Com 19 anos de emancipação política, o município de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, tem pinta de gente grande: considerado município-modelo, tem 35 mil habitantes, e ocupa uma dos melhores Índices do Desenvolvimento Humano (IDH) do País (0,818) – o segundo melhor de Mato Grosso – fruto de um crescimento econômico movido pela produção de grãos: Lucas do Rio Verde responde por 1% de toda produção brasileira de grãos, embora sua área ocupe apenas 0,04% do território nacional.
Há quatro anos tem taxa de crescimento médio de 10%, e um PIB na casa de R$ 1 bilhão, cuja a previsão é dobrar até 2009. A safra 2006/2007 rendeu, por exemplo, 750 mil toneladas de grãos. Tal desempenho é creditado à introdução de tecnologia e investimento por parte de agricultores provenientes do Sul, que lá se instalaram na década de 1990.
A cidade surgiu na década de 1980, após a abertura da rodovia BR 163 ligando Cuiabá a Santarém (PA), e em função da política de ocupação do cerrado, promovida pelo governo militar. Em pouco tempo, o município ganhou a liderança da produção de soja e milho, irradiando essa prosperidade aos municípios vizinhos. A vocação produtiva chamou a atenção de indústrias vinculadas ao agronegócio, principalmente da soja, e hoje Lucas do Rio Verde prepara um passo seguinte em sua história, buscando um perfil industrial, já chamado de agro-industrialização. Por conta desse nova fase, o comércio já responde por 60% dos empregos gerados pela região, segundo o prefeito Marino Ferraz, que vem apostando numa política de incentivos fiscais para a atração das indústrias.
Já estão ali instaladas fábricas da Sadia, da Bunge, da Amaggi e a dinamarquesa Dânica, além de 800 empresas de diversos portes, segundo o prefeito Marino Franz. “Nossa idéia é trabalhar em cima de arranjos produtivos, aproveitando a matéria-prima até o final da escala e agregar valor ao produto”. A plataforma desse projeto é um Plano Diretor, que delimita novas áreas residenciais e industriais dentro da cidade, bem como a construção de um anel viário que irá contornar o município.
O parque industrial existente fica às margens da MT 499, localizado a 8 km da região urbana da cidade. Nele está sendo erguida a fábrica de rações para aves e suínos da Sadia, com investimentos de R$ 1,3 bilhão, gerando 7 mil empregos diretos e outros 20 mil indiretos. Outro símbolo dessa nova fase é a indústria da Amaggi, Exportação e Importação, inaugurada em 30 de maio, do grupo André Maggi, que já produz 1.700 toneladas/dia, tendo capacidade para esmagar 1 milhão de toneladas/ano. A planta industrial está situada em uma área de 54 hectares, com 35 mil m2 de construção. Recebeu investimentos de R$ 100 milhões para a unidade da indústria (óleo degomado e farelo) e outros R$ 30 milhões para a área de armazenagem (2 armazéns de 62 mil t cada) e reflorestamento. Seu papel é somar forças com as outras duas unidades industriais da Amaggi, em Cuiabá/MT e Itacoatiara/AM, alcançando a capacidade de 6 mil toneladas/dia de soja.
A Fiagril, que já mantinha negócios na área de insumos agrícolas, apostou no biodiesel e conclui neste ano uma usina com capacidade para 135 milhões de litros de biodiesel. Ela é capaz de esmagar 120 milhões t de matéria-prima (óleo de soja, algodão, girassol e gordura animal), sendo toda informatizada e com equipamentos de última-geração.
Agro-industrial
O perfil industrial começou a ser concretizado a partir de 2005, com a implantação da usina Canoa Quebrada, de 28 MW. Só neste ano, está previsto um aporte de recursos por parte Banco Nacional de Desenvolvimento Econômicos e Social (BNDES) de R$ 1 bilhão de reais, que inclui desde as obras industriais como a nova unidade da Sadia assim como a construção de 1500 residências, para abrigar os trabalhadores os trabalhadores que devem se instalar na cidade.
Mas nem tudo são flores: o município tem forte dependência da como a BR-163, em Mato Grosso, entre Nova Santa Helena e Lucas do rio Verde. E conta com as melhorias, prometidas pelo Ministério dos Transportes, para não comprometer o escoamento da safra. As obras, já licitadas, devem ser concluídas só no ano que vem e prevê o recapeamento, e reconstrução de vários trechos danificados.
De outro lado, o aeroporto da cidade será ampliado para 1.198 metros de comprimento e 30 metros de largura, permitindo que aviões de maior porte possam pousar e decolar da cidade. Hoje a pista possui 1000 m de extensão e conta com balizamento para receber aeronaves de pequeno porte com até 5.800 quilos. Serão investidos R$ 1 milhão na obra de ampliação, aí incluídos o valor da compra das áreas vizinhas ao aeroporto e o novo projeto do terminal de embarque e desembarque.
E precisará incrementar a infra-estrutura de serviços de educação, médico-hospitalar, saneamento e moradia, que já compromete o crescimento da cidade. O município concluiu 160 unidades de um loteamento que deverá chegar a 1500 unidades, numa parceria entre o poder executivo, a companhia da Sadia e o Banco Concórdia. O loteamento fica localizado em área de 280 hectares, nas proximidades do Setor Industrial Norte, desacelerando a especulação imobiliária local.
Outro gargalo para o município, inserido num contexto de disputa entre o agricultores e ambientalistas, será equilibrar sua vocação para o crescimento contornando os problemas de ordem ambiental. O Projeto Lucas do Rio Verde Legal, iniciativa municipal reunindo os produtores rurais, a ONG The Nature Conservancy (TNC) e empresa privadas, pode ser uma boa pista para o futuro. A base do programa é certificar os produtores que atendam aos padrões legais das relações trabalhistas, ambientais e de biossegurança. A plataforma do projeto foi um mapeamento via satélite das condições ambientais de cerca de 3.600 km². O trabalho mostrou a necessidade de reflorestamento de 2000 hectares de área de preservação permanente em 408 propriedades, desmatadas ao longo do processo de ocupação pelo agronegócio. Esses produtores tem sido notificadas e orientados a fazer o reflorestamento das áreas em torno das nascentes dos rios. Com 11 escolas para atender a rede de 6000 alunos, nenhuma favela, São Lucas do Rio Verde, terá em breve de criar uma equação entre progresso econômico e qualidade de vida urbana.
Fonte: Estadão