Este é um artigo de autoria de Flavio Amboss, engenheiro civil e Gerente de pré-construção na PREMIER Design+Build, em Chicago, nos Estados Unidos.
Depois de nove anos trabalhando no Brasil, em empresas como Galwan e Cyrela, e dos últimos quatro anos atuando nos Estados Unidos pela PREMIER Design+Build, uma convicção profissional se tornou ainda mais forte para mim: nossos engenheiros, arquitetos, gestores e profissionais da construção estão entre os mais qualificados do mundo.
Por isso, quando olho para o Espírito Santo e para seu potencial de transformação logística, vejo uma oportunidade extraordinária. O ES está bem posicionado para se tornar um dos grandes hubs logísticos do Brasil e, potencialmente, da América do Sul. Para isso, acredito que devemos olhar para fora não para comparar grandezas, mas para aprender com quem já percorreu esse caminho, inclusive com seus acertos e seus erros.
Chicago é um desses exemplos.
Localizada no coração do Midwest americano, às margens do Lago Michigan, Chicago ocupa uma posição geográfica privilegiada. A cidade está próxima da conexão natural entre os Grandes Lagos e o sistema do Rio Mississippi e se tornou um ponto estratégico entre os grandes mercados do leste e oeste dos Estados Unidos. Sua localização criou uma oportunidade que gerações de investimentos transformaram em uma das maiores redes logísticas da América do Norte.
A história começou em 1848, quando o Illinois & Michigan Canal conectou os Grandes Lagos ao sistema do Mississippi e a primeira ferrovia chegou à cidade. Em 1856, dez grandes ferrovias já terminavam em Chicago. A cidade rapidamente deixou de ser apenas um ponto geográfico favorável e passou a ser um ponto de transferência entre diferentes sistemas de transporte.
Um dos grandes segredos de Chicago foi entender que logística não é um ativo isolado. É um sistema.
Hoje, a região movimenta quase 700 milhões de toneladas de mercadorias por ano, avaliadas em mais de US$ 1 trilhão. São rodovias, ferrovias, aeroportos, hidrovias e milhares de empresas funcionando de maneira integrada. Em 2024, o setor de freight empregava mais de 210 mil pessoas na região.
Existe uma razão para a famosa frase americana: “When Chicago catches a cold, the rest of the country sneezes.” Quando uma região movimenta tamanha quantidade de mercadorias, qualquer interrupção pode repercutir muito além de suas fronteiras.
Mas talvez uma das maiores lições esteja justamente no fato de que Chicago não concentrou toda essa atividade dentro de seu centro urbano. A região metropolitana desenvolveu uma rede de cidades e corredores logísticos no seu entorno. Joliet é um dos melhores exemplos. Localizada a aproximadamente 60 quilômetros do centro de Chicago, a cidade se transformou em um importante polo intermodal, conectado a grandes ferrovias e rodovias.
O crescimento do e-commerce acelerou ainda mais esse processo. A expansão da maior empresa de comércio eletrônico do mundo e de outros grandes operadores trouxe investimentos expressivos para cidades como Joliet e Monee. Apenas os projetos dessa gigante do e-commerce registrados pelo Estado de Illinois somavam centenas de milhões de dólares em investimentos e contribuíram para a criação de milhares de empregos.
O impacto, entretanto, vai muito além do operador logístico. Grandes empreendimentos movimentam construtoras, empresas de concreto, terraplenagem, pavimentação, engenharia, instalações elétricas e mecânicas, transporte e uma enorme cadeia de fornecedores. Em períodos de forte expansão, fornecedores precisam reorganizar sua capacidade para atender projetos simultâneos de grande escala.
Essa é uma oportunidade e, ao mesmo tempo, um alerta para o Espírito Santo. Se queremos atrair grandes operadores logísticos, nossas empreiteiras e fornecedores precisam estar preparados para atender uma demanda maior, mais rápida e tecnicamente mais complexa. Não basta construir infraestrutura; precisamos preparar a cadeia produtiva que irá sustentá-la.
Chicago também mostra que crescimento tem consequências.
A cidade foi construída sobre uma região extremamente plana, com áreas úmidas e grandes desafios de drenagem. No século XIX, ruas e edifícios chegaram a ser elevados para melhorar o saneamento. Chicago precisou modificar sua própria geografia para acompanhar seu crescimento.
Hoje, congestionamento, emissões, cruzamentos ferroviários, qualidade do ar e impactos sobre comunidades próximas às áreas de carga fazem parte da discussão sobre seu futuro logístico.
É aqui que entra uma palavra muitas vezes mal compreendida: sustentabilidade.
Sustentabilidade não é simplesmente “abraçar árvores”. É encontrar equilíbrio entre meio ambiente, sociedade e economia. Um projeto que agride o meio ambiente não é sustentável. Um projeto que prejudica a sociedade também não. Mas um projeto que não é economicamente viável tampouco é sustentável, porque não consegue se manter no longo prazo.
A região de Chicago já reduziu suas emissões em 20% desde 2005 e trabalha com uma meta de redução de 80% até 2050. A própria região reconhece, porém, que sua infraestrutura foi construída em grande parte para as necessidades do século passado e precisa ser preparada para o próximo.
A lição para o Espírito Santo, portanto, não é copiar Chicago. É aprender antes de precisar corrigir.
Precisamos pensar em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, áreas industriais, energia, saneamento, habitação e tecnologia como partes de um mesmo sistema. Precisamos pensar regionalmente, distribuindo atividades onde exista infraestrutura e espaço para crescer. E precisamos considerar os impactos ambientais e sociais desde a concepção dos projetos, e não como uma correção posterior.
O Espírito Santo ainda tem muito trabalho pela frente. Mas justamente por isso temos uma vantagem: podemos aprender com quem construiu antes de nós.
O objetivo não deveria ser criar uma infraestrutura preparada para 2030. Devemos construir hoje a infraestrutura que o Espírito Santo precisará em 2050.
O futuro logístico do Estado não será definido apenas pela quantidade de carga que conseguiremos movimentar, mas pela nossa capacidade de movimentá-la de maneira eficiente, competitiva e sustentável. E, olhando para o potencial do Espírito Santo, acredito que esse futuro já começou.
Sobre o autor
Flavio Amboss é engenheiro civil com mais de 13 anos de experiência no setor da construção, com atuação no Brasil e nos Estados Unidos. Atualmente, trabalha como Gerente de pré-construção na PREMIER Design+Build, em Chicago. Ao longo da carreira, atuou em empresas como Cyrela e Galwan, com experiência em gestão de projetos, planejamento e desenvolvimento de empreendimentos. Neste artigo, compartilha sua visão sobre o potencial logístico do Espírito Santo a partir da experiência de Chicago, abordando infraestrutura, integração dos modais de transporte e sustentabilidade.



