Sobrepreço na Valec. São descobertos indícios de sobrepreço em compras realizadas pela Valec, a estatal que cuida da construção de ferrovias. O valor do sobrepreço, segundo apurou o Tribunal de Contas da União (TCU), chega a R$ 420 milhões em materiais adquiridos para as ferrovias Norte-Sul e Oeste-Leste. Na análise do TCU, lotes de dormentes estariam sendo pagos em duplicidade.
Complexo Tapajós. Governo começa a colocar em prática o plano de construção do Complexo Tapajós, que inclui, ao longo do rio Tapajós, que vai do Amazonas ao Pará, as usinas São Luís do Tapajós, Jardim do Ouro e Chacorão. Juntas, somarão 6.000 MW de potência instalada. A licitação dessas obras é observada como uma sequência natural da construção da usina de Belo Monte. O governo gostaria de ver esse plano concluído até 2015. Mas, nesse caso, a distância entre o desejo e a prática parece amazônica.
Gerdau condena desindustrialização. Convidado pela presidente Dilma Rousseff para ajudar a melhorar a gestão do governo, o empresário Jorge Gerdau Johannpeter (foto) resolveu participar, mas criticamente, do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão. Ali, disse que a busca de capital estrangeiro, com juros altos, precisa ter limites; que não se pode deixar a indústria em marcha à ré; e que, em uma visão estratégica de longo prazo, é preciso ter políticas de desenvolvimento industrial, emprego de qualidade e não depender apenas de commodities.
Uma lacuna na “bolsa ditadura”. A denúncia é feita pelo jornalista e historiador Elio Gaspari. Ele informa que 40 anos depois da Guerrilha do Araguaia, aquela tragédia sobrevive, mas como uma amostra da capacidade do Estado brasileiro de “proteger o andar de cima”. Tanto é, segundo ele, que, até hoje, 44 pobres camponeses que viviam na região e tiveram suas casas, roças e criações destruídas ainda aguardam alguma benesse, mínima que seja, do que ele chama de “bolsa ditadura”. A mesma bolsa que favoreceu FHC, Lula e outros que estão longe, muito longe, do andar de baixo.
Estradas se derretem. Foi no Ceará. O juiz Luiz Praxedes Vieira da Silva, da 1ª Vara Federal no estado, acusa o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) de fazer estradas que se dissolvem, aos primeiros impactos das chuvas. O asfalto usado na pavimentação, que deveria durar, a rigor, uma década, se derrete e não dura dois anos. Foi por essa e outras que o governador do estado, Cid Gomes (PSB), andou chamando o então ministro Alfredo Nascimento, dos Transportes, de “incompetente”. Logo depois, várias denúncias atingiriam 12 das 23 superintendências do Dnit.
Crimes contra a população. A edição da revista O Empreiteiro deste mês traz editorial em que dizíamos: “Fraudes em obras públicas são crimes contra a população”. E, a propósito, registrávamos o seguinte pensamento do jurista Ives Gandra: “(…) sempre se encontram caminhos novos para contornar barreiras criadas para bloquear a corrupção. Nem por isso deve-se desistir. Quando da Constituinte de 1988, propus transformar o Tribunal de Contas da União num Tribunal Judiciário, com poder de executar suas decisões.” Quem sabe, um dia, essa ideia pega.
O exemplo que vem de Londres. A capital britânica entregou completamente concluído, um ano antes da data para a realização dos Jogos Olímpicos de 2012, o complexo destinado àquele evento global. Para tanto, introduziu uma nova política de mobilização das comunidades do entorno, realizou, via internet, todas as licitações exigidas, e contratou um consórcio de empresas de engenharia para gerenciar o enorme empreendimento. O maior percentual dos recursos foi empregado nas obras do legado permanente, que fica para população, depois da Olimpíada (ver matéria nesta edição).
AGOSTO
A queda de Jobim. O ministro Nelson Jobim, da Defesa, caiu. Como peixe, morreu pela boca. Disse ele: “O que se percebe, hoje, é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também para com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento”. Contudo, o que mais lhe apressou a queda foi a manifestação sobre duas colegas: a ministra Ideli Salvati, das Relações Institucionais, que ele considerou “fraquinha”, e Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, que, segundo ele, “nem conhece Brasília”.
Fome. Por causa da pior seca das últimas seis décadas, e da devastação ocasionada pela guerra civil, cerca de 30 mil crianças morrem de fome na Somália. A situação de “insegurança alimentar” se espalha pelo chamado Chifre da África.
Visão de Sarney. O senador José Sarney (PMDB-AP) decide tratar da crise financeira nos Estados Unidos fazendo uma recomendação: “Coloquemos os bigodes de molho, porque o que parecia impossível, e era sólido, se desfaz. Como costumamos dizer no Nordeste: “No horizonte pinta um tempo de vaca não conhecer bezerro”.
Recuperação nos EUA e na Europa. O economista e marxista francês François Chesnais entende que, para os Estados Unidos e os países europeus se recuperarem economicamente, é necessário três providências: 1. O restabelecimento do poder de compra das classes baixas e médias; 2. A recriação e expansão da capacidade dos Estados de fazer investimentos sociais e ambientais; e 3. O estabelecimento de um sistema monetário internacional estável, que não fique subordinado ao capital financeiro. Tudo bem. Mas por que só três providências? Não poderiam ser quatro? Ou cinco? Ou mais? E como conseguir isso? O economista achou melhor ficar calado.
Obras e política não se bicam. Três partidos políticos vinham comandando diretorias de Furnas Centrais Elétricas. Resultado: dois deles, o PMDB e o PR, tiveram de ser desalojados de lá. Ao perceber, via TCU, que a construção das hidrelétricas de Batalha, no rio São Marcos, e Simplício, no rio Paraíba do Sul, poderia apresentar um prejuízo de R$ 200 milhões, a presidente Dilma Rousseff decidiu ver o que ali estava acontecendo e mandou que fossem apurados indícios de irregularidades. Três diretores tiveram de ser colocados na rua. Livre das pressões políticas que eles manipulavam, as obras começaram a fluir melhor.
“Não sou lixo, não”. Tão logo foi exonerado do Ministério dos Transportes, o senador Alfredo Nascimento (PR) subiu à tribuna do Senado e declarou: “Não aceito que usem o meu nome e que brinquem com a minha carreira para corrigir distorções que
eu não criei nem para desfazer acordos dos quais eu não participei. Eu não sou lixo, não”. Embora o senador negue que seja lixo, o fato é que a tentativa de limpeza no Dnit é de tal ordem, que está paralisando obras rodoviárias em todas as regiões do País.
SETEMBRO
O custo da corrupção. Reportagem da jornalista Mariana Carneiro, publicada na FSP de 4 deste mês, mostra o tamanho do baú da corrupção no Brasil. Só no período de 2002 a 2008, o País deixou de contar com R$ 40 bilhões – uma média de R$ 6 bilhões/ano – desviados por corruptos. Com aquele volume de recursos o País poderia, conforme o levantamento da reportagem, reduzir de 25,5 milhões para 12,1 milhões o número de moradias sem saneamento básico e elevar em 2 anos e 5 meses a expectativa de vida da população até 2021. O prejuízo material, portanto, tem efeitos catastróficos, no médio e longo prazo, na vida nacional.
Ferroanel, nova promessa. E o Ferroanel vai assim, de promessa em promessa, sendo apenas uma expectativa, constantemente empurrada com a barriga. Desta vez, os governos da União e do estado de São Paulo firmaram acordo para construir, juntos, 60 km de linha exclusiva de Itaquaquecetuba a Jundiaí. O contrato prevê gastos de R$ 1,2 bilhão nas obras, que deverão ser concluídas até 2014. Consultados sobre a possibilidade da entrega do empreendimento naquele prazo, alguns especialistas limitaram-se a sorrir.
O rombo no Ministério dos Transportes. É algo para impressionar, embora ainda haja o que investigar nesse ministério. Mas a auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) já apurou, no Dnit e na Valec Engenharia e Construções Ferroviárias, um rombo que pode chegar a R$ 682,2 milhões. Havia, segundo a CGU, “promiscuidade envolvendo empresas supervisoras, gerenciadoras e construtoras”.
Serviços de engenharia no exterior. Desembolsos do BNDES, para financiamento de obras de engenharia de empresas brasileiras no exterior, registraram aumento de 1.185% de 2001 a 2010. Resumindo: os valores desembolsados passaram de US$ 72,897 milhões para US$ 937,084 milhões. Isso explica por que a Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa contabilizam parcela cada vez maior de seu faturamento executando obras em países da América do Sul, América Central, na África e em outras regiões.
Dilma na ONU. A presidente Dilma Rousseff (foto) abriu a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) advertindo que o mundo vive um momento extremamente delicado. “Enfrentamos uma crise econômica que, se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social”. Disse que o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. “Ou nos unimos todos e saímos juntos, vencedores, ou sairemos todos derrotados.”
SP desiste de limpar rio Pinheiros. Foram dez anos de investimentos em obras de limpeza ao longo do canal do rio Pinheiros. Em números redondos, o governo paulista gastou R$ 160 milhões no projeto de flotação para despoluir a água a fim de levá-la, limpa, à represa Billings. Ao fim de dez anos técnicos constataram que toda a operação foi um rotundo fracasso. Mas o secretário José Aníbal, de Energia, saiu-se com essa: “Pelo menos acumulamos conhecimento”.
OUTUBRO
Uma nova Imigrantes? Trata-se de uma ideia. Talvez de um projeto em curso. O governo paulista cuidaria de construir uma nova estrada para a ligação São Paulo-Baixada Santista, indo de Parelheiros a Itanhaém. O argumento é de que o sistema Anchieta-Imigrantes não dá mais. Está sobrecarregado. E, com a chegada das operações do pré-sal, em Santos, não haveria outra opção. A construção seria feita mediante concessão e compreenderia investimentos de R$ 648 milhões. Mario Mantovani, diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, não concorda com a abertura de uma nova Imigrantes. Diz que não se pode pensar num empreendimento dessa envergadura antes de se ter em mãos o macrozoneamento da Baixada Santista.
A Pré-Sal S. A. ainda inativa. É mais uma estatal – a Pré-Sal Petróleo S. A., criada pelo governo Lula da Silva em 2010 como reflexo da euforia da descoberta do pré-sal. Mas para que mais uma estatal? Há muitas vozes discordantes. A nova estatal acabaria colidindo com a Agência Nacional do Petróleo e com diretorias da própria Petrobras. No fundo, acabaria se constituindo em mais um cabide. Ela funcionaria vinculada ao Ministério de Minas e Energia, teria sede em Brasília e escritório central no Rio. Emprego para muita gente.
Occupy Wall Street se generaliza. Esse movimento, nascido em Wall Street, Nova York, ganha adeptos e se generaliza, com ideias e focos diferentes, em várias regiões do mundo, já alcançando, até hoje, 82 países. Artigo de Naomi Klein, autora da obra “A doutrina econômica do choque – a ascensão do capitalismo de desastre” afirma, em artigo reproduzido na FSP, que hoje “todos podem ver que o sistema (capitalista) é profundamente injusto e está escapando ao controle. A cobiça descontrolada devastou a economia mundial e está devastando o mundo natural”. Esta seria, segundo Naomik, a causa, talvez maior, dos protestos.
Um tiro no pé do Ibama. O Senado aprova projeto de lei pelo qual o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) fica sem o poder de multar crimes ambientais, como o desmatamento. Há um esforço no governo para que a presidente Dilma vete o projeto, que foi considerado, pela ruralista Kátia Abreu (PSD-TO), como um grande avanço na questão ambiental. Coisas de Brasil.
Os royalties do petróleo. Está aí um tema invariavelmente abordado pela revista: como estão sendo aplicados, nos municípios beneficiados, os royalties do petróleo? Há exemplos, poucos, de municípios que os recebem e conseguem utilizá-los em amplas melhorias com obras de saneamento e abastecimento de água, construção de equipamentos urbanos, habitação etc. Mas há aqueles que usam mal essa fonte de recursos. O Ministério Público está agindo, em várias regiões brasileiras, para apurar irregularidades.
Mundo chega aos 7 bilhões de pessoas. A Organização das Nações Unidas (ONU) anuncia que hoje, dia 31 de outubro, a população mundial chega ao patamar de 7 bilhões de pessoas. No mundo todo cresce a preocupação: terá o planeta condições para suprir, com qualidade, os meios para sustentar tanta gente? E se trata de gente que não para de aumentar. Haja vista que o prognóstico para 2100 é de que o mundo terá uma população de 10 bilhões. Aposta-se na possibi
lidade de mil e uma inovações tecnológicas para amenizar o impacto desse crescimento demográfico.
NOVEMBRO
Investimentos no Brasil. As empresas Sany, XCMG, Doosan e Hyundai (asiáticas) e Caterpillar, CNH e John Deere (norte-americanas) querem investir US$ 1 bilhão, no Brasil, instalando novas fábricas de máquinas pesadas para mineração e, em especial, construção. Elas são atraídas pelos diversos projetos de obras de infraestrutura, incluindo aqueles da Copa e da Olimpíada. Mas querem apostar, mesmo, em programas permanentes de obras públicas. A Associação Brasileira de Infraestrutura de Base (Abdib) acha que o Brasil pode investir R$ 922 bilhões até 2015, passando ao largo da precária gestão dos recursos públicos, alocados pelo orçamento anual de investimentos, que não consegue gastar.
IDH brasileiro. Apesar de todo o otimismo oficial com a situação de seu crescimento, o Brasil continua lá embaixo, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, em relação a um universo de 187 países. Está na 84ª posição, abaixo do Equador, Ucrânia, Macedônia, Jamaica, Peru e por aí em diante. O primeiro do ranking é a Noruega e, o segundo, a Austrália. O último, contando até o 94º lugar, é a Tunísia.
Related Group está chegando. A Related Group, que é considerada a maior construtora de residências de luxo no sul da Flórida, EUA, anuncia a chegada ao Brasil em janeiro próximo. Quer construir imóveis residenciais e hotéis nas cidades de São Paulo, Campinas, Rio, Manaus, Belo Horizonte e Recife. Traz na mala um fundo de investimentos com recursos da ordem de US$ 1 bilhão para prospectar oportunidades.
Obras irregulares. O Tribunal de Contas da União (TCU) está recomendando ao Congresso Nacional a paralisação de 26 obras, no valor de R$ 23 bilhões, 18 das quais do Programa de Aceleração do Crescimento. Motivo: foram encontrados indícios de sobrepreço. Uma das obras com irregularidades é a refinaria Abreu e Lima, da Petrobras, em Pernambuco. O sobrepreço seria da ordem de R$ 650 milhões.
Eleições mexicanas. O escritor mexicano Carlos Fuentes faz um prognóstico: “Ou as próximas eleições presidenciais (em 2012) no México serão legítimas e criarão uma democracia estável, ou o crime organizado embarga o México”. Sobre o eventual retorno do Partido Revolucionário Institucional (PRI), disse: “É um partido da época do Matusalém. Duvido que consiga livrar-se de seus vícios”. Obs. O grande escritor faleceria em maio de 2012, aos 83 anos, na Cidade do México.
Decrepitude de pontes e viadutos. Em 2007, o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) e o Instituto de Engenharia identificaram 68 pontes e viadutos com problemas estruturais na cidade de São Paulo. Nesses dias, parte da mureta e do calçamento da ponte dos Remédios desabou, provocando transtornos para o trânsito na região. Por causa disso, a prefeitura resolveu recuperar 30 das obras listadas pelas entidades técnicas. João Alberto Viol, presidente do Sinaenco, diz que, com esse jeitinho de empurrar o problema com a barriga, uma situação que exigia solução de médio e longo prazo acaba se tornando também problema de emergência. E, aí, as coisas ficam mais complicadas para a cidade e para o bolso do contribuinte.
DEZEMBRO
Economia para de crescer. Chegamos ao final de 2011 com o IBGE fazendo uma pessimista constatação: a economia brasileira parou de crescer no terceiro trimestre do ano. Contribuiu, para isso, a decisão do governo de conter despesas e reduzir investimentos, para sustentar o famigerado superávit primário. A estagnação verificada naquele período reduziu o crescimento anual para cerca de 3%.
Suspensa licitação do Rodoanel Norte. Questionamento colocado pela Galvão Engenharia provocou a suspensão da licitação para a pré-qualificação das empresas aptas a construir o trecho norte do Rodoanel, em São Paulo. O principal ponto que gerou o impasse é o seguinte: o edital usa regras do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que impõe mais exigências do que a Lei 8.666/93, de Licitações e Contratos. Segundo o projeto, as pistas vão tangenciar por cerca de 20 km a Serra da Cantareira e atravessar 24 unidades de conservação ambiental. Isto vem provocando protestos de ambientalistas ao BID.
EUA deixam o Iraque. Acabou a guerra no Iraque. Depois de oito anos, oito meses, 26 dias e, oficialmente, 119 mortos, os Estados Unidos decidem deixar aquele país, onde enterram US$ 800 bilhões ou US$ 3 trilhões, segundo os economistas Joseph Stiglitz e Linda Haass, do Council on Foreign Relations. Ao todo, teriam morrido ali 104 mil civis iraquianos, 10 mil soldados de Saddam e 4.487 militares norte-americanos. Uma destruição que não está sendo contabilizada é a do espaço construído: palácios, residências, pontes, viadutos e outras obras que tiveram inclusive a participação da inteligência da engenharia brasileira.
11 milhões vivem em favelas. Censo do IBGE revela ao final deste ano que 11,4 milhões de brasileiros continuam a viver em áreas precárias, sem quaisquer serviços públicos ou urbanização, em favelas, palafitas, grotas, sob viadutos e pontes. O quadro mais grave de moradia está na região metropolitana de Belém (PA), onde 54% da população sobrevive na maior precariedade. Para essa gente, o Brasil nunca cresceu.
JANEIRO, 2012
Manifesto baiano. Prefeituras de 21 municípios baianos lançam manifesto em defesa das obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol). Segundo o documento, a ferrovia, junto com o Porto Sul, em Ilhéus, formará um dos mais importantes complexos logísticos da Bahia e do Brasil.
Incompetências na gestão. A Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) deixou de aplicar, no ano passado, recursos da ordem de R$ 1 bilhão destinado a obras de reforma em 23 aeroportos, dentre eles 11 de cidades-sede da Copa. Por quê? Porque, segundo o governo, houve remanejamento de recursos no Orçamento da União, no final do ano, e R$ 981 milhões em investimentos para aeroportos, além de R$ 88 milhões para manutenção de programas de segurança de voo e controle do espaço aéreo, acabaram “cancelados”. Para alguns técnicos, o que houve foi brutal incompetência de gestão.
E o Projeto Nova Luz? Esse projeto já custou aos cofres do município de São Paulo nada menos que R$ 14,6 milhões. Destina-se a revitalizar a região que se convencionou chamar de Cracolândia. Prevê a demolição e, em seguida, a reconstruç&atil
de;o de 30% dos imóveis da área, com um trabalho de apoio de reurbanização. Ocorre que o projeto aguarda licenciamento ambiental no Conselho Municipal do Meio Ambiente e, dali, não saiu ainda.
Retenção do dinheiro das enchentes. O dinheiro não é pouco. Soma R$ 529 milhões. Era para uma série de obras de prevenção de enchentes em diversas regiões brasileiras. Contudo, ficou retido nos ministério das Cidades e da Integração Nacional. Até aqui não houve explicação satisfatória para mais esse ato de incompetência.
FEVEREIRO
Os consórcios. O consórcio que levou Cumbica é formado (90%) pela Invepar – sociedade com a construtora OAS e fundos de pensão Previ, Funcef e Petros e a sul-africana Acsa (10%). Viracopos, em Campinas, será operado pela francesa Egis, que tem 10% do consórcio formado pelas empresas Triunfo (45%) e UTC (45%). E o consórcio formado pela Infravix (Grupo Engevix), vencedor do aeroporto São Gonçalo do Amarante, em Natal (RN), ganhou o leilão do aeroporto de Brasília, com 675% de ágio. O operador do aeroporto de Brasília, Corporación America, foi considerado o mais agressivo.
Lá no alto. A engenheira química Graça Foster (foto) assume a presidência da Petrobras. Sua ascensão profissional vem de êxito em êxito, de degrau a degrau, dentro da empresa. Ela própria definiu assim a sua trajetória: “Eu poderia dizer que entrar na Petrobras foi um sonho. Na verdade, foi um acerto”.
Leilão dos aeroportos. Terminou, com alguma surpresa, o leilão dos aeroportos de Cumbica, Viracopos e Brasília. A surpresa ficou por conta das operadoras. Quem contava que as maiores saíssem vencedoras se frustrou. Quem ganhou vem operando na África e na América Latina e não administra nenhum dos 30 maiores aeroportos do mundo. Os três grupos vencedores pagarão R$ 24,5 bilhões pela concessão, 347% a mais que o lance mínimo. O BNDES deverá financiar 80% do investimento.
Palavra do consultor. Joseph Barat, consultor em logística e transporte, diz que as concessões dos aeroportos, além de atrair recursos financeiros, propiciam oportunidades para os segmentos da engenharia de projetos, construção civil, sistema de gestão e fornecimentos de equipamentos e serviços.
O retorno ao Equador. Há três anos a Construtora Norberto Odebrecht era expulsa do Equador pelo presidente Rafael Correa. Pois bem: ela está de volta àquele país. Cabe aqui a indagação: o que mudou? A construtora ou o presidente? Nenhum deles. O que mudou foram as circunstâncias de mercado. A Odebrecht participou da licitação para construir a usina hidrelétrica Manduriacu, um contrato de US$ 124,8 milhões, e apresentou carta de intenções do BNDES para financiar o projeto. Resultado: ela venceu a concorrência, da qual participaram, também, as empresas brasileiras Engevix e Camargo Corrêa.
MARÇO
Paulo Bastos. Há um sentimento de vazio muito grande, na arquitetura, provocado pelo falecimento do arquiteto e urbanista Paulo Bastos. Analisando os problemas e incongruências dos planos de crescimento de São Paulo, ele costumava dizer que os limites da cidade, de qualquer cidade, são os limites da plena cidadania. Nos anos de chumbo, entregou-se às tarefas de defesa da democracia. E, paradoxalmente, uma vez ficou detido no quartel da 2º Exército, que ele projetou. Mas se projetou quartel, projetou também as obras de reforma da Catedral da Sé e do Clube Paineiras que, por conta da beleza de sua arquitetura, poderá ser tombado pelo patrimônio.
Legião de injustiçados. O governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) assina decretos desapropriando 2.500 imóveis situados no traçado do trecho norte do Rodoanel. A área equivale a 1.400 campos de futebol e engloba uma faixa de 130 m, em média, ao longo de 47,4 km de estrada. Moradores esperam que as desapropriações sejam efetuadas com “justiça”, embora seja esperar demais de uma prática que vem deixando uma legião de injustiçados.
Operários param hidrelétricas. Trabalhadores dos dois principais canteiros da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, resolveram cruzar os braços. O mesmo já vinham fazendo operários de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia. Os canteiros dessas duas hidrelétricas já registraram acidentes graves, no ano passado, durante paralisações semelhantes. O Ministério de Minas e Energia encara os fatos olimpicamente. Informa que as paralisações causam “pequenos atrasos conjunturais”.
Morre Millôr – um golpe no humor. Como viver o humor, sem a vida do Millôr Fernandes (foto)? O grande chargista brasileiro morreu em consequência de um AVC isquêmico. Deixou para a posteridade algumas frases célebres: “Livre pensar é só pensar” (contra a censura). “Morrer é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois”. “Chama-se de herói o cara que não teve tempo de fugir”.
E Aziz Ab´Saber deixa a cultura de luto. Outra morte, que significa perda irreparável, é a do professor, geógrafo, humanista, pesquisador e permanente questionador Aziz Ab´Saber (foto). Crítico do novo Código Florestal, ele vinha se manifestando, também, com veemência, contra as obras da Transposição do rio São Francisco. Considerava que, em razão do planejamento míope elaborado para essa obra, seria pertinente indagar: “A quem serve a transposição? Quem serão os seus beneficiários?”
Edição de OE analisa aeroportos. A edição deste mês, da revista O Empreiteiro, pormenoriza o leilão dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília, considerando que as concessões inauguram uma nova etapa brasileira nesse campo e que, com os novos operadores, começa a tremular uma luzinha no final do túnel. É que os aeroportos brasileiros vêm, ao longo dos anos, acumulando problemas de toda ordem, desde os mais simples, como carência de sanitários civilizados, como algum conforto mínimo na área de check in ou na área de desembarque, tanto nacional quanto internacional. São problemas que tendem a se agravar com a demanda prevista para a ocasião dos grandes eventos esportivos internacionais. E, nesta mesma edição, o editorial denunciava que o aparelhamento político vinha dificultando a recuperação do Dnit.
ABRIL
“Exército tem de ter menos obras”. O general Jorge Fraxe (foto), que assumiu a direção-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), diz que o Exército não pode assumir obras rodoviárias demais. “Ele precisa ter o mínimo de obras para que se mantenha adestrado”, afirmou.
A Delta e
Cachoeira. Carlos Cachoeira, preso no dia 29 de fevereiro último, é acusado de chefiar uma quadrilha com ramificações em diversas instâncias do poder, sobretudo em Brasília e em Goiás. Dentre os políticos que ele conseguiu colocar dentro do seu esquema de envolvimento estão o senador Demóstenes Torres (então DEM-GO), o governador Marconi Perillo (PSDB-GO) e os deputados Stepan Nercessian (PPS-RJ), Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), Rubens Otoni (PT-GO) e Jovair Arantes (PTB-GO). Uma CPI do Congresso vai investigar as ligações da Delta com os parlamentares e outros envolvidos.
Unasul. Alguns representantes da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) tiveram encontro com empresários brasileiros e apresentaram um pacote de 31 projetos na área de infraestrutura. Disseram que as obras previstas, a ser executadas nos próximos dez anos, correspondem a investimentos da ordem de US$ 21 bilhões. Acham que a integração da infraestrutura aumentará o comércio entre países da região. As obras incluem linhas de transporte fluvial, rodovias e ferroviárias.
Megacanteiros. Edição de O Empreiteiro trata dos problemas correntes em vários canteiros de obras, com eclosão de greves e, em alguns casos, de vandalismo. Informa que os gestores atuais deveriam se inspirar nas lições deixadas pelos megacanteiros do passado. Na época, com as obras sob a responsabilidade de estatais, os gestores procuraram se antecipar aos fatos para evitar greves e outras ocorrências. Hoje, com as obras sob a gestão de empresas privadas, os problemas causados pelas paralisações deveriam estar sendo resolvidos com mais agilidade do que no passado, mas isso não está acontecendo.
MAIO
RDC. O governo criou o Regime Diferenciado de Contratações (RDC) sob o pretexto de que, com ele, vai acelerar as obras da Copa e do PAC. O RDC altera dispositivos da Lei 8.666, de 1993, e significa, em vez de um avanço, um retrocesso. No fundo, deixa de aperfeiçoar a lei, justifica equívocos do passado e ignora o esforço dos que trabalharam para discutir, elaborar e, ao final, conseguir a promulgação da 8.666.
A maior enchente em Manaus. O nível do rio Negro, nas recentes enchentes em Manaus, é considerado o maior em 110 anos. A cheia afeta a vida de mais de 30 mil pessoas, interrompe o comércio e anula as atividades turísticas. Na área metropolitana e em outras regiões foi decretada calamidade pública. Como ocorreu em outras ocasiões há promessas, mas só promessas, de obras de prevenção.
As improvisações são para sempre. Gustavo do Vale (foto), presidente da Infraero, diz em entrevista ao jornalista Ricardo Gallo, da FSP, que aqueles módulos operacionais provisórios – os puxadinhos que estão sendo construídos nos aeroportos – não serão mais provisórios: estão sendo feitos para ficar. “Alguns são definitivos e constituem a solução para aeroportos regionais. São baratos e podem ser feitos em seis meses.”
Mobilidade urbana. O governo reconhece que o financiamento de obras de infraestrutura de mobilidade urbana não vai bem. Em 2010 a previsão era de que em 2012 os investimentos em transportes seriam de R$ 43 bilhões, R$ 28 bilhões dos quais resultantes de financiamentos governamentais. Contudo, devido a atrasos de governos estaduais e municipais, e também do próprio governo federal, só R$ 400 milhões teriam sido desembolsados, até abril último, pelos bancos responsáveis pelo financiamento.
JUNHO/JULHO
Governo fala em Pibinho. A presidente Dilma Rousseff acha que ainda será possível “virar esse jogo”, ou seja, melhorar o índice da produção industrial que registrou um recuo de 4,3% em maio, na comparação com o índice do mesmo período, em 2011. De qualquer modo, o governo, pelos indicadores, já estaria trabalhando considerando um crescimento de apenas 2%, menos do que a última projeção do Banco Central, que era de 2,5%. A ideia presidencial é mobilizar investimentos públicos e estimular investimentos privados para fazer girar a roda do crescimento e fazê-la alcançar 4% no seu terceiro ano deste governo. Contudo, não foram feitas propostas de como melhorar a gestão pública dos projetos de infraestrutura.
Zerada a Cide-Combustível. Pois é. O governo federal zerou a Cide-Combustível, nome pelo qual ficou conhecido o tributo Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, criado pela Lei 10.336, ao final do governo FHC, a fim de destinar recursos específicos para obras rodoviárias. Sem esse tributo poderá haver riscos de interrupções e precariedade na infraestrutura rodoviária.
Rio+20. Surgiu uma proposta, dos países em desenvolvimento, para a criação de um fundo de US$ 30 bilhões para o “desenvolvimento sustentável”. O dinheiro, para esse fundo, seria providenciado pelos países ricos. Mas acaso os países ricos colocariam algum dinheiro nesse fundo sem alguma contrapartida apreciável? E qual seria a contrapartida? O secretário-geral da Rio+20, Sha Zukang, ao ser indagado a respeito, apenas sorriu. A ironia disse tudo.
Aumento do preço da gasolina. Ao antecipar esta proposta, a ser aprovada pelo governo, a Petrobras mostra como anos de controle artificial de preços erodiu sua capacidade de investimentos. Por sinal, diversos dos seus projetos de refinarias e plataformas estão com o cronograma atrasados e a sua produção de petróleo bruto não cresce no ritmo previsto.
A foto do ano. Lula e Maluf, aos abraços, selando compromisso político. A foto de ambos, no jardim de Maluf, ficará para os arquivos históricos da política brasileira. E Maluf, com a verve de sempre, diz que perto de Lula, “sou comunista”.
Liu Yang. É bom memorizar esse nome. Liu Yang, de 34 anos, foi a primeira mulher, piloto da Força Aérea da China, escolhida pelo governo daquele país para ser colocada, a bordo de um pequeno módulo especial, na órbita da Terra.
Demóstenes Torres. Estava no script. O senador Demóstenes Torres (foto) foi cassado pelos seus companheiros, sob a acusação de integrar a quadrilha de Carlinhos Cachoeira e deverá ficar inelegível até 2027. O que surpreende, no senador, foi o perfil retilíneo que ele traçou nos últimos anos e que parecia blindado a qualquer ato de suspeição contra ele. Mas as amizades e alguns atos às vezes se revelam comprometedores. O tribuno acabou apanhado com a boca na botija. Ao tentar defender-se citou o provérbio: “Digas-me com quem andas que eu te direi quem és”. Os que o condenaram sabiam com quem ele andava.
Diário, um começo. As notícias vão e vêm e compõem um conjunto que dá o entendimento do passado e do presente.
Concluo essas anotações, do “Diário do Brasil”, com uma frase do mestre Millôr: “Certas coisas só são amargas se a gente as engole”.
Fonte: Padrão