A recente reportagem exibida pelo programa Fantástico, ao classificar os municípios de Jordão e Tarauacá (no Acre), Manari (em Pernambuco) e Traipu (em Alagoas) como os piores do Brasil em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), trouxe à tona um debate necessário: até que ponto indicadores globais conseguem refletir realidades regionais tão distintas?
Embora tecnicamente bem produzida, a reportagem carece de precisão analítica, especialmente no que diz respeito à Amazônia, região com características sociais, culturais e ambientais profundamente distintas dos parâmetros urbanos usados na maior parte das métricas internacionais.
O erro recorrente na leitura da Amazônia
Não é a primeira vez que esse tipo de equívoco ocorre. Em 2000, o município de Marechal Taumaturgo, no Alto Juruá, também foi apontado como um dos piores lugares do mundo para uma criança nascer, segundo os mesmos critérios do IDH.
Na ocasião — assim como agora — os indicadores desconsideraram contextos essenciais, como:
- cultura local,
- modo de vida tradicional,
- relação com o território,
- e organização social comunitária.
Infância, cultura e critérios distorcidos
No caso de Jordão, a reportagem sugere que as crianças não seriam plenamente felizes por não conhecerem determinados alimentos ou por não tomarem banho de chuveiro.
Essa avaliação ignora completamente que:
- muitas dessas crianças vivem em comunidades indígenas;
- o banho de rio faz parte da cultura local;
- a infância amazônica se estrutura em um ambiente natural que, para muitos, é um verdadeiro “parque de diversões”.
Aplicar critérios urbanos padronizados a essas realidades é não apenas impreciso, mas culturalmente equivocado.
Educação superior presente onde o índice diz que não há desenvolvimento
Outro dado ignorado pelos rankings é que o Acre é o único estado brasileiro com presença de ensino superior público em todos os seus municípios, incluindo localidades isoladas como Jordão e Marechal Taumaturgo.
Esse fato, por si só, já desmonta a narrativa simplificada de ausência total de políticas públicas ou oportunidades.
Amazônia e Nordeste: realidades distintas, problemas distintos
Equiparar a pobreza amazônica à miséria extrema do sertão nordestino é um erro grave de análise.
Na Amazônia, ainda há:
- acesso à água doce,
- pesca,
- caça,
- frutos da floresta.
No sertão nordestino, a ausência estrutural de água inviabiliza qualquer forma mínima de autonomia produtiva.
Colocar essas realidades na mesma escala estatística não esclarece — confunde.
O que é o IDH e onde estão seus limites
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado pelo economista Mahbub ul Haq, com a colaboração de Amartya Sen, como alternativa ao PIB per capita, incorporando aspectos sociais e educacionais.
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No entanto, o problema não está na existência do índice, mas na sua aplicação mecânica, sem adaptação regional.
Não se pode avaliar:
- a Amazônia,
- o sertão nordestino,
- centros urbanos europeus
com os mesmos critérios absolutos, como se fossem territórios equivalentes.
O papel da política e dos técnicos locais
Cabe à classe política — independentemente de ideologia — e aos técnicos dos estados amazônicos:
- questionar os parâmetros internacionais,
- apresentar dados contextualizados,
- propor métricas mais aderentes à realidade local.
O Acre pode não ser ainda o lugar ideal para se viver, mas está muito distante da imagem de desgraça absoluta frequentemente reproduzida por rankings e reportagens descontextualizadas.
Mais debate, menos simplificação
O debate sobre desenvolvimento humano precisa evoluir:
- menos números frios,
- mais leitura territorial,
- mais respeito às diferenças culturais.
Sem isso, indicadores que deveriam orientar políticas públicas acabam servindo apenas para estigmatizar populações inteiras.



