De costas para o Ocidente.

Depois que todo o esforço diplomático investido nas negociações da Rodada de Doha resultou em fracasso, vários governos ao redor do mundo iniciaram a era do salve-se-quem-puder na selva do comércio global. A tática preferida de sobrevivência tem sido intensificar as conversas para a realização de acordos bilaterais de negócios.

Segundo a Organização Mundial do Comércio, mais de 200 contratos desse tipo estão em vigor e muitos outros se encontram em negociação. Uma das “noivas” mais desejadas do momento por candidatos a parceiros é a Associação das Nações do Sudeste Asiático. Também conhecido como Asean, este bloco econômico reúne dez economias emergentes, entre as quais Vietnã, Cingapura, Indonésia e Tailândia. A Asean forma hoje o terceiro maior mercado de exportações do planeta, depois da União Européia e do Nafta, a associação entre Estados Unidos, Canadá e México. Com a iminente integração da China ao bloco asiático, ele deve saltar para a segunda posição nesse ranking.

Nos últimos meses, a Índia, a Austrália e a Nova Zelândia aproximaram-se da Asean, assinando tratados de livre comércio. Somente no caso da Índia, o acordo firmado deve elevar o comércio bilateral entre as partes dos atuais 20 bilhões de dólares para 52 bilhões de até 2010. O potencial de negócios da região é um dos principais fatores que transformaram a Asean na estrela do momento entre os blocos econômicos. Entre 2006 e 2007, seus países-membros registraram uma taxa de crescimento média de 7%.

Embora a crise global tenha refreado o ímpeto do progresso na região, a Asean deve evoluir 4,7% em 2008, quase o dobro da média da União Européia, de acordo com as previsões do Fundo Monetário Internacional.
No campo das exportações, a Asean também apresenta um desempenho acima da média mundial. De 1990 para cá, suas vendas externas sextuplicaram. No mesmo período, as do Mercosul aumentaram 380% e as do Nafta, 230%. “A Asean está se tornando muito importante, do ponto de vista econômico e político”, afirmou numa entrevista recente Kamal Nath, ministro do Comércio da Índia. A proximidade geográfica e a crescente integração do bloco à economia chinesa tornam a região ainda mais promissora. O volume de comércio entre os chineses e os países que compõem a Asean cresceu de 59,6 bilhões de dólares em 2003 par a 171,1 bilhões em 2007 – uma variação de 187% nesse período. Esses valores devem aumentar ainda mais nos próximos anos, pois a China tem um cronograma para se tornar um membro pleno da associação – o processo terá início em 2010 e finalização prevista para 2015.

Com a adesão da China, a Asean terá quase 2 bilhões de consumidores, quatro vezes mais que a população reunida hoje pelos 27 países da União Européia. O potencial desse gigantesco mercado interno pode mudar substancialmente a relação das economias da região com seus tradicionais parceiros comerciais do Ocidente. “Historicamente, os países asiáticos sempre foram muito dependentes de exportações para os Estados Unidos e a Europa”, diz Hsieh Yuan, diretor especialista em China da consultoria KPMG. “Esses mercados nunca vão deixar de ser importantes, é claro, mas as nações da Asean podem se desenvolver explorando o enorme potencial de seus próprios quintais.” O poder de consumo da região da Asean já vem funcionando hoje como uma tábua de salvação para vários grupos de empresas exportadoras, compensando uma parte das perdas registradas nos últimos meses com o enfraquecimento das economias de Estados Unidos e Europa. É o caso de diversas fábricas localizadas em províncias do sul da China cuja especialidade é produzir têxteis e calçados para grifes ocidentais.

Essas fábricas estão se tornando fornecedoras de empresas locais em expansão como a Meters/bonwe, uma espécie de Zara chinesa de moda jovem, com mais de 2 000 lojas e faturamento anual de 700 bilhões de dólares. A montadora de automóveis chinesa Chery recentemente substituiu os Estados Unidos pela Asean no papel de mercado prioritário para seus modelos. Para entrar no mercado americano, a companhia assinou em 2007 um contrato para produzir carros compactos nos Estados Unidos em parceria com a Chrysler. Mas o projeto jamais saiu do papel. Por mais que tentassem, os chineses não conseguiram adaptar seus carros ao padrão de qualidade exigido pelos consumidores americanos. E a crise financeira – com sua restrição de crédito e retração no consumo – chegou para sepultar de vez os planos da Chery. Diante desse cenário, a montadora reforçou sua posição na Ásia – e mais especificamente na Asean.

Recentemente, anunciou a instalação de uma fábrica na Tailândia para a produção de 5 000 carros por ano, incluindo o compacto Chery QQ e a SUV Tiggo. Outra linha está sendo construída em Johor, na Malásia. Toda a produção será despejada na própria China e em seus vizinhos. Apesar da ampla relação de negócios que podem ser prospectados na Asean, o bloco comercial ainda apresenta obstáculos aos investidores estrangeiros.

Enquanto o Nafta e a União Européia são constituídos, em sua maior parte, de países economicamente maduros, democráticos e estáveis, a Asean é um caldeirão politicamente efervescente, no qual cabem regimes tão distintos quanto a monarquia de Brunei e a ditadura de Mianmar. Nem mesmo um dos maiores e mais prósperos países da região, a Tailândia, escapa a esse perfil de instabilidade política. Desde agosto, o país enfrenta uma série de protestos de oposição do governo. Nas últimas semanas, milhares de tailandeses foram às ruas para derrubar do poder o premiê Somchai Wongsawat, acusado de corrupção. Manifestantes bloquearam por quase oito dias o aeroporto internacional de Bangcoc. Os policiais tentaram dar fim aos protestos, mas foram rechaçados por uma multidão de 2 000 pessoas armadas com barras de ferro, tacos de golfe e pedaços de madeira. Antes do caos no aeroporto do Bangcoc, cerca de 10 000 manifestantes já haviam ocupado por três meses a sede do governo. Os tumultos só acabaram depois que a Justiça tailandesa ordenou a dissolução dos três partidos que formavam a coalizão do governo e a destituição do premiê.

Novas eleições foram convocadas pelo Parlamento e o vice-primeiro-ministro, Chavarat Charnvirakul, assumiu interinamente o poder. As tensões no país tiveram influência direta na agenda da Asean. Estava marcada para ocorrer na Tailândia em meados de dezembro a reunião anual do bloco econômico asiático. Em razão do clima de instabilidade, o encontro foi adiado para 2009 e será realizado na Indonésia.

Fonte: Estadão

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *