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Aquecimento global resgata energia nuclear e incentiva fontes limpas

Depois do ostracismo a que ficou relegada após os acidentes nas usinas de Three Mile Island, nos EUA, em 1979, e de Chernobyl, na Rússia, em 1986, que atingiu dimensões assustadoras, a energia nuclear entra em nova era com a comprovação do fenômeno do aquecimento global, atribuído pelos cientistas à emissão dos gases do efeito estufa, produzidos pelos termelétricas a carvão, queimadas das florestas para dar lugar à agricultura, frotas de veículos acionados com derivados de petróleo e atividades industriais. A despeito de uma corrente de especialistas céticos, as usinas nucleares passaram a ser consideradas como alternativas para a redução desses gases, ao lado de outras fontes limpas como parques eólicos, plantas de energia solar etc. Os governos em todo o mundo estão repensando o uso da energia nuclear. As posições políticas são divergentes: na França, onde 79% da energia consumida vem de reatores nucleares, até o Partido Comunista é favorável; nos EUA são liberados subsídios para acelerar a implementação de 18 novas usinas; na Alemanha, onde se depende delas para atender a 31% da demanda energética, foi tomada a decisão de desativá-las; na Inglaterra há um ambicioso programa de novas plantas, que respondem por 20% da capacidade instalada; na Coréia do Sul o governo planeja construir oito novas usinas nucleares, as quais já produzem 45% da energia total. A Austrália que já mudou sua posição de não desenvolver novas minas de urânio, apresentou um relatório encomendado pelo governo propondo instalar sua própria indústria de energia nuclear, para reduzir os gases do efeito estufa. O país ocupa uma posição singular nesta questão – possui 38% das reservas mundiais de urânio de baixo custo, não opera uma única usina nuclear, pois 80% da energia é fornecidos pelo carvão relativamente barato e, o resto advém do gás natural. Esse estudo projeta quadruplicar a receita com exportação de óxido de urânio através do processo de enriquecimento, para produzir o próprio combustível nuclear. Ao mesmo tempo, recomenda que a elaboração de um programa para instalar sua primeira usina em 2020, para que sejam comissionadas 25 usinas até 2050, fornecendo um terço das necessidades do país e reduzindo os gases de efeito estufa em 20%. Essa energia é 50% mais cara do que a produzida em térmicas a carvão, o que poderia ser compensada com a adoção de taxas sobre emissão de carbono. As exportações de urânio da Austrália atingiram o recorde de 12 mil t em 2005, volume suficiente para gerar o dobro da sua própria demanda energética. Fala-se até de um renascimento da energia nuclear, com as plantas que estão sendo construídas em 13 países. Governos europeus estão retardando os planos para desativar suas usinas, enquanto os EUA e a Inglaterra querem simplificar os processos de aprovação ambiental de novas plantas, da mesma forma que países asiáticos aceleram os planos de novas usinas. Quanto à questão de segurança operacional do reator nuclear, os fabricantes afirmam que os projetos atuais são mais seguros, inclusive dotados de mecanismos de segurança passivos que dispensam a intervenção humana para interromper uma possível fissão nuclear – utilizando em seu lugar as leis de física. As agências reguladoras são também mais rigorosas quanto à segurança externa – o governo da Finlândia especificou que a usina em construção pela Areva francesa deve resistir ao impacto de um avião—uma clara alusão aos atentados de 11 de setembro em Nova York. Quanto à disposição dos rejeitos do combustível nuclear, a tendência atual é de armazená-los no subsolo. Embora estudos técnicos mostrem que a fissão nuclear é uma forma barata de produzir energia, o histórico das usinas nucleares mostra que são habituais os atrasos na construção, estouros significativos nos custos e “quebras mecânicas”. As empresas geradoras aparentemente revelam que estão dominando a tecnologia da manutenção, conseguindo manter as usinas em operação em 90% do tempo. Mas o grande desafio da energia nuclear está na política – nos regimes democráticos, os ventos a favor ou contra mudam segundo a velocidade aleatória das coalizões dos partidos políticos; a opinião pública é notoriamente volúvel e reflete, em alguns casos, o pensamento das autoridades da região onde vai ser instalada a usina nuclear. Os prazos de licenciamento são penosos, tanto que operadoras americanas e européias costumam instalar novas plantas ao lado das existentes, onde a população já não apresenta oposição. Outra alternativa técnica é expandir a capacidade de geração das usinas existentes. A Inglaterra está incentivando a expansão da indústria de energia nuclear, modificando sua legislação, de modo que o projeto de um reator é aprovado a nível nacional, deixando para as autoridades locais as questões secundárias. Os EUA, por sua vez, oferecem às operadoras de energia seguro de até US$ 2 bilhões contra atrasos no licenciamento. Outra dificuldade é o financiamento, já que as usinas nucleares apresentam custos e prazos maiores de construção que as térmicas a carvão ou gás. Poucas são as operadoras que podem suportar esses fatores. Em geral são as estatais. Aí entra a engenharia financeira. Um consórcio de empresas de energia e usuários da Finlândia está comprando uma nova usina nuclear com a contrapartida de garantia de fornecimento a preços de custo. O boom das energias limpas Nos EUA, existe uma corrida dos investidores de capital de risco disputando os empreendimentos de energia limpa, entre os quais se incluem os donos de negócios que ficaram milionários com a internet. Segundo fontes do mercado, esses investimentos de risco quadruplicaram nos últimos dois anos, passando de US$ 500 milhões em 2004 para quase US$ 2 bilhões em 2006; se todo tipo de investimento for computado, inclusive os de produção, o total pode ter atingido mais de US$ 60 bilhões em 2006. Essa corrida está sendo impulsionada pelos altos preços do petróleo, a necessidade de criar fontes mais seguras que se sujeitam a menos riscos políticos – e a crescente preocupação pelo fenômeno de aquecimento global, cujas evidências concretas estão à vista. Na visão dos analistas, por mais lenta que seja a adoção das fontes limpas de energia, esse processo vai gerar expansão espetacular para as empresas envolvidas. Mesmo sem poder precisar os horizontes de tempo em questão, as termelétricas a carvão e gás natural serão substituídas gradativamente pela energia solar e eólica, nos países que não disponham de usinas hidrelétricas; biocombustíveis vão desbancar a gasolina e o diesel, e fontes locais de geração terão preferência, ao invés das gigantescas usinas e linhas de transmissão. Diversos Estados americanos já lançaram metas para as fontes renováveis, como a Califórnia, que fixou em 20% da geração total até 2010. O Estado promove um programa conhecido como “Um milhão de telhados solares”, pelo qual vai investir US$ 2,9 bilhões em bônus para residências e empresas que instalarem painéis solares, além de crédito federal de impostos de 30% sobre o valor da instalação. Outras iniciativas incluem a obrigatoriedade na mistura de etanol na gasolina. Os planos da Comunidade Européia são mais ambiciosos ainda: 18% da produção energética obtida de fontes renováveis e 5,75% do combustível de transportes de fontes não fósseis até o ano de 2010. Para tanto, a produção de painéis solares teria que crescer 30% anuais para atender a essa demanda. No maior mercado mundial de energia solar, a Alemanha, o governo fixou o preço da energia renovável nos próximos 20 anos, numa escala decrescente ao longo do período, pagando até US$ 0,73 por kWh gerado na sistemas solares, comparado a cerca de um décimo dessa tarifa para fontes tradicionais e poluidoras. O custo da energia solar vem caindo rapidamente. As primeiras células que equipavam os satélites espaciais custavam US$ 200 por watt de energia gerada. Em 2005, o preço já havia recuado para cerca de US$ 2,70 por watt. Isso eqüivale a uma redução de quase 20% cada vez que a produção dobra. A escala de produção reduz o preço de forma inexorável, de modo que os subsídios apenas aceleram esse processo – e em tese, não deveriam ser permanentes. Isso aconteceu no Japão, onde os subsídios para energia solar terminaram em 2005. Quando foram introduzidos em 1994, os sistemas típicos custavam cerca de US$ 16 mil por kW produzido, com 50% pagos pelo governo. 500 sistemas foram instalados no primeiro ano. Dez anos mais tarde, o preço havia se reduzido para US$ 6 mil por kW e a população comprou 60 mil sistemas. Com o fim do subsídio, as vendas continuaram, embora o fato de as tarifas de eletricidade locais sejam das mais caras do mundo tenha facilitado a difusão da fonte solar. Entretanto, na maior parte dos países , as fontes renováveis continuarão sendo mais caras do que as convencionais num futuro previsível, o que significa que a energia limpa vai continuar dependendo dos subsídios públicos, que variam de acordo com a alta dos preços do petróleo e precisam ser renovados, com a aprovação do poder legislativo, de tempo em tempo. Tanto é que há quem acredite que se o barril de petróleo cair abaixo de US$ 50, a força das energias limpas ficará comprometida. Atualmente, a indústria da energia limpa está em alta. Muitos fabricantes de aerogeradores têm pedidos firmes para os próximos anos, assim como os produtores de biocombustíveis não terão produtos suficientes para entregar. A expansão da energia solar é tamanha, que há escassez de silício de alta pureza para os painéis solares, embora sua produção deva dobrar até 2010, e aí o preço pode até cair. Mas as leis de mercado são irredutíveis – somente sobreviverão as fontes renováveis no longo prazo se elas conseguirem ser competitivas com relação ao custo das energias tradicionais, sem ou com muito pouco subsídio.

Fonte: Estadão

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Quando não vale a pena economizar

“Foi uma surpresa, como outras que poderão ocorrer”, afirma o engenheiro Francis Bogossian, presidente da Associação das Empresas de Engenharia do Rio de Janeiro (Aeerj), ao se referir ao recente deslizamento de terra nas encostas do túnel Rebouças. Para ele, o problema pode se repetir em muitos outros municípios do Rio e do Brasil, como Salvador, na Bahia, e cidades do interior mineiro. Por isso mesmo, propôs em meados de 2006, à então governadora Rosinha Garotinho, a criação de um órgão estadual, semelhante à Fundação Instituto de Geotécnica do Município do Rio de Janeiro (Geo-Rio), para atender, com recursos e pessoal especializado, às dificuldades vividas pelos municípios na proteção de suas encostas. “A governadora entusiasmou-se com a idéia, mas estava em fim de mandato. O atual Secretário de Obras do Estado e vice-governador, que já viveu o problema na pele como prefeito no interior do Rio, também mostrou-se receptivo à idéia”, conta.

No entanto, a mesma ação não ocorreu por parte do governo federal. A Carta de Angra, documento das entidades de classe da construção enviado ao Ministério das Cidades também em 2006, com a proposição de uma Geo-Rio em âmbito federal, sequer foi respondida. “Nenhuma ação foi implementada. O que se pode esperar é uma sucessão de novos desastres a cada verão carioca”, diz.

Competência sem recursos

Mas, voltando à situação vivida no Rio, Francis Bogossian se diz temeroso de indicar, sem inspeções prévias, outros locais onde tragédias semelhantes ou ainda piores poderão ocorrer com as chuvas. Ele recorda as chuvas torrenciais que aconteceram na cidade há 40 anos, provocando o desmoronamento de várias construções em áreas de encostas e soterrando muitas vítimas. Na ocasião, a prefeitura criou o Instituto de Geotécnica (IG), que se transformou depois em Geo-Rio, especialmente para prevenir acidentes e projetar soluções. “O órgão congrega uma equipe das mais competentes de engenheiros, geólogos e técnicos especializados em geotecnia. A Geo-Rio é considerada a segunda melhor instituição do gênero no mundo, ficando atrás apenas da Geo Hong Kong”, destaca.

No entanto, chama a atenção para um aspecto importantíssimo: “Competência sem recursos é o mesmo que cirurgião sem bisturi. Entre 1993 e 1997, o volume de licitações na Geo-Rio atingia uma média de R$ 44 milhões por ano. Nos quatro anos seguintes, 2000/2003 – esta média caiu para R$ 29 milhões. A partir daí tornaram-se inexpressivos: R$ 1,4 milhão em 2004; R$ 7,5 milhões em 2005; R$ 7,4 milhões em 2006 e R$ 9,6 milhões até setembro deste ano”.

Por isso, defende investimentos contínuos na realização de estudos como medida fundamental para a apuração do melhor tratamento a ser dado às encostas, o qual pode ser passivo, uma solução barata e rápida, que consiste na drenagem das águas, para que não causem erosão e diminuam a resistência do terreno. “É uma drenagem superficial e profunda, com proteção de taludes e plantio de vegetação”, esclarece. Caso a inspeção indique problemas, o tratamento tem de ser ativo, isto é, constituído por obras de estabilização da encosta. “Os projetistas vão indicar os diferentes tipos de muros a serem usados e as soluções mais eficientes, rápidas e econômicas”.

Francis Bogossian é enfático: “a economia é uma medida errada. É preciso gastar para evitar acidentes, inclusive com mortes. As autoridades só querem resolver o problema quando aparece. Há falta de interesse para buscar verbas. Estudando com antecipação os problemas geotécnicos e desenvolvendo estudos preliminares, se gasta apenas 1% do que se gastaria com obras de reparo”.

Corte e aterros

Bogossian vai mais além, vai à causa do desmoronamentos, que é o desmatamento dos morros, para conseguir plataformas para construir moradias ou os tradicionais “puxadinhos”. Para ele, a responsabilidade é do poder público, que não oferece alternativa de habitação para as camadas mais pobres da população. “E o governo ainda financia compras de materiais para as ampliações em áreas planas, obtidas através de cortes e aterros que desestabilizam as encostas”.

A extinção do Banco Nacional da Habitação (BNH), há 21 anos, é considerada uma das causas do problema, pois provocou uma crise imobiliária da qual só agora o País começa a sair, por meio de nova legislação e aumento da oferta do crédito. Em sua análise, como o esforço se volta para a classe média, a população com renda até três salários mínimos continua sem opção, concentrando o maior déficit habitacional, pois não tem emprego com carteira assinada e não consegue comprovar renda, não restando outra saída senão morar em favelas, onde o número de pavimentos nas casas aumentou bastante, o que comprova a falta de opção.

Fonte: Estadão

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Rio de Janeiro à espera de outras tragédias anunciadas

A imagem de 7 mil t de terra caindo sobre a saída de uma das galerias do túnel Rebouças, uma das principais ligações entre as zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro, trouxe à tona uma grande preocupação de cariocas e fluminenses, principalmente quando se aproxima a temporada de chuvas de verão: onde é seguro transitar pela cidade e o que precisa ser feito para evitar os riscos de deslizamentos em encostas?

Enquanto especialistas tentam elaborar um diagnóstico da situação das encostas na cidade e buscam soluções para o problema, a Prefeitura do Rio e o Governo do Estado trocam acusações e transferem responsabilidades – por pouco não ocorreu uma tragédia, já que pelo Rebouças passam cerca de 190 mil veículos por dia.

No troca-troca público de acusações, o secretário municipal de Obras, Eider Dantas, afirmou que a causa do deslizamento havia sido um vazamento de água provocado por um cano furado da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgoto), localizado no alto do morro. Como resposta, a Cedae entrou com um processo na Justiça, por danos morais, contra o secretário e ainda devolveu a acusação, afirmando que testes feitos com corantes na tubulação detectaram que o problema estava na ineficiente drenagem de galerias de águas pluviais, cuja manutenção é de responsabilidade da prefeitura.

Segundo a assessoria da Cedae, não é atribuição da empresa vistoriar encostas. Ainda segundo a assessoria, as obras de infra-estrutura de programas como Rio Cidade e Favela Bairro, ambos da prefeitura, são realizadas sem consulta ou acompanhamento por técnicos da companhia.

Em outras palavras, além das ligações irregulares em favelas, existe, ainda, a possibilidade de alguma obra oficial não estar dentro dos padrões de segurança mínimos. Independente disso, o presidente da Cedae, Wagner Victer, vem repetindo à exaustão que se um cano vazando água pudesse causar o estrago que ocorreu no Túnel Rebouças, todas as encostas com favelas já teriam desmoronado.

“Noventa por cento das ligações em favelas são ‘gatos’, e todo ‘gato’ vaza água”, afirma.

Cada vez menos investimentos

Independente de quem foi o responsável pelo problema no Túnel Rebouças, os níveis de investimentos no Programa de Contenção de Encostas da prefeitura vem caindo vertiginosamente, segundo dados do Tribunal de Contas do Município, usados como base para um estudo da Comissão de Orçamento da Câmara de Vereadores do Rio.

Pelos dados, em 1996, último ano do primeiro mandato do prefeito Cesar Maia, a verba para obras em encostas era de R$ 43,547 milhões. Dez anos depois, em 2006, o TCM acusa uma queda nos gastos para R$ 2,598 milhões, descrevendo, no relatório, um quadro de adiamento de obras de baixo risco, outras urgentes, que ficaram paradas por falta recursos e carência de pessoal, para vistoria de obras públicas.

“Desde 2005, a prefeitura vem dando prioridades para obras emergenciais e para o que chamam de obras de alto risco. Não fazem mais as preventivas”, afirma a vereadora e presidente da Comissão de Orçamento da Câmara, Andréa Gouvêa Vieira (PSDB).

O secretário Eider Dantas contesta o resultado do relatório do TCM. “Nós investimos no Rio de Janeiro, em 20 anos, uma fábula em proteção de encosta. Reflorestamos a área do Rebouças e construímos um muro de contenção. Mesmo assim, a força da chuva causou o desabamento”, disse.

Segundo o diretor de obras da Geo-Rio (Fundação Instituto de Geotécnica do Município do Rio de Janeiro), Márcio Machado, há em andamento, atualmente, 14 contratos de obras de contenção, que resultam em 35 frentes de trabalho, num investimento total de cerca de R$ 7 milhões. São obras preventivas ou corretivas, como no caso do corte do maciço da Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, zona sul da cidade, que na avaliação do engenheiro é um dos trabalhos atuais mais importantes, devido ao risco de queda de rochas ao lado da Universidade Santa Úrsula.

Esses números, entretanto, não atingem as metas anuais com as quais a própria Geo-Rio trabalhava no início de 2007, quando previa a necessidade de realizar obras em 38 encostas, além de quatro recuperações e manutenções de muros de contenção. Boa parte desses projetos não saiu do papel por falta de verba.

Para o professor do Departamento de Engenharia Civil da PUC-Rio, Alberto Sayão, a falta de recursos faz com que a Geo-Rio invista apenas nas obras emergenciais, como no caso do Túnel Rebouças. “É preciso que haja recursos para buscar novas tecnologias, aumentar as vistorias e a prevenção”, afirma Sayão, lembrando que hoje o risco de deslizamento é detectado apenas visualmente pelos técnicos, quando seria necessário realizar estudos para conhecer o tipo de material das encostas, a situação física em que se encontram e adotar medidas de prevenção.

Onde mora o perigo

A Geo-Rio entregou em fevereiro de 2007, um estudo sobre a situação atual das encostas da cidade. O diagnóstico identificou 32 pontos de risco em encostas da capital fluminense, onde vivem pelo menos 6.505 pessoas, em constante ameaça de desabamento. Ainda de acordo com o levantamento, 157.581 motoristas se arriscam ao passar por estradas e túneis da cidade. A avaliação é de que as obras de estabilização e drenagem, remoções de moradias em áreas de risco, reflorestamento e delimitação da área ocupada custariam aproximadamente R$ 26,4 milhões.

As avenidas Niemeyer (entre o Leblon e São Conrado, na Zona Sul) e Grajaú-Jacarepaguá (Zona Norte), além dos túneis Zuzu Angel, na Gávea (Zona Sul), e Noel Rosa, em Vila Isabel (Zona Norte), são os pontos que mais inspiram cuidados, principalmente em dias de temporais.

Em junho deste ano, a Prefeitura do Rio iniciou a elaboração de dez projetos de engenharia dos 32 pontos listados. As localidades do Montante e do Morro do Encontro, na estrada Grajaú-Jacarepaguá, estão entre as priorizadas, assim como Vila Verde, na Rocinha; e Grota do Alemão, no Morro do Borel. Para essa fase de projeto, a prefeitura recebeu R$ 240 mil do Ministério das Cidades. Após essa etapa, serão, ainda, pleiteados recursos para a execução das obras.

O que fazer

Além da falta de verbas, a prefeitura também recebe muitas críticas de especialistas por falta de vontade política para atacar o problema de frente. “Ainda estávamos no ano 2000 quando entregamos, a pedido da própria prefeitura, através da Secretaria de Meio Ambiente, três relatórios sobre a situação das encostas no Rio. Mas nada foi utilizado até agora”, conta Ana Luiza Coelho Netto, coordenadora do Laboratório de Geo-Hidroecologia (Geoheco) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo ela, o básico de toda ação preventiva contra deslizamentos em encostas deveria ser o monitoramento contínuo, não só com vistorias nos locais, mas com análises técnicas da situação do solo e do entorno das áreas. Ana Luiza enfatiza a questão do reflorestamento, mas destaca a diferença entre vegetação arbórea e de floresta. No caso do Túnel Rebouças, ela explica que ali há vegetação arbórea, o que não necessariamente é capaz de impedir problemas como erosão e deslocamento do solo.

Mas não é só isso. “O ideal seria resgatar as funções ecológicas e hidrológicas das áreas de encostas, restabelecendo a estabilidade do solo. Todo esse processo, no entanto, demanda muito tempo para surtir efeito : uns 40 ou 50 anos. Isso não quer dizer que não adianta fazer. Ao contrário, é uma necessidade urgente, e as autoridades deveriam investir cada vez mais em tecnologias que possam baratear e acelerar esse processo”, diz.

Como a maioria dos especialistas no assunto, Ana Luiza considerou acertada a ação dos técnicos da Geo-Rio, no caso do Túnel Rebouças, com a interdição do local depois do deslizamento. Ela ainda avalia que o muro de concreto erguido ali funcionou bem, evitando que toda aquela lama se precipitasse direto e rapidamente sobre a pista. Mas a coordenadora da Geoheco explica que é preciso focar também áreas mais distantes dos centros urbanos.

“A noção de risco está muito associada ao impacto. No caso de deslizamento de terra, o impacto mais grave é o que atinge as pessoas, pondo em risco suas vidas. Por isso é compreensível que as autoridades públicas foquem mais suas ações em áreas povoadas. Mas uma das necessidades relatadas na avaliação que fizemos no ano 2000 é a de construir barreiras nas encostas montanhosas”, afirma Ana Luiza.

Para a especialista, as conseqüências de um deslizamento numa dessas regiões mais remotas atinge uma área muito maior que a do próprio deslizamento em si. Os detritos levados, por exemplo, rio abaixo, sejam de lixo ou de material da própria floresta, acaba soterrando as áreas de baixada. Quando chove, o resultado são enchentes e prejuízos grandes para a cidade.

“Existem, ainda hoje, verdadeiras clareiras na baixada de Jacarepaguá, na Zona Oeste, por exemplo, herdadas dos temporais de 1996. Nessas áreas não foram feitas nem obras de retenção, nem reflorestamento. Certamente este é um dos pontos críticos de risco numa próxima temporada de chuvas fortes”, avalia.

Fonte: Estadão

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Amazônia: Desenvolver ou preservar?

Discussão sobre o destino da maior floresta tropical do mundo provoca reações
antagônicas. Para uns é impossível desenvolver e preservar; para outros a
sustentabilidade é a solução para evitar a devastação

Na Amazônia brasileira está um terço das florestas tropicais do mundo. Estima-se que a floresta possua perto de 60 bilhões de m³ de madeira. Mas os recursos ali concentrados vão muito além de simples toras para corte. Na região amazônica encontra-se o maior acervo de biodiversidade do planeta, tanto em número de espécies quanto em endemismo – animais e vegetais encontrados apenas em determinado local. Um ecossistema riquíssimo, porém frágil e vulnerável. Aos poucos isso tem sido assimilado no País, com o reconhecimento internacional dos limites ambientais dos modelos de desenvolvimento até então em vigor. "A região amazônica deve ser desenvolvida, mas não no modelo predatório como ocorreu com a mata atlântica, no qual só restou cerca de7% de sua cobertura vegetal", adverte Magno Castelo Branco, coordenador de meio ambiente da ONG Iniciativa Verde.
Para o ambientalista, a pressão para a ocupação e uso do solo na região é grande, e se o objetivo for efetivamente preservar a Amazônia não é possível ignorar a realidade atual. O entendimento das necessidades sociais e a inclusão da população local em modelos sustentáveis de desenvolvimento não devem apenas ser debatidos, mas tidos como premissas básicas para o desenho de qualquer estratégia efetiva de conservação da Amazônia. Sendo assim, "a aplicação de modelos sustentáveis de desenvolvimento da região torna-se essencial para que a floresta amazônica não tenha o mesmo destino da mata atlântica", diz Branco.
Já Pedro Leitão, secretário geral do Fundo Brasileiro para Biodiversidade (Funbio), acha difícil manter intocadas as riquezas existentes na região e concorda que é legítima a preocupação com o desenvolvimento das comunidades locais. "A população da região precisa sobreviver, ter acesso à educação, saúde, bens materiais. Não pode ficar isolada. Mas essa integração não precisa vir por meio de projetos de desenvolvimento que agridam a natureza. Um zoneamento florestal é fundamental para controlar o que pode e o que não pode ser desenvolvido na Amazônia. Gerar riqueza não é sinônimo de destruição ambiental."
Leandro Valle Ferreira, pesquisador da Rede Temática de Pesquisa em Modelagem Ambiental da Amazônia (Geoma), do Museu Paraense Emílio Goeldi do Pará, diz que não adianta pensar que a simples criação de cinturões verdes, formados por unidades de conservação ou terras indígenas vai limitar o uso comercial de determinada área. É preciso definir claramente onde as atividades econômicas podem ser implantadas e em que lugar aquelas ligadas à conservação são necessárias. "Isso só se dará por meio de um planejamento integrado do uso do território por meio do zoneamento ecológico-econômico", afirma o pesquisador. Essa proposta de ordenamento territorial contempla todas as atividades possíveis de serem realizadas na Amazônia legal. Segundo Ferreira, existe, por exemplo, espaço para aumento da expansão das atividades econômicas tradicionais, como pecuária e agricultura, que já desmataram cerca de 17% da região e podem chegar até 20%, mas têm de parar por aí. Outras ações devem ser implementadas na opinião do especialista, como o aumento da preservação em Unidades de Conservação de Proteção Integral, o respeito às terras indígenas e principalmente o uso econômico florestal da Amazônia, em terras públicas e privadas. "É preciso romper com o modelo tradicional de ocupação, não se pode encarar a Amazônia como uma região a ser explorada irracionalmente. O ordenamento territorial pode ser uma solução para subsidiar as decisões de planejamento socioeconômico em bases sustentáveis", diz Ferreira.
Já para o professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em produção agropecuária, Guilherme Leite da Silva Dias, é impossível existir produção agropecuária sem impactar a Amazônia. Na opinião do professor, o principal problema para a produção ambientalmente correta na região é a extrema pobreza dos solos da floresta. A falta de terras mais ricas torna inviável uma cultura intensiva baseada na alta produtividade em pequenos espaços, exigindo maior cobertura vegetal nativa. De acordo com Dias, o sistema produtivo deveria ser removido do ecossistema da Amazônia para outras áreas que já são cultivadas no restante do País, ampliando sua capacidade produtiva. "Para atender a demanda a produção bovina é preciso crescer 35% a cada dez anos. Continuando nesse ritmo, em 20 anos não teremos mais Amazônia", afirmou o professor ao portal Amazônia .org.br.
"Além disso" – observa Magno Castelo Branco – "a maioria das análises que tratam de modelos de desenvolvimento na região são tendenciosas e desconsideram a questão das mudanças climáticas e da demanda global de alimentos". Os modelos do IPCC (sigla em inglês para painel internacional de mudanças climáticas), segundo o pesquisador, prevêem uma redução na produtividade agrícola no Brasil e um aumento enorme de produtividade nas regiões mais frias do globo, como o Canadá e o norte da Rússia. Isso significa que vamos produzir menos alimentos, ao mesmo tempo em que outras regiões vão passar a produzir mais, em um cenário de 100 anos. Some-se a isso o fato de a floresta amazônica ser o motor hidrológico que alimenta o ciclo de chuvas na área do agronegócio brasileiro. Com a redução da cobertura florestal para o desenvolvimento de outras culturas, inevitavelmente o padrão de chuvas no resto do País vai mudar. "Apesar de a floresta ser vital para a manutenção do agronegócio, a região em si não é adequada para esse fim."
O pesquisador Leandro Valle Ferreira tem uma visão um pouco diferente. Ele concorda que normalmente os solos da Amazônia são pobres, mas existe tecnologia para superar este problema. "A área desmatada na Amazônia seria suficiente para a produção de grãos e pecuária. Não se precisaria desmatar mais para produzir e ainda seria possível recuperar áreas já desmatadas. Contudo, isso só se faz com investimentos maciços de recursos para aumentar a produtividade", explica.
Segundo a professora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Oriana Almeida, a Amazônia vem sendo ocupada por uma pecuária extensiva e de baixa produtividade. A grilagem e o processo de ocupação com a baixa produtividade são grandes equívocos na opinião de Oriana, que vê formas mais inteligentes de desenvolvimento na região. "Há uma variabilidade muito grande de processos de ocupação na Amazônia e várias experiências, como a integração entre grandes produtores ou de madeireiros com pequenos produtores. Não há uma Amazônia, existem várias e é importante se conhecer cada caso para tratar o problema de forma pontual."
É consenso entre os especialistas que uma das atividades que mais evidenciam a devastação da Amazônia é a extração de madeira. Boa parte das perdas da floresta se deve à exploração desordenada, com grande desperdício, dos recursos da mata virgem. Entretanto, há os que acreditam na possibilidade de extrativismo vegetal acontecer de outra forma, mais sustentável. "A exploração madeireira quando feita com técnicas de manejo florestal é uma forma adequada de manter a cobertura vegetal nativa e ao mesmo tempo continua sendo uma atividade de grande rentabilidade", revela Oriana Almeida.
"O extrativismo sustentável e a criação de selos e certificações sérias que valorizem os produtos extraídos e manufaturados de forma ambientalmente correta na região podem ser boas alternativas", complemente Magno Castelo Branco. "O problema é que é muito mais barato desmatar ilegalmente do que produzir madeira extraída legalmente e certificada." Para Oriana, o fundamental é que os ciclos de corte sejam respeitados. "A atividade madeireira traz uma renda enorme para a região e como tal deveria ser praticada de forma ambientalmente responsável. Por meio dela é possível manter a cobertura vegetal, as funções ecossistêmicas e gerar renda." Mas Oriana não deixa de destacar um problema crônico para isso acontecer na Amazônia, que é garantir o cumprimento da legislação.
De acordo com especialistas, o Brasil tem uma das melhores legislações ambientais do mundo, mas difícil de ser implementada. "A legislação para propriedades privadas é bem severa, com a reserva legal de 80%. Se a lei vigente fosse empregada haveria um enorme potencial de conservação da floresta", afirma Oriana. A fiscalização é ineficiente e não dá conta de controlar uma região tão grande e complexa, gerando perdas irreparáveis.
"Está ocorrendo um extravio enorme do patrimônio genético causado pelo desmatamento que o governo brasileiro não tem conseguido frear", acrescenta Branco, lembrando que várias espécies animais e vegetais têm uma distribuição bastante reduzida, mesmo dentro de um bioma enorme como a Amazônia. "O Brasil é o principal responsável pela perda desse patrimônio genético que ainda não possui valor estimado." Outra problema é a burocracia. "Para um pesquisador brasileiro conseguir uma autorização e coletar material nas florestas é uma luta que dura meses, enquanto qualquer um que chegar lá informalmente pode retirar o que quiser à vontade", diz Branco.
São fortes os interesses em torno da exploração dos recursos naturais da Amazônia. Para enfrentar a cobiça é necessário criar meios mais atraentes de rentabilidade do que derrubar árvore ou praticar biopirataria. "Deve-se agregar valor aos recursos naturais, de modo que a floresta valha mais viva do que no chão, oferecendo oportunidades interessantes para as populações locais, que precisam ser desenvolvidas", sustenta Pedro Leitão, que defende o pagamento pelos serviços prestados pela floresta. "Precisamos dela, então devemos garantir economicamente sua sobrevivência, pagando por isso, inclusive às populações locais, seus melhores guardiões." Aos poucos, vai se formando consenso na sociedade do potencial da floresta amazônica em pé: um verdadeiro banco genético, representando uma promissora fonte de exploração econômica para as indústrias de alta tecnologia, como a farmacêutica, cosméticos, alimentícia e outras.
"Experiências em comunidades locais têm demonstrado que acrescentar valor ao produto extrativista é uma estratégia importante, como a produção de sabonetes, perfumes, sandálias de borracha natural, mas isso não se faz sem planejamento e principalmente sem capacitação das comunidades", adverte Leandro Valle Ferreira. O ecoturismo é um modelo que deu certo em outras regiões do País, como o Pantanal, e pode se encaixar na região, inclusive gerando mais renda para as populações locais. "Os modelos de atividades múltiplas podem melhorar a qualidade de vida dos povos da floresta", acrescenta Magno Castelo Branco. Mas, segundo o coordenador da Iniciativa Verde, o sucesso dessas formas de exploração é diretamente dependente da presença de instituições fortes e comprometidas em garantir a sustentabilidade das iniciativas por meio de embasamento científico e um constante monitoramento das atividades extrativistas.

Fonte: Estadão

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Áreas de risco para a engenharia

Em 1981, na cidade de Mairinque – SP, várias edificações apresentaram trincas e afundamentos piso. Em 12 de agosto de 1986, o bairro Lavrinhas, em Cajamar, município integrante da Região Metropolitana de São Paulo, foi afetado por fenômenos de colapso e subsidência de grandes proporções, especialmente impactantes por ocorrerem em plena área urbana. Cerca de 60 dias após os primeiros sinais, na principal área atingida três casas haviam sido tragadas em uma cratera de cerca de 30 m de diâmetro e 15 m de profundidade, enquanto recalques e trincas afetaram dezenas de outros imóveis até distâncias de 400 m do local.

Em março de 1988, no município de Sete Lagoas, Região Metropolitana de Belo Horizonte, um afundamento de cerca de 20 m de diâmetro e 5 de profundidade tragou parte da arquibancadas do Estádio Municipal, muros e paredes de edificações próximas, sendo que sinais de movimentação foram observados em edificações situadas em um raio de 40 m.

Em meados de 1992, no município de Almirante Tamandaré, Região Metropolitana de Curitiba, foram observados vários pequenos afundamentos de terreno, trincas de edificações, inclinações de edificações, descolamento entre alvenaria e peças estruturais, rebaixamento do nível d’água em poços, cacimbas e pequenos lagos.
Em 28 de dezembro de 1999, à Rua Simplício Mendes, região central da cidade de Teresina – PI, verificou-se grande afundamento com comprometimento total de várias edificações.

Em 1999, no município de Cajamar – SP, parte das edificações da moderna fábrica da Natura (Cosméticos) sofreu danos estruturais advindos de afundamentos em suas fundações.

Em meados de junho de 2007, no município de Almirante Tamandaré, Região Metropolitana de Curitiba, ocorreu um dos maiores afundamentos de que se tem notícia na região, com forma elipsoidal, 50 m de comprimento, 40 m de largura e cerca de 30 m de profundidade.

Em 14 de agosto de 2007, também no Paraná, no Bairro de Campininha do Capivari, Município de Bocaiuva do Sul, um outro colapso com uma cratera de 5 m de diâmetro e 5 m de profundidade.

Muitos outros eventos similares de afundamentos de terrenos já aconteceram por todo o país, e que, por não terem causado danos maiores, não obtiveram repercussão de mídia e a devida atenção de especialistas para sua análise e registro técnicos.

Dois fatos em comum em todos esses eventos: foram no passado precedidos de eventos semelhantes em suas regiões e todos eles aconteceram em terrenos calcários.

Esse último traço comum expressa ainda uma especificidade: terrenos calcários com feições cársticas, ou seja, rochas calcárias que apresentam feições superficiais (cavernas, lapas, drenagens intermitentes, sumidouros e ressurgências, dolinas – depressões de relevo circunscritas, vales secos…) e subterrâneas (cavernas, fendas, vazios e canais subterrâneos intercomunicantes) originadas de processos lentos de dissolução química da rocha calcária.

As regiões de Cajamar e Mairinque afetadas pelos abatimentos estão situadas em rochas calcárias do Grupo São Roque, as de Sete Lagoas em calcários do Grupo Bambuí, as de Almirante Tamandaré em calcários do Grupo Açungui e as de Teresina, provavelmente em bancos calcários da Bacia Sedimentar do Parnaíba (para esse caso em particular, faltam ainda estudos mais conclusivos).

As rochas calcárias são rochas carbonáticas, em que predominam os carbonatos de cálcio (CaCO3) e magnésio (MgCO3), que as compõem em diferentes proporções, formando então os calcários calcíferos (mais ricos em carbonato de cálcio) e os calcários dolomíticos (mais ricos em carbonato de magnésio). As águas de chuva (H2O) interagem com o gás carbônico (CO2) do ar produzindo um ácido fraco, o ácido carbônico (H2CO3). Essas águas assim levemente acidificadas, ao encontrar um maciço calcário fraturado, penetram por essas descontinuidades e vão lentamente, através do tempo geológico, dissolvendo a rocha e produzindo vazios que podem evoluir para grandes fendas, cavernas e canais por onde fluem as águas interiores. A maior parte das famosas e belas cavernas brasileiras, com suas estalactites e estalagmites, são feições originadas desse fenômeno de dissolução de rochas calcárias.

O principal fenômeno cárstico de interesse da engenharia é o afundamento, brusco ou lento, de terrenos. Esses afundamentos, que podem destruir por completo edificações de superfície, colocando em risco patrimônios e vidas humanas, são decorrentes do colapso de um teto de caverna (que pode estar a dezenas de m de profundidade) ou da contínua migração de solo para o interior de fendas ou cavernas subterrâneas, o que, com o tempo, vai também determinar um afundamento em superfície. Em boa parte do território brasileiro, por decorrência de seu clima tropical úmido, as rochas calcárias cársticas estão cobertas por uma camada de solos de espessura variada, os chamados carstes cobertos, o que torna muito comum o abatimento decorrente da migração de solo para o interior de fendas e cavernas.

Quase sempre a aceleração de um processo de afundamento de terreno em regiões cársticas está associada a longos períodos de estiagem e a algum tipo de interferência humana no lençol freático, especialmente a um seu rebaixamento mais intenso decorrente de uma excessiva exploração de água subterrânea através de poços profundos, o que indica que o rebaixamento do lençol constitui o fator causal indutor mais evidente desse tipo de fenômeno.

Um outro grande risco advindo da ocupação de terrenos cársticos está relacionado à construção de grandes reservatórios de água (barragens para produção de energia ou abastecimento). As águas do reservatório podem migrar em grande vazão para os vazios da rocha calcária, não só impedindo o completo enchimento do lago, como provocando variações de nível, fluxo e pressões no lençol subterrâneo, o que, de sua parte, coloca em risco a própria obra da barragem, como também outras edificações próximas.

Do ponto de vista ambiental, os terrenos cársticos, pela franca e rápida drenagem com que podem propiciar a comunicação entre águas superficiais e águas subterrâneas, obrigam um redobrado cuidado para que se evite a contaminação do lençol freático por poluentes urbanos, industriais ou rurais de superfície.

Depreende-se que os terrenos calcários, pela possibilidade de apresentar feições cársticas, devem ser entendidos como típicas áreas de risco para a ocupação humana por obras de engenharia: cidades, barragens, termoelétricas, instalações industriais, estradas, linhas de transmissão, etc., sugerindo, portanto, cuidadosa investigação preliminar a qualquer decisão de engenharia. De tal forma que, detectadas feições cársticas, ou o empreendimento humano em questão possa ser deslocado para situações geologicamente mais seguras ou, impedido ou desaconselhado esse deslocamento, possa-se adotar as medidas necessárias para que acidentes e futuros problemas venham a ser evitados.

Uma das medidas que comumente é cogitada, e às vezes adotada, para o tratamento de terrenos cársticos é a injeção de calda de cimento, com o que se procuraria obturar os vazios subterrâneos. A experiência tem mostrado que essa medida raramente traz algum sucesso, uma vez que os volumes necessários para se conseguir a desejada obturação são exageradamente grandes e de quase impossível quantificação anterior exata. Um outro aspecto que recomenda muita ponderação para se decidir pela alternativa de injeção de calda de cimento é a possibilidade de se interferir negativamente no escoamento da água subterrânea da região, implicando em reflexos que podem ser muito problemáticos para áreas próximas.

No Brasil são abundantes os terrenos calcários, e nesses terrenos são abundantes as feições cársticas. A identificação dessas feições, pelo levantamento do histórico regional e por exame superficial dos terrenos, é um procedimento fácil e corriqueiro para a geologia. Como também são conhecidas e eficientes as técnicas geológicas diretas (sondagens mecânicas) e indiretas (sondagens geofísicas elétricas) para o mapeamento das condições subterrâneas dos maciços calcários, identificando a existência ou não de vazios, sua distribuição, seu comportamento hidrogeológico, etc. No entanto, falta ainda que esses procedimentos sejam definitivamente incorporados como uma providência normal e corriqueira aos estudos preliminares de obras de engenharia, como também aos planos de gestão urbana de cidades já instaladas sobre esse tipo de terreno.

De modo que, nesse último caso, esses planos de gestão incorporem, por sua vez, ações de monitoramento permanente e de cuidados preventivos (por exemplo, a não exploração da água subterrânea, ou ao menos sua exploração em condições controladas e limitadas), assim como planos contingenciais de Defesa Civil e um Código de Obras limitante, por exemplo, da construção de edificações com mais de dois pavimentos na região afetada.

* Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br) é geólogo, ex-diretor de Planejamento e Gestão do IPT e ex-diretor da divisão de geologia e pesquisador sênior V do mesmo instituto, além de autor dos livros Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática, A Grande Barreira da Serra do Mar e Cubatão; é consultor em geologia de engenharia, geotecnia e meio ambiente e criador da técnica cal-jet de proteção de solos contra a erosão

Fonte: Estadão

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Supermercados param de comprar carnes provenientes de áreas desmatadas

Um dos principais problemas da Amazônia é sua taxa anual de desmatamento, que atinge milhares de quilômetros quadrados por dia. De 2000 para cá, os índices de desmatamento têm se mantido acima dos 20 mil km², graças principalmente ao avanço da pecuária e da soja na região. Enquanto não parte do governo a definição de uma política de desenvolvimento sustentável para a região, entidades da sociedade civil e organizações não-governamentais (ONGs) tentam articular propostas de um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia que combine responsabilidade social e proteção ambiental, permitindo a exploração dos recursos da floresta de maneira racional e assim garantindo qualidade de vida para os habitantes da região.
Algumas iniciativas começam a render valiosos frutos: o Ministério Público Federal (MPF) no Pará encaminhou, recentemente, às redes de supermercados Carrefour, WalMart e Pão de Açúcar, uma recomendação para que parem de comprar carne proveniente de áreas desmatadas para o aproveitamento dos espaços como pastos clandestinos, distribuída por frigoríficos do Pará. Outros 72 compradores de produtos bovinos também receberam a recomendação. O descumprimento do pedido pode resultarem multa de R$ 500,00 por quilo de produto comercializado. Como resultado da recomendação, as redes de supermercados, em nota assinada também pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), anunciaram a suspensão de compras de produtos bovinos de 11 empresas frigoríficas do estado, por não terem garantias de que a carne não vem de áreas desmatadas na Amazônia.
"O setor supermercadista, através da Abras, não irá compactuar com as ações denunciadas e reagirá energicamente", diz a nota. A decisão dos supermercados também foi resultado do relatório sobre a pressão que o gado exerce sobre a Amazônia, elaborado pela ONG Greenpeace. O relatório, intitulado "A farra do Boi na Amazônia", denuncia a relação entre empresas frigoríficas envolvidas com desmatamento ilegal e trabalho escravo com produtos de ponta comercializados no mercado internacional. Ainda de acordo com o relatório, o governo brasileiro financia e tem participação acionária nas principais empresas pecuárias que atuam na Amazônia. O frigorífico Bertin é uma das empresas apontadas pelo Greenpeace como responsáveis pela compra de gado de fazendas que desmataram ilegalmente a floresta Amazônica, distribuindo no Brasil e mundialmente os produtos derivados dos animais. "Os frigoríficos que atuam na Amazônia precisam se comprometer imediatamente a parar de comprar gado de fazendas que desmatam", disse André Muggiati, do Greenpeace.

Auditoria socioambiental

Os supermercados solicitaram aos frigoríficos que apresentem ao Ministério Público um plano de auditoria socioambiental, realizado por empresa independente, sobre a origem do gado que comercializam. O MPF já havia pedido aos supermercados e empresas notificadas que implementem sistemas de identificação sobre a origem do produto bovino.
Além disso, o Ministério Público Federal pretende ampliar as ações de combate ao desmatamento, com responsabilização da cadeia produtiva da pecuária, para outros estados da Amazônia, como Mato Grosso e Rondônia.
O Greenpeace tem, ainda, denunciado a derrubada inescrupulosa de árvores feita pela indústria madeireira na Amazônia e exigindo das autoridades governamentais instrumentos eficientes de controle e fiscalização. A campanha também visa a educar consumidores, incentivando-os a escolher produtos florestais que tenham origem ecologicamente sustentável, como a madeira certificada pelo FSC (Forest Stewardship Council, ou Conselho de Manejo Florestal).

Fonte: Estadão

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Seqüestro de CO2: o exemplo da Noruega

Desde outubro de 1996, a Statoil, maior empresa de petróleo da Noruega, está engajada em três projetos dedicados à captura e estocagem, em larga escala, de dióxido de carbono (CO2). Para a estocagem do gás carbônico, a Statoil está usando cavernas localizadas no fundo do oceano, de onde são extraídos petróleo e gás natural. O CO2 é um componente natural da atmosfera terrestre. Mas sua excessiva concentração – atribuída à queima de carbono, através dos combustíveis fósseis como carvão, gás natural e óleo – tem contribuído para a aceleração do aquecimento global.

Os projetos se encontram em diferentes níveis de maturidade e estão sendo desenvolvidos nos campos de Sleipner Vest no Mar do Norte; em Snøhvit, no norte da Noruega; e em Salah, na Algéria. Dos sites, o que está operacional há mais tempo é o de Sleipner Vest, a cerca de 250 km a oeste de Stavanger, Noruega, onde a Statoil explora um campo de gás e condensado (petróleo leve) desde 1990. As reservas encontram-se a cerca de 2.500 m (8000 pés) de profundidade no fundo do mar.

Ocorre, porém que o gás encontrado em Sleipner contém naturalmente cerca de 9% de CO2, um índice muito elevado para os padrões de exigência dos consumidores, que demandavam por um gás natural com índices inferiores a 2,5%. Era necessário, portanto, retirar o excedente. Em 1991, as autoridades norueguesas introduziram um imposto para CO2 emitido fora da costa (offshore) com o intuito de diminuir as emissões do gás. Motivados por esse imposto, a Statoil propôs remover o CO2 do gás natural e injetá-lo junto a uma camada geológica abaixo da plataforma Sleipner, onde o CO2 seria estocado por um longo tempo, provavelmente por milhões de anos.

Essa camada contém arenitos bem porosos cheios de água salgada, chamados de Formação Utsira. A formação de Utsira não contém petróleo ou gás comercial. Como a maioria das rochas do subsolo profundo, ela é cheia de água salgada, tem alta porosidade e permeabilidade, de modo que o CO2 se move rapidamente para os lados e para cima pela camada de rochas, substituindo a água entre os grãos de areia.

O CO2 é impedido de passar para a superfície por uma camada grossa de rocha, hermeticamente fechada, de 800 m de espessura.

É estimado que fossem necessários cerca de 600 bilhões de t de CO2 para encher todo o espaço poroso da Utsira. Isso é equivalente a toda produção de CO2 feita por humanos nos últimos 20 anos a taxas atuais.

É provável que o seqüestro de CO2 continuará em Sleipner muito depois do se exaurir suas reservas de petróleo e gás natural. Por ser o primeiro projeto comercial de armazenamento de CO2 em um aqüífero salino profundo, Sleipner despertou muito interesse no mundo todo em seu sucesso. Especificamente, os cientistas querem saber como o CO2 se comporta dentro do aqüífero e se há risco de que ele vaze, voltando à superfície.

Plataforma especial

Para viabilizar o projeto foi montada uma plataforma especial, para suportar uma usina de tratamento de 8.000 t, capaz de produzir cerca de um milhão de toneladas de CO2 por ano. Foram investidos cerca de US$100 milhões em equipamentos extras para a sondagem, compressão e injeção do CO2. Parte desses recursos foi bancada pela Comunidade Européia, interessada em estimular este tipo de projeto de interesse ambiental.

As atividades de captura e estocagem de CO2 entraram em operação em outubro de 1996, em conjunto com as operações produtivas da plataforma. A captura do gás é feita na Sleipner com um processo convencional com amina. No entanto, foi um desafio tecnológico projetar o processo de forma suficientemente compacta para ser colocado numa plataforma offshore no meio do Mar do Norte, a 250 km da costa.

Até agora, cerca de 8 milhões de t de CO2 já haviam sido estocados. A implementação do projeto significou uma redução das emissões de CO2 de mais de 1 milhão de t/ por ano, aproximadamente 3% da emissão de CO2 da Noruega em 1990. A intenção da Statoil é reduzir as emissões de CO2 de suas próprias operações em um terço até 2010.

A 2.500 m de profundidade

Outro projeto interessante de captura e armazenamento de CO2 está no campo de Snøhvit no Mar de Barents, onde é produzido gás natural liquefeito GNL pela Statoil desde 2007. O gás natural é extraído de depósitos subaquáticos e transportado através de 145 km de tubulações até a superfície. Da plataforma, a produção é transportada por navios para a ilha Melkøya, próximo da cidade de Hammerfest, onde foi instalada uma unidade onde o gás natural é liqüefeito. Desta unidade o GNL é exportado também por navios, a –163°C, para a Europa e USA.

A essa temperatura, o CO2 tem a indesejável propriedade de congelar, causando todos os tipos de problemas operacionais, como entupimento da tubulação. Para que isso seja evitado, é necessário remover o CO2 antes de fazer a liquefação. Assim como a Sleipner, foi decidido capturar e estocar o CO2, que é igualmente capturado com um processo convencional de amina. Uma longa tubulação secundária de 145 km transporta o gás para o campo de Snøhvit onde é injetado na camada de arenito com água salgada, denominada Formação Tubåen. Essa camada se encontra a 2.500 m abaixo do fundo do mar. Desta maneira, cerca de 700 mil t de CO2 são estocados por ano. Um programa de monitoramento tem sido feito para investigar o comportamento do CO2 no subsolo.

Salah, na Algéria

O terceiro projeto de injeção de CO2 da Statoil está localizado no campo de gás de Salah, na região central da Algéria. Esse campo é operado em conjunto pela Sonatrach, BP e Statoil. Devido às razões comerciais e técnicas, o CO2 é removido do gás natural, assim como em Sleipner.

Iniciado em 2004, 1,2 milhão/t de CO2 por ano está sendo capturado e estocado em Salah. O CO2 é armazenado na mesma camada que o gás natural, mas em distâncias seguras. A mesma camada de rocha que mantém o gás natural no lugar, mantém o CO2 armazenado.

Fonte: Estadão

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Governo deixa de inverstir R$8,1 BI na preservação da Amazônia

Entre 2003 e 2008, na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o desembolso de recursos federais em benefício do meio ambiente cresceu R$ 290,7 milhões, ou seja, 25% em termos reais. Já os recursos previstos em orçamento cresceram 70%, entre 2003 e 2009, saltando de R$ 2,1 bilhões em 2003, para R$ 3,5 bilhões, no período, um acréscimo de R$ 1,4 bilhão, já descontada a inflação acumulada no período. Isso significa que o desembolso efetivo não cresceu no mesmo ritmo que o montante de recursos previstos para o Ministério do Meio Ambiente no mesmo período (ver tabela). Nos últimos seis anos, o governo federal aplicou R$ 7,9 bilhões no desenvolvimento de projetos e atividades ligadas a questões ambientais, incluindo despesas com pessoal e despesas correntes (água, luz, telefone, etc.). Apesar da cifra graúda, as aplicações representam menos da metade do orça-mento autorizado para o Ministério do Meio Ambiente no período, que chegou a R$ 16,1 bilhões. Com isso, "sobraram no caixa" do ministério, entre 2003 e 2008, a cifra de R$ 8,1 bilhões; recursos que não foram utilizados. Isso, principalmente, porque o ministério sofreu com o contingenciamento, para auxiliar na formação do superávit primário do governo federal, necessário para o pagamento dos juros da dívida. No período, foram destinados R$ 4,9 bilhões à reserva de contingência, rubrica em que os recursos ficam congelados. O coordenador do programa de desmatamento na Amazônia do Greenpeace, Márcio Astrini, ressalta que ainda existem muitos gargalos que impedem o bom andamento da política ambiental no país. Desta forma, é importante utilizar os recursos disponíveis no orçamento do Ministério do Meio Ambiente. "Mesmo coma maior quantidade de recursos destinados ao ministério ainda é preciso muito mais. A pasta padece de falta de pessoal e equipamentos. Ainda existem muitos estudos e pesquisas a serem realizados", justifica. "Temos a cultura de esperar os desastres climáticos acontecerem para direcionar recursos. Isto deveria ser mudado", afirma. Se por um lado, nos últimos seis anos, a causa natureza teve mais recursos à sua disposição, por outro, a execução tem caído. Em 2003, ano em que o ministério registrou a menor verba durante o governo Lula, foram desembolsados mais recursos em relação ao orçamento do ano que nos períodos subsequentes, quando o orçamento da pasta foi gradativamente sendo ampliado. Signiica que na medida em que cresce a soma de recursos disponível ao Ministério do Meio Ambiente, cai a aplicação em relação ao valor autorizado, isto é, a execução. O ritmo de desembolsos nos programas ligados ao meio ambiente caiu dez pontos percentuais, nos últimos seis anos, passando de uma execução no patamar de 56% em 2003, para 46% em 2008. A pasta do Meio Ambiente, conduzida há um ano pelo ministro Carlos Minc, ganhou força entre os órgãos ministeriais. A participação no Orçamento Geral da União (OGU) aumentou consideravelmente e, desde 2003, os gastos vêm representando, gradativamente, maior porcentagem em relação às aplicações globais dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A proporção das aplicações da pasta na comparação com o orçamento global da União cresceu 0,02% nos últimos seis anos. Enquanto, em 2003, o valor gasto com o meio ambiente representava 0,10% do montante desembolsado pela União, que registrou gastos de R$ 1,178 trilhão, no ano passado, a cifra correspondia a 0,12% da soma de R$ 1,219 trilhão gasta pela administração pública federal em 2008. O aumento da verba aplicada pelo Ministério do Meio Ambiente em seus projetos e atividades também fez subir a participação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, ainda que timidamente. No primeiro ano da gestão petista, o R$ 1,2 bilhão desembolsado pela pasta representou 0,050% do PIB.
No ano passado, os dispêndios da pasta chegaram a 0,051% da soma das riquezas produzidas no país, cerca de R$ 2,9 trilhões. Já entre as despesas que compõem o orçamento do Ministério do Meio Ambiente, os gastos com pessoal e encargos sociais foram as que mais cresceram, passaram de R$ 583 milhões em 2003 para R$ 877,8 milhões em2008; um crescimento real de 51%. Contudo, em 2007, o montante pago aos funcionários foi o maior dos últimos seis anos, chegando a soma de R$ 929,1 milhões.
Apesar de ser importante a ampliação do contingente de pessoal do Ministério do Meio Ambiente e unidades vinculadas à pasta, Márcio Astrini destaca que investimentos também são essenciais. "O ministério precisa de tudo, pessoal e equipamentos. Os fiscais do Ibama, por exemplo, precisam de equipamentos que lhes garantam acesso ao BOF, um sistema eletrônico do ministério que lembra uma conta corrente para a venda de madeira nas estradas", explica.
As despesas correntes do Ministério do Meio Ambiente também cresceram nos últimos seis anos, ainda que de forma tímida, passaram de R$ 452,8 milhões para R$ 539,2 milhões. Por outro lado, os investimentos, que são a compra de equipamentos e a construção de obras, caíram 46% nos últimos seis anos. Com esse aumento acentuado das despesas com pessoal e encargos sociais e a queda dos investimentos, a estrutura orçamentária também sofreu variação. Entre 2003 e 2008, os recursos, autorizados em orçamento, destinados ao pagamento de pessoal também cresceu 51%, saltando de R$ 617,2 milhões, em valores atualizados, para R$ 877,8 milhões. Já o montante previsto para os investimentos caiu 56%. O orçamento de despesas correntes também caiu, passou de R$ 856 milhões para R$ 832 milhões.

13% do orçamento Aplicado em 2009

Do início deste ano até o dia 25 do mês passado, o Ministério do Meio Ambiente só havia aplicado 13% do orçamento destinado à pasta, que este ano chega ao patamar de R$ 3,5 bilhões. Os programas e ações que compõem a pasta aplicaram efetivamente R$ 444,4 milhões, incluindo os restos a pagar – dívidas de anos anteriores roladas para exercícios seguintes. Entre os projetos que mais receberam recursos está o programa de "prevenção e combate ao desmatamento, queimadas e incêndios florestais – Florescer" que, de um orçamento de R$ 111,6 milhões, aplicou 23,6 milhões até maio deste ano.
Outro programa que aplicou uma soma elevada de recursos na comparação com outros projetos da pasta foi o de "gestão da política de meio ambiente", que pagou R$ 13,1 milhões no desenvolvimento de ações que integram o programa. A rubrica "conservação e recuperação dos biomas brasileiros" também está entre aquelas com quantia elevada desembolsada, R$ 15,4 milhões.
Na contramão dos bons resultados, o programa de "combate à desertificação", que promove a articulação de estados e sociedade civil no desenvolvimento de ações de controle e combate à desertificação na região do semi-árido, aplicou apenas 3% (R$ 133 mil) do seu orçamento, que é de R$ 5 milhões. Entre as unidades responsáveis por desenvolver os projetos e ações do ministério, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), concentra a maior parte dos recursos, pouco mais de R$ 1 bilhão. Deste valor, o Ibama aplicou R$ 266,7 milhões este ano. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade é responsável por 359,8 milhões da quantia destinada ao meio ambiente. Dessa quantia, o instituto aplicou R$ 81,8 milhões até maio.

Fonte: Estadão

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Em vez de utilizar o termo efluentes, o correto é dizer efluentes líquidos industriais, água residuária industrial ou mesmo esgoto industrial, o que ajuda a entender o alcance do assunto sob o viés ambiental, afirma o especialista André Negrão, da Haztec, empresa especializada no desenvolvimento de soluções integradas no campo ambiental. “O menor impacto ambiental se atinge mediante o controle das fontes geradoras poluidoras, na segregação dos diferentes tipos de despejos e na substituição de matérias primas de elevado impacto ambiental por outras de menor impacto (conceito aplicável principalmente com produtos/substâncias químicas e metais reconhecidamente tóxicos/carcinôgenos/mutagênicos)”, afirma ele.

Tais ações resultam em menor volume de esgotos industriais, e em maior facilidade no tratamento. É mais eficiente tratar separadamente diferentes tipos de esgotos do que misturas de diversas correntes de diferentes despejos, ou utilizar de um único processo de tratamento.

Este profissional explica que atuar nas fontes geradoras implica em abandonar antigos conceitos: por exemplo, o de atuar somente a partir do fim do tubo. “O foco até recentemente era promover o tratamento do despejo industrial de uma indústria; não interessava conhecer o processo de geração nem atuar preventivamente para reduzir o volume de esgotos nem minimizar seu potencial poluidor”.

Os parâmetros de qualidade são muitos e variam conforme a legislação de cada Estado. No âmbito federal o que há sobre a questão do lançamento de esgotos tratados em corpos hídricos é a Resolução Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente) 357/2005, e para o Estado de São Pauloo Decreto 8468/1976.

De modo geral, a legislação ambiental impõe parâmetros físicos (pH, temperatura, cor, material sedimentável, material flutuante, etc); químicos (DQO – Demanda Química de Oxigênio, parâmetro que expressa a quantidade de oxigênio necessário para oxidar quimicamente um determinado composto ou substância presente na água/esgoto – tais como metais, sais,concentração de oxigênio, etc); bioquímicos (DBO – Demanda Bioquímica de Oxigênio, parâmetro que expressa a quantidade necessária para oxidar bioquimicamente substâncias e compostos orgânicos presentes na água/esgoto). Os parâmetros utilizados para a mensuração da carga poluidora de um esgoto são a DBO e a DQO.

Política ambientalmente correta

No Brasil, ainda são tímidas as iniciativas da indústria em avançar nessa linha de pensamento, diz o especialista. “Um projeto ambientalmente correto implica investimentos ou um padrão mínimo de tratamento de despejos e isto não é prioridade para a maioria dos representantes deste segmento”.

Entretanto, nas indústrias transnacionais este cenário é um pouco melhor, pois há pressão de suas matrizes e do mercado externo (principalmente europeu) para que elas respeitem o meio ambiente. “Mas estamos muito distantes de uma condição satisfatória e desejável para garantirmos um padrão mínimo de respeito ao meio ambiente”, complementa.

Um exemplo de sistema eficiente de tratamento desses efluentes líquidos é a fábrica da Volkswagen Taubaté-SP, tanto do ponto de vista sanitário quanto industrial, com um projeto muito bem sucedido de reuso de água. O projeto foi implantado ali em 2003, pela Haztec, e já resultou em expressivo ganho ambiental e de economia de recursos. A Vicunha do Nordeste também adotou uma solução integrada de tratamento de esgotos industrial e sanitário, com o aproveitamento de água de chuva e a prática do reuso.

Os sistemas e os equipamentos especificados para esse fim resultam da análise dos objetivos propostos com respeito à dimensão da planta, necessidade do tratamento e qualidade final requerida. Os processos de tratamento são diversos e podem ser classificados em três correntes:

Processos biológicos aeróbios – lagoas aeradas, lodos ativados, lodos ativados com aeração prolongada, filtros aerados, Membrane Bioreactor (MBR), etc – e anaeróbios – tanques sépticos, lagoas anaeróbias, reatores anaeróbios. Há ainda os processos químicos de oxidação química e processos físicos.

André Negrão esclarece que a finalidade de qualquer processo de tratamento é reduzir a carga poluidora/contaminante do esgoto bruto pelo menor custo. O nível da redução da carga poluidora/contaminante depende do padrão de qualidade visado (legislação ou água de reuso).

Os resíduos sólidos podem ser destinados para co-processamento (uma alternativa de disposição final que tem ganhado espaço nos últimos anos), aterro industrial (caso possua metais, óleo) e outros componentes que exijam este tipo de disposição), compostagem (para resíduos orgânicos passivos de serem transformados em adubo) ou aterro sanitário. Já os esgotos tratados são usualmente lançados em coleções hídricas (rios, córregos, lagos).

De modo geral, os segmentos industriais mais críticos com respeito a tratamentos dos efluentes líquidos são o químico/petroquímico – pois mais de 10 mil novos compostos químicos são criados a cada ano –; o farmacêutico e a agroindústria – devido aos defensivos agrícolas, hormônios utilizados para crescimento dos animais, e vinhaça decorrente da produção do álcool).

Para Negrão, o Brasil tem uma das legislações mais rigorosas do mundo nesse caso, inclusive em comparação com os países do Primeiro Mundo. “Uma das especialidades das instituições e governos brasileiros é traduzir a legislação internacional e implementá-la por aqui. Afinal de contas, se ela é boa para países do Primeiro Mundo por que não seria boa para o Brasil?, questiona. “Temos uma legislação atualizada. Ppor outro lado, não temos a estrutura funcional/legal para garantir seu cumprimento pleno”.

A dificuldade de aplicação das leis por parte dos órgãos ambientais, soma-se também à deficiência de parte dos laboratórios em realizar a análise de muitos dos parâmetros físico-químicos controlados pela legislação, conclui ele.

Formação profissional

Não há restrições comerciais que impeçam as empresas de utilizar as melhores tecnologias disponíveis no mundo para o tratamento de esgotos industriais. Basta que disponham de recursos financeiros e contem com profissionais qualificados.

“O problema é que o Brasil ficou mais de 20 anos sem investimento em infra-estrutura o que interrompeu, por uma geração, a formação de profissionais especializados não só em disciplinas ligadas ao saneamento básico/ambiental, mas também na defasagem da maioria dos cursos de engenharia”, diz Negrão. Por esse e outros fatores, a grande parte dos profissionais que atua no segmento ambiental está tecnologicamente defasada, enfatiza. “Dominamos praticamente todos os processos tecnológicos de tratamento de esgotos sanitários há pelo menos 30 anos, mas este ainda é a maior causa de poluição/contaminação dos nossos recursos hídricos.

Hoje há dois pesos e duas medidas: para o setor privado o rigor da lei para o público a benevolência do Estado, mesmo que em detrimento do meio ambiente e da sociedade”, conclui.

A Haztec já desenvolveu diversos projetos para empresas como Basf, Bayer, Prosint, Braskem, Volkswagen, Fafen, Sucos Del Valle, dentre outras. Um dos empreendimentos é o do Grupo Vicunha, cuja expansão no Nordeste exigiu a implantação de várias unidades fabris. Para abastecer as unidades Vicunha I e V, a Haztec-Geoplan foi contrata através da modalidade B.O.T. (Build, Operate and Transfer) para implantar um sistema de reuso de efluentes líquidos e fornecer água industrial e água abrandada a partir do tratamento dos efluentes líquidos industriais gerados da planta industrial. Foi montada uma infra-estrutura complexa que conta com uma unidade manual de intertravamento de segurança automatizada, contando com uma Estação de tratamento de efluentes com tecnologia de ultrafiltração por membranas e reuso total de água. A empresa é responsável desde o projeto, fornecimento de equipamentos e materiais, montagem, eletromecânica, obras civis, comissionamento e partida, operação e manutenção pelo prazo de 10 anos.

Nova planta de ultrafiltração da Klabin

A Klabin iniciou a operação do novo sistema de ultrafiltração que integra a Estação de Tratamento de Efluentes da Unidade Monte Alegre, localizada em Telêmaco Borba (PR), permitindo que a água que passa pelo sistema seja devolvida ao rio Tibagi com elevada qualidade. De acordo com as análises bioquímicas de oxigênio realizadas pela empresa a água devolvida pela fábrica ao rio Tibagi apresenta 1 miligrama por litro de concentração de matéria orgânica (DBO5). O teor médio de concentração de matéria orgânica do rio é de 3 miligramas por litro. A água usada também retorna mais límpida ao rio. A cor média da água do Tibagi é definida em 400 ppm PT (partículas por milhão, medida padrão de coloração). Já a usada pela Klabin fica em 200 ppm PT, ou seja, bastante mais transparente.

O próximo passo a ser dado com o sistema de ultrafiltração é realizar o reúso da água. Com isso, a Klabin reduzirá os volumes de efluentes que retornam ao rio e economizará água. Atualmente, passam pelo sistema de ultrafiltração 40% da água usada na produção. Segundo Júlio Nogueira, gerente de meio ambiente da Klabin, os volumes totais de água que retornam ao rio Tibagi apresentam níveis de qualidade superiores aos estabelecidos pela legislação ambiental do Paraná.

O sistema de ultrafiltração da unidade é a maior planta do gênero no mundo no setor industrial e o único no setor de produção integrada de papel e celulose, sendo desenvolvida pela Centroprojekt, dentro do Projeto de Expansão Klabin MA-1100. Uma das metas atingidas pela Klabin com o projeto de expansão é a redução do consumo específico de água para 30 m3 por tonelada produzida de papel.

Fonte: Estadão

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Desastres anunciados

País precisa integrar ações de previsão climática e de socorro para enfrentar eventos catastróficos, como as chuvas excepcionais que atingiram Santa Catarina, regiões do Norte e Nordeste em menos de seis meses. A tecnologia de previsão climática já existe

Os eventos relacionados às grandes enchentes que ocorreram nas regiões Norte e Nordeste, entre abril e junho deste ano, revelaram como as questões climáticas ainda estão em segundo plano nas mesas dos governantes brasileiros. A informação dada pelos institutos meteorológicos do País, alertando sobre a probabilidade de chuvas acima da média a princípio na região Norte e, posteriormente, em parte do Nordeste, como depois se comprovou, não acendeu o alerta vermelho nas autoridades a tempo de planejar ações que evitassem maiores danos.
Este quadro fica ainda mais perturbador quando se sabe do alerta de outra comunidade científica – a Associação Brasileira de Mecânica de Solos (ABMS) -, ainda em dezembro passado, sobre a situação de abandono e o risco de segurança nas barragens do País, grande parte sem nenhum tipo de monitoramento ou fiscalização. Estudo elaborado pelo Ministério da Integração Nacional (Espelho D´Água do Brasil), indicou cerca de 7 mil barragens, das quais 200 sem manutenção e capazes de ocasionar acidentes. O Nordeste é o que apresenta a maior parte delas em situação de risco, e o Ceará é o estado com maior número de barragens do País.
Mas foi o rompimento da Barragem de Algodões I, no município de Cocais, no estado do Piauí, em 28 de maio, que finalmente acendeu o alerta sobre a situação de risco a que o País está exposto. O reservatório que armazenava 52 milhões de m³ rompeu, atingindo 800 famílias que moravam às margens do rio Pirangi. A cabeceira do rio fica no Ceará, local que recebeu grande volume de chuvas. Testemunhas contam que a água formou uma onda 20 m de altura. O reservatório, construído entre duas montanhas, não recebia manutenção. O risco de rompimento era eminente tanto que durante 15 dias, os moradores locais foram retirados de suas casas, até que receberam autorização para voltar, apesar da continuidade das fortes chuvas no rio Pirangi, após um parecer técnico que garantiu a segurança da barragem mas a barragem rompeu.

Lei que obriga inspeções em barragens finalmente é aprovada

O fato motivou a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) a aprovar em junho – após seis anos de espera e um mês depois do acidente de Algodões – proposta que obriga o Poder Executivo a instituir a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). A proposta original define diretrizes de segurança para construção de barragens de água e de aterros para contenção de resíduos líquidos industriais e ainda precisa ser remetida para o Senado Federal.
Segundo Jarbas Milititsky, presidente da ABMS, essa foi uma grande conquista da comunidade técnica, uma vez que a entidade foi uma das mentoras do projeto e também defensora da medida neste período. "O Brasil detém ampla tecnologia de projeto e construção de barragens. Mas uma vez construída, a sua responsabilidade fica a cargo de quem? O projeto de lei é fundamental para distribuir as responsabilidades de fiscalização principalmente naquelas de propriedade privada, que não passam por nenhum controle", diz ele.
Uma das mudanças mais importantes impostas pela lei é o estabelecimento de diretrizes exigidas para se aprovar a construção de novos reservatórios, determinando que o empreendedor seja o responsável legal pela sua segurança e inspeção periódica, além de envolver a comunidade local sobre as ações preventivas e emergenciais. Propõe ainda a criação do Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens, com cadastro dos reservatórios e as medidas de segurança adotadas em cada um deles.
A fiscalização das ações de segurança deverá ficar a cargo do órgão que outorgou o direito de uso do curso de água, dependendo da finalidade da barragem. Cada reservatório deve contar com um Plano de Segurança da Barragem que identifica o empreendedor, os dados técnicos e a qualificação dos profissionais da equipe de segurança. Os responsáveis pelas barragens já existentes terão prazo de dois anos, a partir da publicação da lei, para elaborarem o PSB. Nos casos de acúmulo de líquidos perigosos, como rejeitos da indústria química, haverá ainda o Plano de Ação Emergencial, compartilhado com o município.
Milititsky enfatiza que pelo porte e dimensões, as barragens implicam em risco social muito elevado. "Não é somente a questão de construção que deve ser levada em conta, mas também de planos de emergência e de evacuação da população, em caso de desastres iminentes", destaca o dirigente. A seu ver, o erro principal na tragédia de Algodões I foi consultar um único especialista no momento de crise, quando poderia-se ter ouvido uma equipe multidisciplar. "Numa situação como essa, é preciso considerar a pressão política, que podem interferir nas decisões". E enfatiza que a falta de inspeção, a ocorrência de vazamento e desmoronamentos são fatores críticos quando aliados a uma alta precipitação de chuvas, com picos intensos em curto espaço de tempo, como ocorreu na região.

Ao contrário de Santa Catarina, o clima do nordeste é previsível

A previsão do clima conta hoje com elevado avanço tecnológico em que são analisadas informações provenientes de radares e satélites metereológicos, e cartas marítimas e dos ventos. Esses dados são processados em supercomputadores e compõem um quadro de previsão de até três meses de antecedência, apontando tendência de chuvas, ventos ou estiagem para o período.
O monitoramento diário permite o aumento gradual do nível de acerto, até alcançar um índice de 100% com quatro dias de antecedência, explica Marcelo Seluchi, pesquisador do Instituto de Pesquisas (INPE), e chefe da Divisão de Operações do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec). "O que ainda falta é conseguir determinar o exato ponto de uma ocorrência climática", diz ele. No caso da tragédia de Santa Catarina, ocorrida no final do ano passado, explicou ele, a previsão antecipada era totalmente impossível por tratar-se de uma ocorrência absolutamente localizada e pontual, contrária à tendência da região para o período. Entretanto, as inundações nesse estado tem um longo histórico de décadas e, a despeito disso, obras definitivas de prevenção não foram executadas. Este não foi o caso das chuvas do Nordeste, que tem como característica clima com elevado índice de previsibilidade. Mas as previsões não receberam a devida atenção das autoridades.
Mensalmente é realizada uma reunião envolvendo todos os institutos metereológicos do País, a fim de consolidar as informações para os três meses seguintes. Essas reuniões são acompanhadas por outros departamentos governamentais e as informações repassadas aos órgãos públicos.
A falta de autonomia e agilidade dos organismos impediram que os agricultores das regiões nordestinas afetadas adotassem ações que pudessem aproveitar a intensidade das chuvas, como por exemplo, agilizando a construção de cisternas a tempo de reservar parte da água das chuvas.
Assim o conhecimento gerado pelos diversos institutos brasileiros são desperdiçados pela falta de entrosamento e falta de autonomia decisória. O intercâmbio de informações ocorre, quando muito, no âmbito das instituições e de pesquisadores, sem traduzir-se em ações governamentais rápidas e ágeis para enfrentar a questão climática.
Com a falta de um plano de gerenciamento dos riscos do clima, a balança pende para o lado da Defesa Civil, cada vez mais exigida para atender a demandas tão críticas, como as de Santa Catarina, no final do ano passado, e no Norte/Nordeste neste ano.

Plano de prevenção a tragédias climáticas

Dadas as dimensões das tragédias recentes, surge a proposta da comunidade técnica de se desenvolverem planos de gestão das áreas de risco, focando principalmente a ocorrência de caso de chuvas críticas, inclusive aperfeiçoando o acesso aos sistemas de previsão metereológica com maior antecedência.
É sugerida a criação de plano de alerta que considere outros aspectos, que não somente a precipitação pluviométrica. Além da monitoração da evaporação atmosférica, deveria ser feita em paralelo a análise de comportamento do solo utilizando ainda critérios de alerta baseados em parâmetros de fácil medição – pluviometria, evaporação, umidade do solo, deslocamentos superficiais, etc. As ações da defesa civil deveriam ser apoiadas por técnicos treinados para interpretar os sinais de alerta, indicar ações preventivas, e apoiar as equipes de socorro em caso de acidentes.
É o que sugere a Associação Brasileira de Mecânica de Solos, que através dos seus associados, atuou nas ações de socorro às vítimas de Santa Catarina (novembro de 2009), junto a Defesa Civil, principalmente no estudo das condições do solo. Os técnicos ajudaram a identificar áreas que ainda corriam risco de deslizar, como apoio aos bombeiros durante as ações de resgate, assim como avaliar a possibilidade de retorno dos moradores a suas moradias. Com base nessa vivência, a entidade elencou medidas para ajudar o País a se preparar para eventos similares, formatando a Carta de Joinville, que na prática serve como esboço para um programa preventivo para tragédias climáticas.
A ABMS concluiu ser necessário estudo aprofundado sobre o fenômeno de Santa Catarina, uma vez que não é possível estabelecer uma lista única de causas para todos os deslizamentos ocorridos, pois cada um apresentou características diversas nas áreas geológico-geotécnicas, topográficas, relativas ao fluxo de água, à vegetação, e outros fatores.
O documento pede o mapeamento geotécnico-geológico da região afetada, de forma a permitir avaliações de níveis de risco e estabelecimento de níveis de restrição do uso do solo.

Causas da tragédia

A excepcional precipitação de chuvas, ocorrida especialmente entre os dias 20 e 23 de novembro ao longo do Vale do Rio Itajaí-Açu, foi um dos fatores desencadeantes da tragédia de Santa Catarina quando cerca de 750 mm foram registrados em certas estações de medição – atingindo 60 municípios e um universo de mais de 1,5 milhão de pessoas. A região já sofria um período longo de precipitações, ocorrendo o deslizamento de milhares de cortes de terreno e de encostas naturais e ainda uma enchente muito rápida e de grandes proporções.
A ocupação desordenada de certas áreas aumentou o número e a magnitude dos acidentes nas regiões urbanas. No entanto, diversas áreas com ocupação regularizada também apresentaram rupturas destrutivas. As rupturas da área rural, especialmente nos municípios de Luis Alves, Gaspar e Ilhota, atingiram mata virgem e outras com plantações, em grandes proporções. Diversas destas rupturas tiveram características classificadas como "corridas" por causa da grande velocidade da massa deslizante, gerando as enxurradas que destruíram pontes e drenagens, causando algumas vezes o barramento de sistemas de drenagem, e agravando as enchentes.

Recursos para cheias

O governo federal anunciou investimentos de R$ 4,7 bilhões em obras de drenagem em 109 municípios constantemente atingidos por enchentes e inundações, que neste ano afetaram cerca de 500 mil pessoas. Cinco Estados da região Nordeste – a mais afetada pela cheia – tiveram projetos selecionados, somando R$ 827,5 milhões em investimentos. As cidades beneficiadas pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Drenagem estão localizadas em 18 Estados do país. Segundo a Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec), a população atingida é de cerca de 459 mil pessoas em 13 Estados, com registro de óbitos em 10 deles. O Maranhão teve 119 cidades atingidas, seguido por Ceará, com 101, e Pará, com 58 municípios afetados.
Mas o governo terá de ser mais ágil pois só conseguiu aplicar 28% dos recursos do Programa de Preparação para Emergências e Desastres, gerido pelo Ministério da Integração Nacional, para atender o país inteiro. São R$ 375,9 milhões, cujo montante aplicado não passou de R$ 97,8 já contando os restos a pagar. Segundo o Programa de Resposta aos Desastres, da mesma pasta, foram 48% dos R$ 538,7 milhões autorizados. O levantamento orçamentário é da organização não-governamental (ONG) Contas Abertas, atualizado em junho de 2009.

Fonte: Estadão

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