Combustíveis: em defesa da energia nuclear

Em rota de colisão frontal com os ambientalistas ortodoxos, cresce no Brasil e no mundo, nos mais diversos segmentos da sociedade, a convicção de que a geração de energia a partir de fontes nucleares, longe de ser algo a ser demonizado, é a única alternativa viável para o suprimento das necessidades energéticas do país no caso de uma repentina e significativa retomada da atividade econômica no parque industrial do país. Desde que o processo seja cercado por indispensáveis requisitos de segurança.

Curiosamente, ao lado de argumentos estritamente técnicos – a energia nuclear não polui nem provoca aquecimento global – a defesa do “nuclear, sim” fundamenta-se na posição de um peso-pesado da defesa ecológica:
nada menos do que James Lovelock, guru do movimento ambientalista mundial, que passou boa parte de seus 90 anos apontando os riscos da degradação ambiental. É dele o conceito de Gaia, amplamente difundido entre ecologistas, de que a terra é um organismo vivo que se auto-regula, e cujo equilíbrio depende do controle da atividade humana predatória que causa o aquecimento global. Este sim, no seu entender, o grande risco enfrentado pelo planeta.

Lovelock não está só nesta posição. A seu lado encontra-se ninguém menos do que Patrick Moore, fundador da aguerrida ONG ambientalista Greenpeace, que chegou a enfrentar navios de guerra franceses com botes de borracha para impedir testes nucleares no atol nas Ilhas Aleutas, ao norte do Pacífico.

Precisamos interromper imediatamente a queima de combustíveis fósseis, que piora o efeito estufa. A única forma de energia imediatamente acessível que não causa aumento de temperatura é a nuclear. Não temos tempo para experimentar – não cansam de repetir Lovelock e Moore.

Segurança em foco

A defecção de dois expoentes da luta ambiental se não estancou os protestos contra as centrais atômicas, pelo menos abrandou, no Brasil e no mundo, a rejeição a priori do uso da fissão nuclear como fonte de energia. Reconhecido o fato de que a usina atômica não tem emissões e não aquece a atmosfera, as reservas contra sua operação hoje restringem-se aos aspectos de segurança:

O que fazer quando os equipamentos chegarem ao fim de sua vida útil e, principalmente, que destino dar aos resíduos, o chamado lixo atômico? E, o que fazer em caso de acidente ? – perguntam militantes históricos da causa ambientalista, como Sérgio Ricardo de Lima e José Mynssen.

Defesa ao vivo

Como resposta a essas perguntas, o engenheiro Pedro Figueiredo, há mais de 20 anos diretor de operações de Angra I, para começar, dá a quem o questiona a respeito um texto de Lovelock esclarecendo:

“O volume do lixo atômico produzido pelas 34 usinas – que fornecem mais de 20% da energia consumida pelo Reino Unido – em 50 anos de atividade equivale a 10m³, mais ou menos à carga de dois caminhões, que pode ser acondicionada numa casa pequena.”

Sobre o risco de acidente, Figueiredo, que mora quase ao lado da usina com a mulher e dois filhos, faz o questionamento:

Qual a instalação industrial, no Rio ou no Brasil, que pode dizer que tem um plano de emergência, para o caso de acidente, que a população conhece, mesmo as com potencial enorme de risco, como uma grande refinaria? – argumenta.

No caso das duas usinas nucleares brasileiras, localizadas entre os municípios de Angra e Paraty, há um plano consolidado por anos de instrução ao público para evacuação de residentes, com sirenes de alarme distribuídas em toda a região a algumas simulações de emergência com moradores da região.

Há um software desenvolvido pelo prof. Moacir Duarte, da Coppe, que inclui o tempo para uma mulher grávida, levando o filho pela mão e um TV portátil na outra, chegar até a estrada. É tudo cientificamente controlado, incluindo o armazenamento dos resíduos, sob rigoroso controle – explica Figueiredo.

John Albuquerque Forman, geólogo pela antiga Universidade do Brasil, mestre pela Universidade de Stanford, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo, da Cia Brasileira de Tecnologia Nuclear, um dos que trabalharam na prospecção das reservas de urânio do Brasil – hoje com 303 mil ton, as sextas maiores do mundo, com possibilidade de chegarem a 800 mil ton – alinha outros argumentos em defesa da opção energética nuclear
O geólogo explica que o Brasil tem o combustível, domina o processo de enriquecimento, e dispõe de quadros com know how, construído com muito esforço durante anos, desperdiçado até hoje.

Destaca também que uma usina nuclear é colocada dentro da rede de transmissão, ao contrário de hidrelétricas como Santo Antonio e Jirau, no início de construção, que exigirão 3 mil km de linhas de transmissão cortando a Floresta Amazônica, sem falar que, afirma, o potencial hidrelétrico do Sudeste está praticamente esgotado.

O problema é que a política energética do Brasil tem influência direta dos barrageiros (as empreiteiras que constroem hidrelétricas). Querem fazer barragens a qualquer custo. É por uma dessas que a experiência de Balbina, no Amazonas, foi um desastre ecológico. As barragens ficaram assoreadas rapidamente e hoje são hoje um terrível criatório de mosquitos – afirma.

Fonte: Estadão

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