidas” em licitações para favorecer poucos participantes. Manifestaram ainda apoio pela adoção de código de compliance, para detectar e prevenir práticas ilícitas.

Outro ponto visto como crucial por esses experientes dirigentes e empresários: as obras precisam ser licitadas sempre com projeto de engenharia, sem o qual os preços orçados e os prazos estipulados apresentados na licitação dificilmente serão cumpridos. Editais sem projeto, com orçamento precário ou prazo inexequível devem ser deserdados pelo mercado na licitação – dar quórum “deserto” é a melhor resposta das empresas.
São esses empreendimentos cheio de vícios que abrem espaços para as práticas ilícitas que a Justiça busca erradicar. A isso, acrescentaríamos o uso extensivo da Tecnologia de Informação e a adoção de projetos eletrônicos no formato BIM, permitindo detectar anomalias no decorrer da execução e calcular os impactos no custo e no prazo —em tempo real. Câmaras integradas por software registrariam os avanços (e atrasos) no canteiro de
obras; onde esse sistema fi xo não fosse possível, sobrevoos programados de
drones exerceriam esse controle por imagem — dispensando o deslocamento dos técnicos dos contratantes até o local.
A blindagem do mercado brasileiro de engenharia, que dificultava sobremaneira o ingresso de empresas do exterior, já rachou há anos. Um número crescente de firmas globais tem se instalado no País — outros tantos se retiraram. Mas o saldo é positivo e a expertise delas em funding no mercado global pode ser valiosa para os novos projetos de infraestrutura no pipeline.
A experiência local das suas parceiras brasileiras torna essas alianças altamente competitivas. O Ranking da Engenharia Brasileira 2017 publicado nesta edição da revista O Empreiteiro atesta a dinâmica das empresas de engenharia do País e sua resiliência aos choques, o papel crescente das concessionárias privadas de infraestrutura através dos seus ambiciosos programas de investimentos e a visão de longo prazo dos empreendedores privados dos setores industriais, comércio e serviços — que miram o mercado doméstico de 200 milhões de consumidores nas próximas décadas, além das exportações – e sustentam os seus projetos a despeito do quadro econômico. São esses atores que juntos fazem a economia brasileira se descolar da conturbada política — e alçar voo.
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