Enchentes no Brasil: décadas sem prevenção e histórico de tragédias recorrentes

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O Brasil registra, historicamente, precipitações pluviométricas extremas que frequentemente resultam em tragédias com perdas humanas e prejuízos materiais. Apesar da recorrência desses eventos, o país ainda não dispõe, de forma ampla, de instrumentos eficientes de monitoramento dos rios em bacias hidrográficas e de programas consistentes de prevenção de cheias.

Em muitas regiões — fora do monitoramento mais estruturado em grandes barragens hidrelétricas — a observação do nível dos rios segue precária. Em alguns casos, medições são realizadas com réguas improvisadas, evidenciando fragilidades na gestão de risco. As chuvas recentes no Rio de Janeiro foram consideradas excepcionais, mas, segundo o próprio histórico de eventos, não se trata de fenômeno imprevisível.

Recorrência das enchentes não gerou resposta preventiva à altura

Alagamentos e enchentes ocorrem de forma repetitiva em estados como Minas Gerais, Santa Catarina, no Nordeste, além de áreas densamente povoadas como São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda assim, poucas obras preventivas estruturantes foram executadas ao longo de décadas, ampliando a exposição das populações a eventos mais severos — inclusive com chuvas e ciclones tropicais intensificados.


Enchentes no Rio entram entre as mais fatais do mundo em 12 meses

As enchentes de abril no Rio de Janeiro foram consideradas a quinta mais fatal do mundo em um período de 12 meses, segundo dados preliminares do Centro de Pesquisas de Epidemiologia dos Desastres (Cred), a pedido da BBC Brasil. O Cred, sediado na Bélgica, coleta dados sobre catástrofes há 30 anos e disponibiliza estatísticas para pesquisadores.

As quatro enchentes com maior número de mortes, no período, ocorreram:

  • Índia (chuvas de monções, julho: 992 mortos; setembro: 300 mortos)
  • Arábia Saudita (novembro: 163 mortos)
  • Serra Leoa (agosto: 103 mortos)

Outra enchente no Brasil — incluindo inundações no litoral do Rio e São Paulo em janeiro — havia sido, até então, a mais fatal do mundo em 2010, com 74 mortes (Cred).

Vulnerabilidade social aumenta o risco

Especialistas em desastres destacam que populações pobres são mais vulneráveis. Relatório de 2009 do Pnud indica que, embora apenas 11% das pessoas expostas a catástrofes naturais vivam em países pobres, mais de 53% das mortes ocorrem nesses países.


Histórico de grandes enchentes no Brasil desde os anos 1970

A repetição dos eventos ao longo do tempo reforça a necessidade de monitoramento, prevenção e planos de emergência. Alguns episódios marcantes:

Tubarão (SC), 1974

Chuvas intensas elevaram o volume dos rios e alagaram áreas baixas. A cidade enfrentou falta de comunicação, salvamentos com apoio limitado e, oficialmente, foram registradas 199 mortes.

Vale do Rio Doce (ES/MG), 1979

Acumulados elevados de chuva em diversos municípios resultaram em uma das maiores enchentes da região, com repercussão ampla.

Leia também: Juntas, Petrobras e Vale do Rio Doce arrematam três blocos na Bacia de Santos

Blumenau (SC), 1983 e 1984

Em 1983, o rio Itajaí-Açu atingiu 15,34 m, com 197 mil desabrigados. Em 1984, chegou a 15,46 m, com 155 mil desabrigados e 16 mortes.

Rio de Janeiro, 1988

Fortes chuvas provocaram deslizamentos, incluindo no Morro Dona Marta. Em 19 de fevereiro, novos deslizamentos deixaram 289 mortos e prejuízos estimados em US$ 935 milhões.

Minas Gerais (1979, 1991, 1992, 1997, 2008/2009)

Eventos prolongados de chuva deixaram centenas de mortes, cidades ilhadas e milhares de desabrigados. Em Belo Horizonte, aumentaram ocorrências de inundação associadas à impermeabilização urbana e cursos d’água canalizados.

Santa Catarina, 2008

Chuvas de novembro afetaram cerca de 60 cidades e mais de 1,5 milhão de pessoas, com 135 mortes e grandes danos à infraestrutura, incluindo o Porto de Itajaí.

Nordeste, 2008

Chuvas fortes afetaram Piauí, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco e Paraíba, com dezenas de milhares de desalojados e desabrigados.

São Paulo, 2010

Chuvas intensas atingiram capital e interior. O Jardim Pantanal, na Zona Leste, permaneceu alagado por semanas. No interior, São Luiz do Paraitinga sofreu destruição e danos ao patrimônio histórico.

Rio Grande do Sul, Agudo, 2010

A força das águas do rio Jacuí levou à fratura de ponte, com vítimas fatais.

Rio de Janeiro, 2010

Deslizamentos e alagamentos atingiram diversas regiões. Em Niterói, o deslizamento no Morro do Bumba soterrou casas. Laudos técnicos recomendaram remoções em áreas de risco. O episódio evidenciou como a impermeabilização urbana agrava inundações e seus efeitos.


Reconstrução em São Luiz do Paraitinga adota sistema de casas em concreto PVC

Após as enchentes que atingiram São Luiz do Paraitinga, a 178 km de São Paulo, começaram investimentos para atender famílias que perderam moradias. Até junho, serão construídas 150 unidades habitacionais com apoio da CDHU.

A Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) será responsável por orientação técnica e capacitação de mão de obra, com adoção do sistema construtivo de concreto PVC. Em abril, cinco casas seriam entregues à população.

Como funciona o sistema concreto PVC

Segundo Mario William Esper, gerente de relações institucionais da ABCP, o sistema utiliza perfis leves de PVC com encaixe rápido, preenchidos com concreto e aço estrutural. Os painéis funcionam como fôrma e contribuem para acabamento interno e externo.

Vantagens destacadas

  • Alta produtividade com equipes reduzidas
  • Obra mais limpa, com menos entulho e desperdício
  • Melhor controle de materiais e custos
  • Durabilidade e facilidade de manutenção

A ABCP desenvolveu em 2001 o projeto Casa 1.0®, voltado a moradias de qualidade com custo acessível. O projeto já permitiu a construção de cerca de 40 mil unidades habitacionais ao longo de nove anos.

Leia também: Rio Branco (AC) prevê construção de 15 mil unidades habitacionais


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