Redes aéreas levam saneamento a moradias sobre palafitas em Manaus e Belém

Redes aéreas levam saneamento a moradias sobre palafitas em Manaus e Belém

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A universalização do saneamento básico no Brasil enfrenta desafios estruturais acumulados ao longo de décadas, que variam conforme as realidades regionais. Ainda assim, cinco anos após a aprovação do Marco Legal do Saneamento, já é possível observar avanços relevantes, inclusive na região Norte — considerada a mais crítica do País.

Nesse contexto, a Aegea Saneamento antecipou investimentos na região já em 2025. Somente no Pará, os aportes iniciais somam R$ 220 milhões, dos quais R$ 144 milhões foram aplicados até novembro de 2025. Ao longo dos 40 anos de concessão, a companhia prevê investir R$ 18 bilhões no Estado.

Apesar de a meta de atendimento universal até 2033 ainda estar distante, desde a aprovação do Marco Legal o setor avançou de forma significativa, especialmente na atração de capital privado. Estados como Alagoas, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e, mais recentemente, o Pará, realizaram concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs) que ampliaram os recursos destinados à expansão de redes, redução de perdas e modernização dos sistemas de tratamento de água e esgoto.

Expansão histórica da Aegea no Norte do País

Em 2025, a Aegea consolidou uma das maiores expansões de sua história, com forte concentração de investimentos na região Norte. Em agosto, a empresa venceu a concessão do Bloco C no Pará, que abrange 27 municípios e cerca de 800 mil habitantes. O contrato prevê R$ 3,6 bilhões em investimentos para universalizar o abastecimento de água até 2033 e a coleta e o tratamento de esgoto até 2039.

Essa concessão se soma aos Blocos A, B e D, conquistados em abril, que juntos preveem R$ 15,2 bilhões em investimentos. Com isso, o total destinado aos projetos de saneamento no Estado alcança R$ 18,8 bilhões. Ao todo, a Aegea passa a atender 126 municípios paraenses, ampliando sua atuação para quase todo o território do Pará.

Antecipação de obras para a COP30

Diante da realização da COP30, a Aegea, por meio de sua subsidiária Águas do Pará, antecipou as operações em Belém, Ananindeua e Marituba para setembro de 2025. As ações priorizam melhorias no abastecimento de água e no esgotamento sanitário em áreas críticas.

Entre as intervenções, destacam-se as obras na Vila da Barca, com a implantação de redes elevadas de água, nova adutora e estação de bombeamento. Os investimentos somam R$ 220 milhões, realizados em parceria com a Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa), sendo R$ 144 milhões já executados.

“Com os novos blocos do Norte, a Aegea atua hoje em 15 Estados e 892 municípios do País”, afirma Renato Medicis, vice-presidente regional da Aegea Saneamento.

Renato Medicis, vice-presidente
regional da Aegea

Segundo ele, embora a universalização até 2033 seja um desafio, os resultados já são visíveis. Barcarena, município paraense com cerca de 120 mil habitantes, deverá estar completamente saneado ainda em 2025, tanto em abastecimento de água quanto em esgotamento sanitário.

Engenharia adaptada a áreas de palafitas

A maior parte dos investimentos está concentrada na regularização do abastecimento e na melhoria da qualidade da água, incluindo limpeza de reservatórios, construção de novos poços e atendimento a populações sem acesso regular à água potável.

“Assim como fizemos em Manaus, onde atuamos desde 2018, avançamos em áreas de extrema vulnerabilidade, atendendo pessoas que vivem em palafitas, becos e igarapés. No Pará, repetimos esse caso de sucesso, com soluções criativas de engenharia”, explica Medicis.

O programa teve início em Belém, onde cerca de 60% das ocupações ainda são irregulares. A Vila da Barca, uma das maiores comunidades sobre palafitas da América Latina, abriga mais de 5 mil pessoas e apresenta desafios como solo instável, alta umidade e alagamentos frequentes.

Para garantir segurança no abastecimento, a solução técnica adotada incluiu a implantação de 2,3 km de redes elevadas, além de uma adutora e uma estação de bombeamento, com ramais individualizados e hidrômetros.

“As estruturas evitam o contato com água contaminada e asseguram pressão e vazão adequadas em todo o sistema”, destaca Medicis.

No esgotamento sanitário, o projeto foi desenvolvido com abordagem específica para áreas alagadas. As redes foram instaladas de forma elevada, permitindo a coleta segura dos efluentes. A obra prevê 1,7 km de redes coletoras, com tecnologia adequada para regiões de várzea.

Experiência de Manaus inspira soluções no Pará

Segundo Medicis, o Pará apresenta desafios logísticos e territoriais expressivos. Altamira, por exemplo, é o maior município do Brasil em extensão territorial. Já Afuá é uma cidade inteiramente construída sobre palafitas, sem circulação de veículos, onde a mobilidade ocorre por bicicletas.

Em Afuá, a solução aplicada foi inspirada na experiência desenvolvida em Manaus, especialmente no Beco Nonato, obra pioneira no atendimento a comunidades sobre palafitas.

Beco Nonato: referência em saneamento em áreas vulneráveis

“O Beco Nonato é um símbolo das transformações do saneamento em Manaus. Foi a primeira comunidade de palafitas da cidade a receber redes de água tratada”, relembra Medicis.

O principal desafio foi adaptar os sistemas às particularidades de cada residência. Foram instaladas redes coletoras e realizadas ligações internas em todos os imóveis. Em 2023, mais de 900 moradores passaram a contar também com coleta de esgoto, por meio de redes projetadas conforme as características estruturais das habitações.

As soluções adotadas tornaram-se referência para outras áreas da capital amazonense. O projeto de instalação das redes de água no local foi reconhecido com o Prêmio Cases de Sucesso em Água e Saneamento, concedido pelo Pacto Global da ONU.

Logística, tecnologia e inovação no saneamento

Para atuar em áreas de difícil acesso, a Aegea adota soluções logísticas específicas, como o uso de materiais leves e modulares, redes suspensas e estações compactas. A empresa também prioriza a contratação de mão de obra local e promove treinamentos técnicos.

Além disso, investe em tecnologias de monitoramento em tempo real, capazes de rastrear pressão, vazão e qualidade da água. Em cidades como Manaus e Rio de Janeiro, esse modelo já contribuiu para a redução de perdas e maior regularidade no abastecimento.

Durante as enchentes no Rio Grande do Sul, a companhia utilizou imagens de satélite e sensores para identificar áreas alagadas e acelerar o restabelecimento dos serviços. Outra frente estratégica é o reuso de esgoto tratado, desenvolvido por meio da Apura, empresa do grupo dedicada a projetos de reaproveitamento hídrico para uso industrial.

Apesar de o Marco Legal do Saneamento completar apenas cinco anos, Medicis ressalta que o setor já vive um salto expressivo em investimentos, impulsionando não apenas as concessionárias, mas toda a cadeia produtiva ligada ao saneamento — da indústria de materiais ao surgimento de novos prestadores de serviços.


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