A Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO) é um empreendimento estratégico do setor ferroviário brasileiro por conectar a principal região produtora do agronegócio à malha nacional ao se ligar à Ferrovia Norte-Sul, considerada o espinhaço ferroviário do Brasil – com mais de 2.000 km de extensão, entre Açailândia (MA) e Estrela d’Oeste (SP), a Norte-Sul atravessa o País, conectando os portos de Itaqui (MA) e de Santos (SP). O investimento para execução desse trecho da FICO é estimado em R$ 10,2 bilhões.
Com 364 km de extensão, o primeiro segmento da FICO ligará os municípios de Água Boa (MT) e Mara Rosa (GO), ponto de conexão com a Ferrovia Norte-Sul. O projeto passou por revisão pelos técnicos da Infra S.A. – estatal ligada ao Ministério dos Transportes e responsável pela estrada de ferro –, resultando na otimização do traçado e no aprimoramento da ligação com a Norte-Sul. Originalmente previsto para Campinorte (GO), o destino da linha foi alterado para Mara Rosa, proporcionando ganhos operacionais sem aumento do custo de implantação em relação ao projeto de 2010.
Em uma segunda etapa, a ferrovia prevê a ligação entre Água Boa e Lucas do Rio Verde (MT), num trajeto de 505 km. Há, ainda, um traçado expandido que considera a extensão até Vilhena (RO), acrescentando outros 646 km à ferrovia. Além disso, a FICO está planejada para se interligar à futura Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), que conectará o porto de Ilhéus (BA) ao município de Figueirópolis (TO), expandindo as rotas para os portos do Nordeste do País, formando um corredor ferroviário no sentido leste-oeste.
Entre seus benefícios, a FICO escoará a produção agrícola, especialmente de Mato Grosso, maior produtor de soja do Brasil, além de outros produtos, em direção aos portos do Maranhão, Santos ou Paranaguá (PR). Dos municípios impactados pelo trecho inicial da FICO, pode-se destacar: Mara Rosa, Alto Horizonte, Nova Iguaçu de Goiás, Santa Terezinha, Crixás, Nova Crixás e Aruanã, em Goiás, e Cocalinho, Nova Nazaré e Água Boa, no Mato Grosso.
“A conexão da FICO com a Ferrovia Norte-Sul será um marco logístico, acelerando o escoamento de grãos, especialmente soja e milho, para os mercados externos”, afirma André Ludolfo, diretor de Empreendimentos da Infra. “Além de reduzir custos logísticos, a ferrovia também tornará mais barato o transporte de insumos, como combustíveis e fertilizantes, ampliando a competitividade do agronegócio. É mais eficiência no transporte de cargas, menos caminhões nas rodovias e menos emissões de carbono.”
Atualmente, está em obras o primeiro segmento, entre Mara Rosa e Água Boa. O traçado inclui 20 pontes e um viaduto, sendo que quatro dessas estruturas já foram concluídas. “Em trechos que exigem soluções especiais são aplicadas técnicas avançadas de reforço de subleito, estabilização e sistemas modernos de drenagem”, explica Ludolfo.
O trabalho está distribuído em 11 frentes de trabalho, das quais oito estão ativas atualmente, mobilizando 1.810 máquinas pesadas e centenas de trabalhadores, chegando a um pico de 8.000 empregados diretos, com alto percentual de mão de obra local, segundo o diretor da Infra. “Os canteiros são estruturados por pacote, com um centro logístico de distribuição de materiais em Mara Rosa para a superestrutura”, relata Ludolfo. No local atuam empresas de engenharia e construção como EMPA, Aterpa, Ápia e R&D Mineração & Construção.
Conforme o diretor, o avanço atual da construção abrange desde a terraplenagem e execução de obras de arte especiais até a implantação da superestrutura ferroviária. “A obra alcançou 22,5% de avanço e tem previsão de conclusão para abril de 2028, com o cronograma sendo cumprido como planejado”, afirma.
Já a construção desse primeiro trecho da FICO é de responsabilidade da Vale, como contrapartida pela renovação antecipada da concessão da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), sendo responsável por todos os custos de implantação. Ludolfo faz questão de destacar que a fiscalização fica a cargo da Infra, com certificação de um organismo de inspeção acreditada independente.

Grandes números
A execução desse empreendimento se destaca pela grandiosidade dos números – mais de 21 milhões de metros cúbicos de terraplenagem, cerca de 14 milhões de metros cúbicos de escavação e 9,2 milhões de metros cúbicos de aterro executados, com aproximadamente 240 km em execução simultânea, além de 8 mil toneladas de trilhos já recebidos. A FICO adota bitola larga (1,60 m), trilhos TR-UIC 60 e dormentes de concreto monobloco, com velocidade operacional de até 80 km/h e capacidade de carga de 32,5 toneladas por eixo.
Um dos maiores desafios da obra é a logística de insumos, como trilhos e dormentes, cuja distribuição parte do centro logístico de Mara Rosa e utiliza a própria Ferrovia Norte-Sul para transporte, reduzindo prazos e custos. “Parte significativa desses materiais é transportada pela Norte-Sul, o que otimiza prazos, diminui custos e reforça a integração ferroviária existente”, salienta Ludolfo. “Além disso, interferências com redes de energia elétrica e outras estruturas públicas demandam soluções de engenharia específicas e negociações com terceiros.”
A envergadura da FICO vai além das obras de engenharia de alta complexidade e da instalação dos trilhos. A execução exige um amplo trabalho de gestão fundiária e ambiental, com atenção especial à preservação do patrimônio arqueológico. Ao longo dos 364 km da ferrovia, foram identificados 33 sítios arqueológicos, dos quais 23 já foram resgatados, assegurando a preservação histórica e o cumprimento das normas.
No campo fundiário, um dos maiores desafios do empreendimento, mais de 244 km foram desobstruídos, segundo levantamento da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Para agilizar esse processo e reduzir disputas judiciais, a ANTT e seus parceiros promoveram, em 2024, três mutirões de conciliação, garantindo segurança jurídica e transparência no avanço das obras.
Além da relevância econômica, a obra segue um programa socioambiental, com medidas para minimizar riscos à fauna e flora e envolver as comunidades locais. Segundo a ANTT, estão catalogados 23 programas socioambientais, “além de um rigoroso acompanhamento de 137 condicionantes ambientais. Essa gestão sustentável se reflete na obtenção de 55 licenças e autorizações para assegurar que as atividades sigam os padrões ambientais estabelecidos”, diz a instituição, em nota.




