São Paulo pode se inspirar em Nova York para crescer com qualidade

São dois cenários que fundem múltiplas etnias e diferentes idiomas, além do português e do inglês. Algumas regiões urbanas são dominadas por arranha-céus, embora no restante do território predomine edifícios de poucos andares e até residências. Nos grandes corredores viários, há uma variedade de restaurantes e lanchonetes que reflete a diversidade local. Até as zonas decadentes, malcuidadas e sujas se assemelham. Em espaço verde, Nova York tem o Central Park, e São Paulo proporciona o Ibirapuera; em atividade cultural, a primeira tem o Lincoln Center e o Moma, e a capital paulista tem o Teatro Municipal, a Sala São Paulo e o Masp; a 5th Avenue e a Wall St. rivalizam com a avenida Paulista e a rua Oscar Freire.

Para quem já viveu as duas cidades, ao longo dos anos, a primeira diferença de Nova York é a sensação de segurança pública, em vista do policiamento ostensivo e das estatísticas que mostram a queda dramática de crimes desde a administração do prefeito Giuliani, na década de 90, que decretou a “tolerância zero” com relação a qualquer tipo de delito, quando a cidade tinha a fama de “perigosa”, principalmente para turistas desavisados. Isso foi conseguido com o reforço do policiamento, a pé e com viaturas, perceptível mesmo no trânsito intenso, quando alguém ameaçava estacionar em local não permitido.
Em comparação, São Paulo já acumula, somente este ano, uma dezena de casos de “arrastão” em restaurantes por quadrilhas organizadas. A polícia ainda não efetuou prisão que pudesse acabar com o problema. Ao mesmo tempo, cresce o número de ataques a policiais nos seus horários de folga, quando estão em trajes civis. Mesmo com as eleições municipais em outubro, nenhum candidato a prefeito incluiu ainda a segurança pública como tema principal de sua agenda.

A maioria dos corredores viários em Nova York é dotada de ciclovias e possuem sentido único de fluxo para automóveis, com cruzamentos com faixas de pedestres e semáforos. O metrô cobre toda a área urbana, com linhas normais e expressas (que atravessam a cidade com poucas paradas), e funciona integrado com a malha de linha de ônibus, que descem por algumas avenidas em direção ao chamado downtown, e sobem por outros corredores em direção à cidade alta, o chamado uptown. Tanto no metrô como nos ônibus os passageiros pagam com o cartão Metrocard ou a quantia exata numa máquina automática. A passagem custa US$ 2,50 — cara pelos padrões brasileiros, mas que se justifica pela funcionalidade do sistema nova-iorquino — ressalvando-se que os trens e ônibus ficam lotados na hora do rush, igual a São Paulo, mas sobressai a regularidade do sistema.

*A travessia (a pé ou debicicleta) da ponte do Brookliné atração de Nova York

O tráfego caótico parece ter algumas regras sagradas, que mesmo os táxis amarelos de Nova York respeitam. A conversão para esquerda nos semáforos e a obrigatoriedade da conversão para direita, para quem está na faixa desse lado, funcionam escrupulosamente. Os táxis já não trabalham com o vidro de segurança fechado — o que pode ser um sinal claro da segurança urbana.
A limitada rede de metrô em São Paulo, mesmo conjugada com os trens de subúrbio, ainda obriga boa parte da população a enfrentar ônibus lotados, que se arrastam pelos corredores exclusivos nos horários de rush, num mar de automóveis particulares – na sua maioria com apenas o condutor, sem passageiros. Aí, quando chove, os semáforos param de funcionar, as avenidas marginais ficam alagadas — a cidade literalmente para.
Os rios Hudson e East em Nova York, usados como hidrovias para cargas e para cruzeiros de turistas, fazem inveja ao paulistano por suas águas límpidas e as belas pontes que ligam a ilha de Manhattan ao continente e a Long Island, principalmente quando iluminadas à noite. Eis aí um desafio aos governantes de São Paulo — no Palácio das Bandeirantes e na Prefeitura. Limpar os rios Pinheiros e Tietê até 2014, ano da Copa do Mundo, eliminando o mau cheiro e “revegetando” as suas margens. Estas poderiam ser “adotadas” por um consórcio de empresas estabelecidas nas suas vizinhanças, que terão interesse em melhorar o entorno – como já é feito em algumas praças da cidade.
Essa providência poderia ser parte de um programa amplo de reurbanização das marginais —mas vamos nos restringir a ela apenas, a fim de que possa ser executada no prazo. A tecnologia para a despoluição existe; talvez faltem estudos mais detalhados. Mas o paulistano está farto de ver as escavadeiras tirando areia do fundo dos rios, ano após ano, e o mau cheiro continuando no ar, saudando os viajantes que chegam a São Paulo pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos.

*O poder público aproveita o transporte, pelo rio Hudson,em favor da melhoria da qualidade da vida urbana

A Fiesp poderia promover um concurso nacional de arquitetura para restaurar ou repaginar as pontes que cruzam os dois rios, individualizando-se cada uma delas, inclusive com iluminação noturna distinta, a fim de que possam ser identificadas facilmente de longe. Com os rios limpos e desodorizados, pode-se até ousar em pensar num cruzeiro fluvial, inspirando-se no bateau mouche de Paris — por que não?
A ponte de Brooklin, sobre o rio Hudson, é transposta a pé e de bicicleta por milhares de nova-iorquinos e turistas nos fins de semana, numa faixa exclusiva, de onde se tem vistas incomuns da Ilha de Manhattan. A ponte estaiada Octavio Frias poderia receber um projeto parecido, interditando-se o tráfego nos fins de semana para receber ciclistas e pedestres. Estes terão uma visão inusitada das marginais e seus edifícios arrojados, num resultado monumental – uma paisagem vista normalmente pela janela do carro, de passagem, quando ninguém está prestando atenção em nada.

São Paulo busca um polo cultural

O Lincoln Center é a grande estrela do cenário musical de Nova York, com as duas salas de concertos, restaurante, feirinha de arte nos fins de semana, clube de jazz no edifício de frente, um enorme espaço de convívio com uma fonte iluminada no centro — restaurantes e bares no entorno, e
um público vibrante de todas as idades que o frequenta.
Talvez o Masp, com vão livre de 74 m, de onde se avista a cidade por cima, tenha o potencial de replicar um polo cultural de tamanha agitação. O espaço físico limitado poderia ser resolvido interditando-se nos fins de semana o tráfego de automóveis no trecho da avenida Paulista, entre Pamplona e Augusta. A programação musical teria que ser popularizada e diversificada, com palcos provisórios, para atender a gostos variados. Barracas de rua de bom padrão dariam o ar de feirinha de arte maior, hoje limitada ao vão do Masp, incluindo-se comidas e bebidas. O Parque do Trianon, com sua mata densa e segregado com uma cerca alta, teria que ser integrado de alguma forma. Embora o espaço público frequentado em massa iniba pequenos delitos, isso não dispensa o policiamento ostensivo para preveni-los — pois perpetuam a sensação de insegurança urbana. É a ideia da Virada Cultural, só que mais pulverizada e uma vez por semana, em muitas regiões da capital paulista.
Planejamento de longo prazo, com um Plano Diretor ou programas de intervenções que são respeitados pelos sucessivos prefeitos eleitos, independente da sua coloração política; uma estrutura organizacional na prefeitura que funcione pela competência dos técnicos de carreira, “gerenciando” a infraestrutura e os serviços essenciais da cidade; e obras contínuas para acompanhar o crescimento e superar a obsolescência das instalações físicas são os segredos que mantêm a exuberância de Nova York.

O lixo parece um problema insolúvel em Nova York, porque ocupa boa parte das ruas e corredores viários. A coleta não dá conta de esvaziar as lixeiras e levar os sacos amontoados em frente aos edifícios de escritórios e residências. A qualquer hora do dia e da noite, o pedestre esbarra no lixo.
O dono do cão que não remove as fezes do animal na rua paga US$ 100 de multa e os motoristas que buzinam em zonas de silêncio desembolsam US$ 350.
Nova York também tem o serviço de reboque mais eficiente do mundo. Estacionou em local proibido? É provável que não encontre seu veículo na volta e o motorista terá que pagar ainda os custos do reboque até o pátio da prefeitura, mais a multa.

Fonte: Padrão

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