A construção de túneis é uma das disciplinas mais complexas da engenharia civil, essencial para a mobilidade urbana sustentável e para a preservação ambiental em grandes projetos de infraestrutura. No entanto, o Brasil ainda enfrenta obstáculos históricos que vão desde a formação acadêmica insuficiente até a falta de planejamento a longo prazo.
1. O Comitê Brasileiro de Túneis (CBT) e a Indústria Nacional
Fundado em 1990, o CBT consolidou-se como o elo entre clientes, projetistas e construtores. De acordo com Hugo Cássio Rocha, o comitê é reconhecido pela ITA (International Tunneling Association) como um dos grupos mais ativos do mundo.
- Crescimento Exponencial: O número de associados saltou de 105 em 2004 para centenas de profissionais e empresas dedicadas à geotecnia e escavações.
- Reconhecimento Internacional: O Brasil é referência no método NATM (New Austrian Tunnelling Method), desenvolvendo uma “escola brasileira” que utiliza revestimentos em concreto projetado, técnica exportada inclusive para a Europa.
2. Lacunas na Formação Acadêmica
Um dos pontos críticos apontados pelo CBT é a ausência de disciplinas específicas de túneis nas universidades brasileiras.
- Graduação: O ensino de construções subterrâneas é quase nulo na maioria das instituições.
- Pós-Graduação: Poucas escolas de excelência mantêm o tema em pauta, com destaque para a Poli-USP, USP-São Carlos, UNB, PUC-Rio, UFRJ-Coppe e ITA.
3. A Engenharia de Túneis vs. Obras Convencionais
Diferente de uma obra de arte convencional (como uma ponte), o material de construção de um túnel é o próprio maciço geológico, cujas propriedades variam a cada metro. Isso exige uma abordagem probabilística em vez de determinística.
Ingredientes para um projeto de túnel bem-sucedido:
- Investigação geológica e geotécnica profunda.
- Gestão de riscos eficiente e monitoramento constante.
- Uso de modelagem numérica 2D e 3D.
- Acompanhamento técnico por especialistas experientes.
4. Obstáculos: Planejamento e “Preconceito” Político
Apesar de serem alternativas ecologicamente corretas por interferirem menos na superfície, os túneis enfrentam barreiras culturais e políticas no Brasil:
- Falsa Ideia de Custo Elevado: Países desenvolvidos priorizam túneis pela análise de custo-benefício de longo prazo, algo ainda deficiente na gestão pública brasileira.
- Invisibilidade Eleitoral: Por não aparecerem na superfície, muitas vezes perdem prioridade frente a obras com maior impacto visual imediato.
- Imprevisibilidade Geológica: Frequentemente usada como desculpa para evitar projetos, quando na verdade pode ser mitigada com planejamento adequado.
5. O Futuro: Mudanças na Legislação
Para o presidente do CBT, o incentivo necessário para a indústria passa pela obrigatoriedade de análises de custo-benefício rigorosas e pela modernização das leis de contratação, permitindo que a gestão de riscos seja parte integrante do contrato.




