O calendário de concessões do Ministério dos Transportes e da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) prevê seis leilões de rodovias federais no segundo semestre de 2026. Os certames podem impulsionar investimentos em infraestrutura rodoviária por meio da iniciativa privada. A expectativa é fortalecer corredores logísticos, ampliar a capacidade de transporte e reduzir gargalos no escoamento da produção.
Após os leilões da BR-116 (Régis Bittencourt), Rotas Gerais e Rota dos Sertões, o mercado concentra sua atenção nos projetos que ainda serão licitados até dezembro. Grande parte dessas concessões conecta polos produtores a portos, centros industriais e importantes eixos de distribuição de cargas.
Com parte da carteira ainda prevista para este ano, os próximos meses concentram alguns dos projetos mais aguardados pelo setor de infraestrutura. Um dos principais é a Rota Arco Norte (BR-163/MT/PA), prevista para novembro. Com 1.009,5 km de extensão, o trecho liga a produção agrícola de Mato Grosso aos portos do Pará e é considerado o ativo mais relevante do calendário de 2026. O leilão será realizado por meio da venda de 100% das ações da atual concessionária (Via Brasil BR-163), modelo inédito que permitirá ao vencedor assumir a operação da rodovia e executar os investimentos previstos no novo contrato. O valor do investimento direto em obras é de R$10,8 bilhões.
Outro empreendimento de destaque é a Rota Agro Central (BR-070/174/364-MT/RO), cobrindo uma extensão de 887,6 km entre os estados de Mato Grosso e Rondônia, tem um investimento previsto de R$ 5,9 bilhões para obras de infraestrutura e ampliação viária ao longo de 30 anos de concessão.
Também integra o cronograma a Rota 2 de Julho (BR-116/BA e BR-324/BA), que cobre 653 km, ligando Salvador a Feira de Santana à divisa da Bahia com Minas Gerais. O projeto prevê investimentos de aproximadamente R$15,7 bilhões em duplicações, melhorias urbanas e implantação de passarelas. Considerando os custos operacionais ao longo dos 30 anos de contrato, a movimentação financeira deve superar R$ 26 bilhões.

A otimização da Rota do Pequi (BR-060/DF/GO) abrange 211,6 km entre Brasília e Goiânia, um importante corredor utilizado pelo agronegócio e pela indústria. O projeto prevê investimentos de cerca de R$ 4,14 bilhões para a ampliação da capacidade e a modernização da infraestrutura.
Seguindo o cronograma, o estado do Rio Grande do Sul conta com dois projetos formados por rotas locais. A Rota Integração do Sul (BR-116/158/290/392-RS) possui uma extensão total de 674,1 km e prevê um período de concessão de 30 anos. O trecho receberá investimentos na ordem de R$ 5,1 bilhões para a modernização e ampliação da capacidade das pistas. Há também a Rota Portuária do Sul (BR-116/392-RS), uma concessão estruturada pela ANTT voltada para uma nova malha viária de 459,6 km. O projeto prevê um investimento de R$ 6 bilhões ao longo de 30 anos de contrato.
A distribuição dos leilões ao longo do segundo semestre busca evitar a concentração de certames em um único período e manter o interesse do mercado. Para o diretor-presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), Marco Aurélio Barcelos, a manutenção de uma carteira diversificada ajuda a preservar a atratividade das concessões, inclusive empresas que não atuam no setor.
“Ainda existem empresas que não entraram e que querem entrar no setor, e outras que pretendem se consolidar. Então, acreditamos que os próximos projetos ainda trarão atratividade no mercado, sendo difícil falar em um melhor ou pior”, afirmou Barcelos.
Caso o cronograma seja cumprido, 2026 deverá encerrar um dos maiores programas de concessões rodoviárias já levados ao mercado pelo governo federal, com projetos voltados à ampliação da capacidade logística e à atração de investimentos privados para a infraestrutura brasileira.
Para 2027, ainda não há definição sobre quais projetos integram oficialmente a agenda de leilões. Segundo Barcelos, alguns projetos estão em fase de produção, enquanto outros passam por diferentes etapas de modelagem.
A avaliação da ABCR é positiva aos leilões realizados pelo governo federal. Os certames têm registrado uma participação de novos e antigos grupos, com compatibilidade. A projeção para a próxima década é de aproximadamente R$ 400 bilhões movimentados nas rodovias concedidas.
CONCESSÕES PREVISTAS PARA 2027
Rodovias Integradas de SC – Lote 01 (BR-153/282/470/SC) – a concessão é o principal eixo logístico multimodal do Vale do Itajaí (SC), que abrange 515,16 km de extensão, possibilitando um escoamento da produção industrial, agropecuária e madeireira. A BR-470, constitui o corredor de escoamento para os Portos de Itajaí e Navegantes.
Rodovias Integradas de Santa Catarina – Lote 03 – o eixo de escoamento agroindustrial do Oeste e Meio-Oeste de Santa Catarina, conecta o interior produtivo do estado aos centros de consumo e exportação. Com uma extensão de 166 km e um investimento previsto em cerca de R$ 2,71 bilhões.
Rota Vale do Café (BR-393/RJ) – Anteriormente conhecida como Rodovia do Aço, a concessão abrange um trecho de 204,7 km da BR-393 no estado do Rio de Janeiro. O projeto estabelece um aporte de R$ 3,05 bilhões voltados a obras de infraestrutura, com uma projeção de custo de aproximadamente R$ 6 bilhões ao considerar despesas operacionais e de manutenção previstas para 30 anos de contrato.
Otimização Rodoviária Transbrasiliana (BR-153/SP) – O projeto de otimização rodoviária da BR-153/SP, tem extensão de 321,6 km em território paulista e prevê um investimento de R$ 4,11 bilhões, direcionados para obras de ampliação e modernização da infraestrutura, incluindo a execução imediata de mais de 190 km de pistas duplicadas.
Otimização Rota Planalto Sul (BR-116/PR/SC) – A obra de otimização abrange uma malha de 412,7 km ao longo da BR-116 entre o Paraná e Santa Catarina, prevendo uma injeção de investimentos diretos estimada em R$ 4,46 bilhões (Capex) estritamente voltados para obras urgentes de segurança e ampliação de capacidade viária.
Otimização Rota Litoral Sul – O trecho é estratégico por ter 405,9 km de vias conectando Curitiba (PR) a Florianópolis (SC). com investimento previsto em R$ 15 bilhões em Capex para 113 km de faixas adicionais, 23 km de vias marginais e 5 km de contornos viários. O contrato original foi otimizado e renovado por mais 15 anos.
Free Flow: inadimplência é principal desafio para expansão
O novo sistema que permite a cobrança automática de pedágio por meio de pórticos e dispensa as cabines tradicionais, ainda enfrenta desafios relacionados à falta de pagamento dos motoristas. Segundo a ABCR, é necessário garantir que os usuários continuem pagando as tarifas mesmo sem a existência de barreiras físicas nas praças de pedágio.
Muitos condutores deixam de pagar e acumulam passagens sem quitação, além de multas aplicadas pelos órgãos competentes. Os contratos de concessão possuem mecanismos para enfrentar a inadimplência, mas as regras variam conforme cada um.
O débito em aberto no sistema Free Flow pode causar aumento nas tarifas para os motoristas que pagam em dia. Para resolver esse problema, estão sendo estudadas medidas como: vincular a renovação do licenciamento do veículo ao pagamento das tarifas atrasadas; centralizar o registro de passagens na CNH, facilitando a identificação e a cobrança de débitos.
A entidade afirma que o sistema não foi criado para aumentar a aplicação de multas e as concessionárias não recebem os valores das penalidades aplicadas por evasão de pedágio.
Ajustes na legislação podem fortalecer os instrumentos de responsabilização dos motoristas e evitar que os valores não pagos sejam transferidos para os demais usuários ou para o poder público.



