O Projeto Sucuriú, da Arauco, avança em Inocência, no Mato Grosso do Sul, e concentra esforços na montagem industrial. A fábrica de celulose da companhia chilena, a primeira no país, tem previsão de entrar em operação no final de 2027.
O investimento no projeto é de US$ 4,6 bilhões e envolve a construção de uma planta com capacidade de produção de 3,5 milhões de toneladas de fibra curta de celulose/ano.
De acordo com Guilherme Mendonça, Diretor do Projeto da Valmet, parceira da Arauco no desenvolvimento das principais áreas da planta na modalidade EPC – engenharia, aquisição, construção, montagem e comissionamento -, o empreendimento como um todo está com cerca de 70% de avanço.
O executivo, em entrevista à revista O Empreiteiro, informou os estágios de obra das principais estruturas. A área de manuseio de madeira (pátio de toras e de madeira e picador) está com 87% de avanço civil e a montagem, 15%. Já as caldeiras de força e recuperação, as obras civis já ultrapassam 90% e a montagem mecânica se aproxima dos 50%. Na linha de fibras (cozimento, depuração, lavagem e branqueamento), a construção civil chega a 95% e a montagem está perto de 30%.
A Valmet atua na planta no fornecimento de tecnologias de processos nas áreas de manuseio de madeiras; cozimento; linha de fibras; máquinas secadoras; enfardamento de celulose; evaporação; caldeira de recuperação; caldeira de biomassa; recaustificação; forno de cal e sistema de gaseificação.
AUTOMAÇÃO
“A planta exige equipamentos de grande porte, sistemas integrados e um elevado nível de automação. Estamos fornecendo todo o processo de produção de celulose, desde o manuseio de madeiras até os fardos prontos”, explica Guilherme Mendonça. “E para integrar todas as áreas e reduzir as interfaces entre as linhas, a Valmet também está fornecendo o sistema de automação e soluções de controle de fluxos para toda a fábrica”, acrescenta.
Especificamente sobre a automação, a empresa detalha que o fornecimento inclui o sistema de controle avançado de processo, analisadores e medições online, bem como simuladores. “Na prática, milhares de variáveis de processos podem ser monitoradas e analisadas continuamente para otimizar a produção e antecipar desvios na produção e também a qualidade”, diz.
CALDEIRAS
O diretor do projeto descreveu o andamento dos trabalhos de algumas das principais estruturas em construção. Na parte das caldeiras, o engenheiro ressalta que se executa no momento as paredes superiores e os balões de vapores, além da montagem de precipitadores eletrostáticos, bombas centrífugas, ventiladores e transportadores.
A caldeira de recuperação atua no ciclo de produção de celulose tanto para recuperar produtos químicos como gerar energia. Já a caldeira de força produz vapor de alta pressão, fornecendo calor em várias etapas do processo industrial.
O engenheiro explica que o principal desafio dessa fase é que por se tratar de uma obra verticalizada, “exige-se bastante atenção com segurança e içamento das peças e equipamentos”.
LINHA DE FIBRAS
O projeto segue avançando com forte ritmo de execução, com múltiplas frentes de trabalho, nas áreas de cozimento e linha de fibras. Esta etapa de processo envolve a mistura da madeira com reagentes químicos, além da depuração, lavagem e branqueamento – antecedendo a secagem e enfardamento.
“Entre os principais marcos em andamento desta parte destacam-se a montagem dos digestores, além das prensas de lavagem, reatores de oxigênio, torres intermediárias e torres de branqueamento”, informa.
“O momento atual é caracterizado pela elevada intensidade construtiva, com diversas disciplinas atuando de forma integrada em campo. O foco da equipe está na coordenação eficiente das interfaces entre montagem mecânica, elétrica, instrumentação e civil, assegurando o avanço sustentável das atividades e o cumprimento dos marcos do projeto”, ressalta.
“CORAÇÃO” DA FÁBRICA
O balão de vapor da caldeira de recuperação – considerado o “coração” da fábrica de celulose – com 312 toneladas, chegou à planta em março, proveniente da China. O balão é um vaso único, com 32 m de comprimento, 3,15 m de largura e 3,81 m de altura.
Em maio, ele foi instalado a quase 100 m de altura, por dois guindastes, com capacidade de 750 toneladas cada, no topo da maior caldeira de recuperação do mundo em uma fábrica de celulose.
A expectativa no projeto agora estava para a chegada em agosto dos filtros de licor branco. Sua origem de fabricação é da Polônia, na fábrica da Metalko, com 120 dias de viagem de lá até o empreendimento. O equipamento consiste num eixo central rotativo com discos filtrantes, além de sistema de lavagem de lama, raspadores e calhas.
O eixo central é conectado a um separador de filtrado e calhas verticais conectam o vaso filtrante a um tubo de coleta, que, por sua vez, vai para um tanque de mistura de lama de cal”, explica o engenheiro.
Guilherme Mendonça citou que um dos principais desafios de engenharia relacionadas ao projeto é a gestão das interfaces. “A integração de toda essa cadeia de fornecimento, gerenciando essas interfaces e diversas demandas é um trabalho realmente extraordinário, e que demanda um estudo muito bem realizado para definir a estratégia e o planejamento para a implantação desse projeto grandioso”, diz.
EMPRESAS ENVOLVIDAS
O projeto Sucuriú está localizado em uma área de 3.500 ha, a 50 km do centro da cidade de Inocência (MS) e ao lado do Rio Sucuriú. O pico da obra está previsto para este segundo semestre, reunindo cerca de 14 mil trabalhadores.
O projeto Sucuriú está localizado em uma área de 3.500 ha, a 50 km do centro da cidade de Inocência (MS) e ao lado do Rio Sucuriú. O pico da obra está previsto para este segundo semestre, reunindo cerca de 14 mil trabalhadores.
Já o Grupo Concreluz é o fornecedor de concreto para a infraestrutura do empreendimento.
A Estação de Tratamento de Água Industrial (ETAC) e a Estação de Tratamento de Água Potável (ETA) do Projeto Sucuriú está sendo construído por um consórcio liderado pela Passarelli e integrado pela Enfil.
A etapa de terraplanagem do empreendimento começou em 2024. O consórcio formado pelas empresas MLC Infra Construção e Construtora Aterpa executou a terraplanagem e toda a infraestrutura da fábrica.
ENERGIA, FERROVIA E PORTO
A nova planta de celulose será autossuficiente em geração de energia renovável. A caldeira de recuperação utilizará licor preto (subproduto do cozimento da madeira) para gerar eletricidade, enquanto a caldeira de força aproveitará resíduos do processo produtivo com a mesma finalidade. Serão mais de 400 MW de capacidade de geração de energia, sendo 200 MW destinados ao consumo interno – o excedente será disponibilizado ao sistema elétrico nacional.

Em fevereiro, começou construção de ferrovia de 45 km, conectando a planta à Malha Norte, operada pela Rumo. A celulose seguirá mais de 1 mil km de trilhos, até chegar ao Porto de Santos (SP), onde será embarcada em navios. Entre as empresas de engenharia envolvidos nessa parte do projeto estão a Afry, Construcap e Epya (infraestrutura ferroviária).
A previsão é de a Arauco assumir em breve a titularidade de Terminal de Uso Privado (TUP) localizado no bairro de Alemoa, no Porto de Santos. Lá, a companhia ainda terá que fazer adaptações no terminal, o que inclui dragagem, construção de berço de atracação, armazém de estocagem e acessos rodoferroviários.
Uma linha de transmissão de 91 km de extensão e com 1.045 km de cabos de alta tensão está sendo construída para conectar a futura fábrica de celulose ao Sistema Interligado Nacional, no município de Selvíria (MS).
Para a realização do projeto, estão sendo usados, em alguns trechos, drones no lançamento dos cabos de alta tensão, substituindo o método convencional, para evitar a abertura de faixas em áreas de vegetação.
A altura das torres da linha de transmissão varia de 13,5 m a 54 m, enquanto a distância dos cabos em relação ao solo fica entre 13 m e 50 m. Em alguns pontos, torres foram alteadas para evitar interferências em Áreas de Preservação Permanente (APPs).
Sobre a Arauco
Fundada no Chile em 1979, a Arauco é uma das maiores empresas de celulose e madeira do mundo. No Brasil desde 2002, a Arauco atua nos segmentos florestal e de madeiras no país. Na produção de painéis, a empresa tem três fábricas localizadas nas cidades de Jaguariaíva (PR), Ponta Grossa (PR) e Montenegro (RS); de painéis e molduras, a planta fica em Piên (PR); e de resinas e químicos, a unidade localiza-se em Araucária (PR).
Além do Chile e Brasil, a empresa mantém planta industrial na Argentina, Uruguai, México, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Portugal e África do Sul. Possuis ainda escritórios comerciais em 11 países e representantes de vendas em 18 países.
Conheça Guilherme Mendonça

Guilherme Mendonça é Gerente de Projetos na Valmet, empresa em que atua há mais de 20 anos. Formado em Engenharia Mecânica, iniciou sua trajetória no setor de celulose e papel na Bahia Sul, atual Suzano, onde trabalhou entre 2000 e 2004. Desde então, desenvolve sua carreira na Valmet, participando da gestão e implementação de projetos em diversas áreas do processo produtivo, incluindo cozimento, linha de fibras, evaporação, caldeiras, recuperação química, secagem e preparação de madeira.




