Antes do Mundial, setor de cruzeiros alertava que terminais precisariam de investimentos para receber navios de maior porte e atender milhares de passageiros.
Durante os preparativos para a Copa do Mundo de 2014, a possibilidade de utilizar navios de cruzeiro como hospedagem adicional para turistas colocou em evidência uma deficiência da infraestrutura brasileira: a capacidade dos portos para receber grandes embarcações de passageiros.
Em apresentação à Comissão de Turismo e Desporto da Câmara dos Deputados, Ricardo Amaral, então presidente da Associação Brasileira de Representantes de Empresas Marítimas (Abremar), alertou que parte dos portos brasileiros, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, ainda não possuía infraestrutura considerada adequada para receber os navios de maior porte que começavam a entrar em operação internacionalmente.
Entre os principais desafios apontados estavam dragagem, profundidade dos canais de acesso, estrutura dos terminais de passageiros e equipamentos portuários.
Novos navios exigiam profundidade de até 12 metros
Um dos principais gargalos apontados pelo setor estava relacionado ao aumento das dimensões dos navios de cruzeiro.
Segundo Amaral, algumas das novas embarcações que estavam sendo construídas naquele período necessitavam de até 12 metros de profundidade para operar adequadamente.
Isso criava uma demanda por obras de dragagem e adequações da infraestrutura marítima.
A preocupação era especialmente relevante diante da possibilidade de utilizar navios como capacidade adicional de hospedagem durante a Copa do Mundo.
Na avaliação apresentada pela Abremar, parte dos portos brasileiros ainda não estava preparada para receber essas embarcações.
Terminais precisariam atender até 6 mil turistas por dia
O problema não terminava quando o navio chegava ao cais.
A infraestrutura terrestre destinada ao embarque e desembarque também era considerada insuficiente quando comparada àquela encontrada em importantes destinos internacionais de cruzeiros.
A meta discutida naquele período era preparar terminais capazes de receber entre 2 mil e 6 mil turistas por dia.
Isso exigiria infraestrutura para movimentação de passageiros, acessibilidade, controle de bagagens, segurança e integração entre porto e cidade.
Segundo a Abremar, empresas do setor demonstravam interesse em participar dos investimentos, mas ainda faltavam projetos estruturados para viabilizar as intervenções.
Cruzeiros eram considerados alternativa de hospedagem para a Copa
A discussão estava diretamente relacionada ao desafio de acomodar o fluxo adicional de visitantes esperado para a Copa de 2014.
Navios atracados nas cidades-sede ou em localidades próximas poderiam funcionar como uma espécie de capacidade temporária de hospedagem, complementando a rede hoteleira.
A estratégia dependia, entretanto, da capacidade dos portos para receber simultaneamente grandes embarcações e milhares de passageiros.
O debate mostrava como a preparação para um grande evento esportivo ultrapassava estádios e aeroportos e alcançava diferentes segmentos da infraestrutura nacional.
Temporada 2008/2009 recebeu 520 mil passageiros
Os dados apresentados pela Abremar mostravam que o mercado brasileiro de cruzeiros já havia alcançado uma escala relevante antes da Copa.
Na temporada 2008/2009, os navios receberam aproximadamente 520 mil passageiros, segundo os números apresentados pela associação.
Desse total:
- 445 mil eram brasileiros;
- 75 mil eram estrangeiros;
- US$ 340 milhões teriam sido gerados em receitas;
- US$ 34,5 milhões teriam sido recolhidos em impostos;
- US$ 37,5 milhões teriam sido destinados a agentes de viagens em comissões.
Os números correspondem ao levantamento apresentado pela Abremar naquele período e devem ser interpretados dentro daquele contexto histórico.
Brasil disputava mercado internacional de cruzeiros
Além das limitações físicas dos portos, a entidade apontava questões regulatórias como obstáculos à expansão da atividade.
Uma delas envolvia os procedimentos para obtenção de vistos pelas tripulações estrangeiras.
Segundo Amaral, os custos relacionados a esses processos poderiam ultrapassar US$ 1 milhão dependendo do porte do navio, conforme estimativa apresentada pela associação.
A Abremar argumentava que custos e procedimentos desse tipo dificultavam o planejamento de investimentos de longo prazo pelas companhias.
Também existia preocupação com a concorrência de novos destinos internacionais.
O Brasil se beneficiava da sazonalidade do mercado europeu, que favorecia o deslocamento de embarcações para a América do Sul durante determinados períodos do ano. A expansão de destinos como Dubai, entretanto, era apontada pelo setor como um fator de aumento da competição internacional.
Copa colocou infraestrutura portuária no debate
A discussão sobre os cruzeiros mostrou uma dimensão menos lembrada da preparação brasileira para a Copa do Mundo de 2014.
Além de estádios, aeroportos e sistemas de mobilidade urbana, o evento também levantou questionamentos sobre a capacidade dos portos de passageiros.
Dragagem, canais de acesso, terminais, equipamentos e integração com as cidades tornaram-se elementos relevantes na discussão sobre a possibilidade de ampliar a utilização dos cruzeiros no país.
Vista em perspectiva histórica, a discussão também evidencia como a realização de grandes eventos internacionais foi utilizada naquele período para acelerar o debate sobre diferentes gargalos da infraestrutura brasileira.
Fonte histórica: Estadão. Dados do mercado de cruzeiros apresentados no material original: Abremar.



