O impacto nos projetos e obras de engenharia

Alberto Sayão*

Apopulação brasileira passou a conviver com tragédias de desabamentos em épocas de chuvas fortes. Em junho de 2010, casas, pontes e estradas foram destruídas por inundações em cerca de 70 localidades de Alagoas e Pernambuco. Meses antes, houve centenas de escorregamentos nas encostas do Rio de Janeiro, Niterói e Angra, e enchentes em São Paulo. Em 2009, uma grande barragem rompeu no Piauí. No final de 2008, escorregamentos e inundações atingiram cerca de 50 municípios em Santa Catarina. Centenas de mortes e milhares de desabrigados foram o resultado.

A chuva tem sido sempre classificada como inesperada ou anormal e rapidamente declarada como culpada pelos governantes e responsáveis. Mas estas declarações não se sustentam. As obras de engenharia devem sempre considerar os efeitos de chuvas intensas. E devem ser projetadas para resistir à pior situação possível de acontecer em centenas ou milhares de anos.

Mas essas condições de chuvas e inundações recentes foram ou poderiam ser previstas? As mudanças climáticas, associadas ao aquecimento gradual da atmosfera e dos oceanos, têm sido previstas e debatidas globalmente. Períodos com um volume de chuvas acima do normal podem estar se tornando mais freqüentes em várias regiões do país. E as autoridades precisam levar isso em consideração, precisam se sensibilizar para não repetir erros.

Em minha opinião, porém, essas tragédias recentes tiveram outras causas mais importantes, muito além das chuvas. Nas últimas três décadas os investimentos públicos foram muito inferiores ao necessário para manter a infra-estrutura brasileira. Faltou fiscalização e sobrou conivência dos governantes para evitar a ocupação ilegal ou inadequada das encostas e das margens dos rios. Faltaram obras para controlar a vazão dos rios. Falta conservação das pontes e estradas. Falta gestão da segurança das barragens. Faltam recursos para o desenvolvimento urbano das grandes cidades brasileiras.

As estimativas assustam: mais de 8 milhões de famílias brasileiras já vivem em favelas. As zonas de risco precisam ser identificadas e desocupadas. O governo de Alagoas planeja reconstruir em locais seguros algumas localidades destruídas pelas enchentes. As prefeituras do Rio de Janeiro e de Angra dos Reis começam a realocar as favelas implantadas desordenadamente nas encostas. Somente no Rio, mais de 2 milhões de metros quadrados seriam liberados para reflorestamento, reduzindo a poluição, reduzindo o lixo nas encostas, melhorando as condições de saneamento e de segurança da população afetada. Portanto, os impactos social, geográfico e ambiental seriam imensos.

É preciso encarar os problemas de frente. Talvez as grandes tragédias recentes possam ao menos contribuir para reverter a situação. E a Copa do Mundo de 2014 pode proporcionar grandes e sérios investimentos na qualidade de vida das principais capitais do Brasil.

*Alberto Sayão é professor da PUC-Rio. sayao@puc-rio.br

Fonte: Estadão

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