Rubens Paiva, uma história ainda inconclusa na engenharia

Aparentemente, ele não teve tempo de fazer uma longa história na engenharia. Poderia tê-la construído na política partidária. Afinal, eleito deputado federal em outubro de 1962 por São Paulo, pela legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), tinha um amplo caminho a percorrer. Mas não conseguiu seguir adiante. Com o golpe militar de 1964 teve o mandato cassado.

Rubens Paiva, que nasceu em Santos (SP), era decididamente um homem inquieto e preocupado com o destino do País. Formou-se engenheiro civil pela Universidade Mackenzie em 1954, numa fase em que se vivia saudável efervescência política. Tanto é que participou da campanha nacionalista “O petróleo é nosso” e manteve presença ativa no movimento estudantil. Viu as mudanças políticas ensejadas pela campanha de Juscelino Kubitschek à Presidência da República e, em 1962, entendeu que poderia dar valiosa contribuição ao crescimento e à política do País integrando os quadros da Câmara dos Deputados.

Mas a democracia brasileira equilibrava-se num fio de navalha. Com o golpe de 1964 ficou demonstrada a fragilidade das condições políticas que a sustentavam. Cassado, apercebeu-se de que seria muito difícil acomodar-se a uma vidinha recolhida, medida apenas pelas atividades profissionais. Além disso, como suportar aquele ambiente de perseguição, com atos institucionais se sobrepondo ao estado de direito?

Naquelas circunstâncias achou – e os amigos também acharam – que o mais aconselhável era mudar de ares. Por isso partiu para o exílio. Depois de passar nove meses na Iugoslávia e na França, reconheceu que não era aquilo que pretendia. O seu chão era o Brasil. O motivo de sua existência estava aqui, com a família e com as atividades profissionais. Então, planejou o retorno. Antes, viajaria a Buenos Aires, onde gostaria de encontrar alguns amigos e se inteirar da situação interna brasileira. Mas, com a escala do voo, no Rio de Janeiro, desceu da aeronave a pretexto de tomar um cafezinho e o que fez foi pegar outro voo, com destino a São Paulo, para surpreender e alegrar a família.

Dono de duas empresas de engenharia, a Geobrás e a Paiva Construtora, ele poderia aplicar-se e aprofundar-se em diversos empreendimentos. Mas era um homem cujas ações eram pautadas pelas ideias, invariavelmente avançadas. Não tinha como ajustar-se unicamente às questões de sua profissão. Pensava o Brasil, situando-o no futuro. E seria assim que deveria trabalhar por ele. Por esse motivo resolveu fundar, com o editor Fernando Gasparian, o Jornal de Debates. E até dirigiu o jornal Última Hora.

A suspeita de que ele estivesse envolvido em ações subversivas, relacionadas a uma senhora exilada, filha de um parlamentar, também cassado, levou a ditadura a prendê-lo no dia 20 de janeiro de 1971. Morreu no dia seguinte, por conta das pancadas a que foi submetido no Destacamento de Operações Internas (DOI), no Rio de Janeiro. O responsável direto pelo assassínio está identificado e foi denunciado em fevereiro último pela Comissão Nacional da Verdade.

Embora, em 1992, a então prefeita de Santos, Telma de Souza, o tenha homenageado, dando-lhe o nome ao Terminal Municipal de Passageiros no bairro do Valongo, e seu nome também haja sido dado à estação do metrô do Rio, no bairro da Pavuna, a história de Rubens Paiva, na engenharia, continua inconclusa e precisa ser resgatada.

O engenheiro, morto em 1971

Fonte: Revista O Empreiteiro

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