Presença feminina na construção avança lentamente diante de barreiras culturais  

Presença feminina na construção avança lentamente diante de barreiras culturais  

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Apesar de avanços pontuais, a presença feminina na indústria da construção ainda é limitada e marcada por desigualdades estruturais. A avaliação é da vice-presidente de responsabilidade social e presidente da Comissão de Responsabilidade Social da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Ana Cláudia Gomes, que aponta que o setor ainda está distante de refletir a participação das mulheres na sociedade e no mercado de trabalho. 

“A presença feminina na indústria da construção ainda é pequena e, quando olhamos para a área operacional, esse número é ainda menor”, afirmou. 

Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mostram que, ao final de 2024, as mulheres representavam 11,50% da força de trabalho da construção, com 338.858 trabalhadoras, enquanto os homens somavam 2.607.964 empregados, o equivalente a 88,50% do total. 

Apesar da participação ainda reduzida, a presença feminina no setor tem crescido ao longo dos últimos anos. Segundo a RAIS, o número de mulheres com carteira assinada na construção civil aumentou 184% entre 2006 e 2023. 

Ainda assim, para Ana Cláudia, o avanço está longe de representar uma mudança estrutural no setor. 

“Não dá para dizer que avançou de forma significativa. Ainda existem muitas barreiras estruturais e culturais que dificultam a entrada e a permanência das mulheres na construção”, pontuou. 

Desigualdade também aparece na remuneração 

Além da baixa participação, a vice-presidente de responsabilidade social da CBIC destaca que muitas profissionais ainda enfrentam diferenças salariais em relação aos homens que exercem funções equivalentes. 

“Infelizmente, ainda vemos situações em que a mulher ocupa o mesmo cargo que o homem e acaba tendo uma remuneração menor. Isso não é invenção ou suposição. É algo que escutamos constantemente”, disse. 

A desigualdade também aparece nos cargos de liderança. Pesquisa Women in Business 2026, realizada pela consultoria Grant Thornton, indica que 38% das posições de liderança nas empresas brasileiras são ocupadas por mulheres. Embora o percentual esteja acima da média global, o levantamento mostra que as mulheres ainda permanecem sub-representadas nos níveis mais altos de decisão. 

Formação pode ampliar presença no futuro 

Embora a presença feminina no mercado de trabalho da construção ainda seja reduzida, Ana Cláudia observa que o cenário pode mudar gradualmente a partir da formação profissional. 

“Quando olhamos para as escolas de engenharia, vemos muitas mulheres. Isso mostra que existe uma perspectiva de médio e longo prazo de termos mais mão de obra feminina disponível para o setor”, destacou. 

Mesmo assim, as mulheres ainda são minoria nas áreas diretamente ligadas à construção. Dados do Painel Estatístico do Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação, mostram que, em 2024, havia 277.606 mulheres matriculadas em cursos de Engenharia, Produção e Construção, o equivalente a 31,28% do total. No mesmo ano, 609.915 homens estavam matriculados nessas áreas, representando 68,72% das matrículas. 

A diferença contrasta com a composição da população brasileira. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres representam 51,5% da população do país. 

Diversidade como estratégia para o setor 

Segundo Ana Claudia, ampliar a participação feminina na construção não é apenas uma questão de inclusão social, mas também uma decisão estratégica para as empresas. 

“Estamos falando de inteligência organizacional. Ignorar o talento das mulheres em um país onde elas representam mais da metade da população é desperdiçar potencial”, afirmou. 

Segundo ela, especialmente em um momento em que o setor passa por transformações tecnológicas e busca maior inovação, ampliar a diversidade pode contribuir para a competitividade das empresas. 

“Num momento em que a construção começa a incorporar mais tecnologia e inovação, ampliar a diversidade tende a fortalecer o setor”, disse. 

Iniciativas para ampliar oportunidades 

Com o objetivo de enfrentar essas barreiras, a CBIC desenvolve o projeto Elas Constroem, iniciativa voltada à formação, qualificação e inserção de mulheres na indústria da construção. 

O programa promove ações de capacitação, articulação com empresas e estímulo à inclusão feminina no setor, especialmente em áreas operacionais. 

Em 2025, o projeto piloto contou com a participação de 10 entidades associadas em nove estados brasileiros, formando mais de 200 mulheres em cursos voltados às atividades da construção. A iniciativa é realizada em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e também prevê a aproximação com empresas para facilitar o encaminhamento das participantes ao mercado de trabalho. 

Segundo Ana Cláudia, o objetivo é atuar simultaneamente na qualificação profissional e na mudança de cultura dentro das empresas. 

“Trabalhamos identificando as profissões com maior demanda nas empresas, promovendo a qualificação e também o encaminhamento para o mercado de trabalho. As empresas participam de todo o processo”, afirmou.  

Segundo ela, a iniciativa também busca estimular mudanças na cultura organizacional do setor. 

“A gente precisa romper paradigmas e uma cultura ainda muito marcada por barreiras e preconceitos. O objetivo é ampliar efetivamente a presença feminina na construção”, destacou. 

Mudança também passa pela liderança 

Outra frente da iniciativa é ampliar a presença feminina nos espaços de decisão do setor. Neste ano, a CBIC inicia o programa Elas no Conselho, voltado a incentivar a participação de mulheres em instâncias de liderança e governança nas empresas e entidades da construção. 

Para Ana Cláudia, promover a presença feminina nos níveis mais altos da hierarquia é um passo essencial para acelerar mudanças culturais no setor. 

“Quando você trabalha para colocar mulheres em níveis mais altos da hierarquia, essa mudança de paradigma e de cultura acontece de forma mais efetiva. Enquanto os níveis da alta gestão não enxergarem a mulher como oportunidade e como estratégia, essas mudanças não acontecem”, afirmou. 

Segundo ela, ampliar a participação feminina na construção civil depende tanto da formação de novas profissionais quanto da disposição das empresas em rever práticas e estruturas históricas. 

“Não estamos falando apenas de inclusão. Estamos falando sobre aproveitar ou não o talento das mulheres no nosso negócio”, concluiu. 


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