Com as taxas de juros elevadas e a incerteza “típica” de ano eleitoral, o cenário para 2026 é de “cautela” no segmento de locação de máquinas e equipamentos.
Paulo Esteves, presidente da Analoc, em entrevista à revista OE, afirma que, no entanto, ainda espera demanda em função da continuidade dos programas sociais. Mas, segundo o executivo, “observa-se baixa utilização das frotas e uma tendência de queda nos preços de locação”.
O presidente da Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas (Analoc) vê o setor do agronegócio com “potencial”, e aponta a expansão do segmento para cidades médias e pequenas como “um caminho natural” do segmento.
Sobre a introdução de equipamentos elétricos no mercado, ele vê como uma “tendência clara”.
Leia a seguir a entrevista de Paulo Esteves, presidente da Analoc, a revista OE:
OE – Como as locadoras estão enxergando o mercado de locação de máquinas para 2026?
Paulo Esteves – Existe hoje uma preocupação muito grande com alguns fatores centrais. O primeiro deles são as taxas de juros elevadas. O segundo é a incerteza típica de um ano eleitoral.
Ao mesmo tempo, parte do setor da construção que demanda equipamentos ainda encontra algum fôlego em programas como o Minha Casa Minha Vida e em políticas de distribuição de renda, que movimentam o consumo e podem gerar alguma atividade econômica.
De forma geral, porém, o cenário é de cautela. Observa-se baixa utilização das frotas e uma tendência de queda nos preços de locação. Isso, combinado com juros altos, torna o ambiente mais desafiador.
Por outro lado, há uma grande oferta de equipamentos, especialmente de origem chinesa, com linhas de crédito bastante atrativas e prazos longos de pagamento, o que acaba estimulando investimentos.
OE – Quais setores apresentam maior potencial para o segmento de rental neste ano?
Paulo Esteves – O agronegócio sempre apresenta grande potencial, até porque ainda é um mercado pouco explorado pela locação, mas que vem crescendo de forma consistente nos últimos anos. A mineração se mantém estável, com atividade contínua das grandes mineradoras.
Já na construção, o destaque fica por conta de obras de infraestrutura em fase final e, novamente, os projetos habitacionais como o Minha Casa Minha Vida, que devem garantir alguma demanda ao longo do ano.
OE – O segmento segue em expansão, porém em desaceleração no ritmo de crescimento. Isso já era esperado?
Paulo Esteves – Sim. A locação de equipamentos é uma tendência mundial e existe hoje uma percepção muito clara de que, para o usuário, faz mais sentido alugar do que comprar. O custo da propriedade é alto e o capital pode ser melhor aplicado no próprio negócio.
O que ocorre é que o Brasil atravessa um período de atividade econômica mais fraca, com muitas obras de infraestrutura paralisadas. Ainda assim, quando se observa a penetração da locação medida pelas vendas de máquinas, percebe-se uma tendência crescente: cada vez mais equipamentos vendidos vão para locadoras e não para usuários finais.
Em alguns segmentos, como plataformas aéreas, isso já representa 90% a 95% das vendas. Na linha amarela de terraplenagem, historicamente esse índice era muito menor, mas hoje já se aproxima de 30% das vendas destinadas às locadoras. A tendência de crescimento permanece, mas a demanda está mais fraca neste início de ano. Há expectativa de melhora ao longo do tempo com a redução das taxas de juros.
OE – Muito se fala da expansão do rental para cidades médias e pequenas. Como a entidade observa essa tendência?
Paulo Esteves – Esse é um caminho natural de expansão do mercado: primeiro os grandes centros, depois as cidades satélites e, gradualmente, o interior. Contudo, ainda não existem dados conclusivos sobre essa movimentação.
Tudo depende muito do perfil econômico das cidades. Existem municípios pequenos com forte presença industrial, agrícola ou mineradora, que naturalmente comportam empresas de locação. É uma tendência percebida, mas que ainda merece estudos mais aprofundados.
OE – Como o senhor observa o avanço das máquinas e equipamentos elétricos? É uma demanda irreversível?
Paulo Esteves – Há, sim, uma tendência clara de introdução de equipamentos elétricos, mas ainda não em larga escala. O avanço das baterias, impulsionado principalmente pela indústria automotiva, favorece essa transição.
Equipamentos elétricos já existem há muito tempo, como empilhadeiras e plataformas aéreas. Agora, começamos a observar a eletrificação chegando também à linha amarela. Na Europa, essa tendência é muito forte; nos Estados Unidos, um pouco menos; e no Brasil ela ainda está em estágio inicial.
O principal desafio é a infraestrutura de carregamento. Para viabilizar o uso em maior escala, será necessário ter bases com capacidade para carregamento rápido, algo semelhante ao que já se observa nas cidades para veículos elétricos. Isso deve começar a aparecer também em canteiros de obras.
OE – Qual é hoje o maior desafio do setor de locação?
Paulo esteves – Podemos destacar quatro grandes desafios: ambiente de negócios, gestão, taxas de juros e pessoas.
A questão da mão de obra qualificada é crítica. É difícil formar profissionais e, quando se qualificam, muitas vezes são atraídos por outras empresas. Isso exige investimento constante em capacitação.
As altas taxas de juros também dificultam muito o negócio. Com custos financeiros na casa de 18% a 20% ao ano, é desafiador viabilizar investimentos, já que o retorno precisa ser maior que o custo do capital.
A gestão é outro ponto central. É preciso fazer mais com menos, cuidar da renovação da frota, manutenção, escolha adequada de clientes, gestão financeira rigorosa, controle de fluxo de caixa, cobrança eficiente e formação correta de preços.
Por fim, o ambiente de negócios no Brasil é extremamente desafiador: insegurança jurídica, alta carga tributária e dificuldades operacionais. Como a locação é uma atividade intensiva em capital, mapear bem o mercado, prospectar corretamente e atender os clientes certos é fundamental
Analoc realiza seu evento em julho
Como pano de fundo as demandas das obras no Estado de São Paulo, incluindo concessões, parcerias público-privadas e investimentos públicos, a Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas (Analoc) e o Grupo LocadoresBR confirma a realização da Analoc Rental Show 2026, de 6 a 8 de julho no Expo Center Norte, em São Paulo.
A entidade vê o nível atual de maturação de projetos no Estado como demandante imediato de máquinas e serviços de locação. No setor rodoviário, por exemplo, as concessões recentes, como Nova Raposo, Rota Sorocabana, Litoral Paulista e o Lote Paranapanema, são importantes frentes de serviços simultâneos, que exige, sobretudo, máquinas compactas, equipamentos de terraplenagem, usinas móveis, ferramentas elétricas e plataformas de acesso.
Segundo ainda a entidade, linhas do sistema metroferroviário de São Paulo como a 6-Laranja, 4-Amarela e o pacote das Linhas 11, 12 e 13 entraram em fases que tradicionalmente concentram uso intensivo de máquinas.
Projetos como o novo Centro Administrativo Campos Elíseos, PPPs (parcerias públicos-privadas) de parques urbanos, modernização de travessias litorâneas e o futuro Túnel Santos–Guarujá adicionam novas frentes de trabalho ao calendário estadual, apontam os organizadores do evento, que veem a feira como ponto de vitrine do segmento para o todo esse ciclo de obras.


