As advertências dos desabamentos no Rio

A engenharia vai precisar trabalhar bastante até conseguir juntar as peças para a montagem do laudo conclusivo que deverá apontar as causas do desastre ocorrido com o  Edifício Liberdade (20 andares) e os outros dois – um de dez pavimentos e o terceiro, de quatro –  que desabaram  na noite do dia 25 deste mês, na avenida Treze de Maio, no Rio de Janeiro.

As causas possíveis podem ser uma, duas, ou um amplo conjunto de fatores, todos eles mostrando que a origem da tragédia que matou quase 20 pessoas e provocou incalculáveis prejuízos materiais – inclusive com arranhões para a imagem da cidade – é a extraordinária falha humana nos cuidados permanentes que devem ser adotados em relação a qualquer estrutura, seja ela de maior ou de menor porte.

As hipóteses que podem explicar este acontecimento inusitado são variáveis. Vão desde o rompimento ou comprometimento de uma viga ou de um pilar no curso de reformas internas, não avaliadas estruturalmente, que ocasionaram sobrecarga em cadeia de uma laje sobre outra; problemas de ocupação inadequada dos espaços físicos; fadiga de materiais; problemas de origem nas fundações, que vieram se somando a outros, ao longo de décadas, até a confluência de fatores distintos que contribuíram para a ocorrência; ou a falta de manutenção periódica para indicar, corrigir e prevenir  fissuras, esses caminhos que a percolação da água abre no concreto e afeta as ferragens.

A ação da ferrugem, ocasionada pelas águas pluviais ou pela corrosão marítima,  deixa vestígios para os quais muita gente fecha os olhos, com medo de mexer em caixas de marimbondo.  

Persiste, arraigada em algumas mentalidades, ou no comodismo burocrático de alguns órgãos públicos, vários deles até com a responsabilidade pela preservação e fiscalização das condições de infraestrutura de áreas centrais sujeitas à observância de entidades do patrimônio histórico – a ideia de que, depois de uma obra pronta, ela vai durar para sempre, quando a vida útil de um prédio, a exemplo do Edifício Liberdade, pode ser  de 40, 50 ou 60 anos – ou ainda  mais – a depender dos cuidados de manutenção programada, periodicamente, que ele requeira. 

Obras de engenharia, qualquer uma, são suscetíveis de falhas técnicas e humanas, sobretudo humanas, conforme tem se verificado em pontes e viadutos, na cidade de São Paulo. Nesse caso, vem se registrando uma negligência fatal, sobretudo no capítulo “manutenção”. 

Em razão dos desastres ocorridos na metrópole paulistana,  dos desabamentos simultâneos dos três prédios, no Rio, e de outro desabamento, este no bairro de Nazaré, em Belém-PA, as advertências que ficam são as seguintes:

1. Há necessidade de se fortalecer e de se disseminar a importância da engenharia civil na construção de espaços habitacionais, comerciais ou para outros fins.

2. Fortalecer o poder de fiscalização idônea, correta, por parte do poder público e de órgãos técnicos da sociedade civil, tanto nas fases da construção quanto depois da obra pronta, com vistas a programações de serviços de manutenção periódica.

3. Aumentar os cuidados na fiscalização em relação a reformas para se evitar que elas acabem interferindo em áreas, ou em algum elemento que possa afetar, direta ou indiretamente a estrutura do prédio. 

4. Adotar programas de vistoria idônea para identificação de infiltração de água pluvial  – vistoria que não deve ser feitas apenas  nos períodos chuvosos, mas se estender durante todas as estações do ano para identificação do nível de corrosão nas armaduras das lajes e de outros pontos de pilares e vigas.

5. Adoção de programas educativos mostrando que as estruturas são falíveis e que nada é para sempre, ou melhor, corroborando o verso de Vinicius, “que tudo é eterno, enquanto dure”.
 

Fonte: Nildo Carlos Oliveira

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