Enquanto a cidade desperta para mais um dia habitual de trabalho, a vida a 200 quilômetros da costa desenrola-se em um ritmo próprio. Em alto-mar, na estrutura imensa da plataforma da Petrobras, não há trânsito ou o burburinho das ruas, mas há o vento constante, o ronco dos geradores e o vaivém das ondas. Entre válvulas, guindastes e computadores que monitoram cada detalhe da produção, homens e mulheres passam semanas inteiras, alternando um cotidiano tenso, mas com espaço para convívio saudável e camaradagem.
“O trabalho confinado nas plataformas é difícil para todos, homens e mulheres”, diz a geóloga da Petrobras Silmara Campos, hoje aposentada, que atuou por quase uma década em alto-mar e atualmente preside a Associação de Geólogos do Rio Grande do Norte (AGERN). “Numa plataforma mais de cem profissionais se revezam em turnos de 12 horas, mantendo olhos e ouvidos sempre atentos a qualquer sinal de emergência.” É nesse ambiente de aço, mar e vigilância constante que se desenrola o cotidiano de quem contribui para a produção da maior empresa de petróleo do Brasil.
O refeitório abre às 5 horas da manhã. Enquanto a equipe do dia desperta para um café reforçado, os profissionais do turno da noite finalizam suas atividades e passam o bastão – o turno da noite se encerra às 6 horas. Logo após o café, as turmas de cada setor se reúnem para a passagem de serviço, momento que dura, em média, 20 minutos e no qual são apresentados os relatos do turno anterior. “Esse briefing é de suma importância, pois nele são registrados os principais acontecimentos ocorridos no período de trabalho da equipe que está sendo rendida”, afirma Cristiano Mendes Fernandez, técnico de segurança do trabalho com 20 anos de Petrobras.
Conforme o resultado das análises de risco, são liberadas as áreas de atuação. “Esse é último filtro para o início dos trabalhos do turno. Os protocolos de segurança variam, mas resumidamente contemplam as análises de risco níveis 1 e 2 – este quando o trabalho é considerado de alto risco potencial, que exige atenção especial”, salienta Fernandez. “Deve-se ressaltar que, na rotina offshore, a produção nunca para, funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano, incluindo feriados. Então uma manobra que está sendo feita à noite tem que prosseguir de manhã com toda a segurança e assim por diante”, completa.
Na Petrobras, os empregados seguem uma escala de 14 dias embarcados por 20 dias de folga, organizada em cinco grupos para garantir a cobertura contínua. Já entre as equipes terceirizadas, a operação é sustentada por dois times que se revezam. Essa continuidade não vale apenas para a produção: a manutenção também é permanente, ocorrendo todos os dias do ano. A dinâmica é consagrada e adotada em todas as plataformas, assegurando que cada unidade mantenha o nível de operação e segurança exigidos pela indústria de petróleo.

As acomodações das cabines podem variar bastante entre plataformas, mas, em geral, incluem camarotes comunitários e refeitório, além de espaços comuns como sala de TV, sala de jogos e academia de ginástica. As formas de descanso e lazer abrangem filmes, livros e atividades físicas. “A maioria das pessoas se acostuma com a rotina de ficar longe da família por duas semanas. O espírito se prepara para deixar o convívio familiar e embarcar com a outra ‘quase família’. Laços são formados no ambiente da plataforma, o que ajuda a amenizar o sentimento de solidão”, explica Campos.
Nesse aspecto, Fernandez faz questão de destacar a importância da equipe de hotelaria. “Seu papel é indispensável, pois garante camarotes limpos e higienizados, fornece alimentação de qualidade e mantém a infraestrutura de convivência em boas condições. Sem esse suporte, a rotina a bordo seria inviável. Infelizmente, esses profissionais nem sempre são lembrados”, completa.
Questão da segurança é prioritária
Trabalhar em uma plataforma exige atenção constante, pois se trata de uma unidade que produz e armazena líquidos inflamáveis, explosivos, asfixiantes, corrosivos e outros contaminantes. “Qualquer atividade com chama aberta, como soldagem ou uso de lixadeira em áreas classificadas, onde pode haver presença de gases ou líquidos inflamáveis, é considerada de alto potencial de risco. Nesses casos, são adotadas medidas rigorosas de controle e análises de risco prévias”, diz Fernandez.
A equipe de segurança, junto com o operador, realiza medições de gases para garantir que a atmosfera esteja livre de concentrações perigosas, verifica se o equipamento está livre de energia residual ou pressão e se não há vazamentos. Antes de ser entregue ao executante, o equipamento é bloqueado, drenado e, em algumas situações, até preenchido com água para reduzir o risco de ignição. “Essas precauções são indispensáveis para prevenir acidentes graves, como incêndios ou explosões”, assinala o técnico de segurança.
O pessoal da inspeção e a equipe de segurança estão sempre de sobreaviso, analisando o contexto e a situação dos funcionários. “Conversamos com as equipes, abordamos os profissionais, buscamos saber se todos estão bem de saúde, se há algum problema. Não avaliamos apenas a questão dos equipamentos, mas a parte humana é fundamental”, diz Fernandez. “A pessoa não é responsável apenas pela própria segurança, mas também da do colega. Tudo funciona integrado.”
“Todos os sentidos estão sempre alertas para qualquer situação de emergência”, acrescenta Silmara Campos, destacando como ocorria em sua área. “Em um turno de trabalho do geólogo, o que fazemos é acompanhar a perfuração do poço, estudando as amostras de rochas que são trazidas à superfície no processo de perfuração. Esse trabalho é fundamental para caracterizar a sequência estratigráfica que a broca, no fundo do poço, está atravessando e para identificar se há indícios de petróleo e gás durante a perfuração. Esse processo pode levar meses, dependendo da profundidade a ser alcançada pelo poço e precisa ser feito com total segurança.” Outra atividade do geólogo é a perfilagem do poço. Consiste em descer nele ferramentas que fazem inúmeras medições, identificando as camadas geológicas e indicando, com precisão, se há presença de petróleo e gás em cada intervalo.
Apesar das variadas especializações, o operador da Petrobras passa por um treinamento abrangente, que engloba todas as áreas de produção. “Isso é fundamental para evitar que ele se especialize apenas em uma função específica – por exemplo, atuar exclusivamente no sistema de fornecimento de água quente – e acabe restrito a esse segmento. Durante a capacitação, o profissional é preparado para compreender e operar cada etapa do processo produtivo, garantindo que, diante de qualquer intercorrência, ele saiba exatamente como agir dentro dos procedimentos corretos”, diz Fernandez.
Essa formação multifuncional também permite que, se houver necessidade de transferência para áreas mais complexas ou de maior risco – como a de compressão de gás, que envolve altíssimas pressões –, o operador já esteja qualificado para atuar com segurança e eficiência. “Trata-se, portanto, de um treinamento que amplia competências, fortalece a integração entre setores e assegura a continuidade das operações em qualquer circunstância”, salienta o técnico de segurança.
Também há a equipe responsável pela operação da embarcação – afinal, uma plataforma de petróleo é, antes de tudo, uma embarcação (excetuando-se as unidades fixas). A bordo, atuam profissionais de diferentes funções, como o coordenador, os operadores e o pessoal da sala de controle, além dos oficiais de náutica e marinheiros de convés. Há ainda o mestre de cabotagem, encarregado da área de salvatagem, que inclui baleeiras, balsas de resgate e treinamentos de segurança.
Os operadores de embarcação executam as manobras no convés, enquanto os oficiais de náutica, além dessas manobras, participam diretamente das operações de offload – o processo de exportação do óleo produzido e armazenado para os navios aliviadores. É nessa etapa que o petróleo efetivamente deixa a plataforma e segue para comercialização, representando a conexão final entre a produção offshore e a venda do produto. “Todas essas funções exigem treinamento rigoroso e integrado, garantindo que cada operação seja realizada com precisão e segurança, preservando tanto as pessoas quanto o patrimônio e o meio ambiente”, diz Fernandez.
Há também a equipe de manutenção, que atua em regime de turno. Ela é subdividida em áreas como elétrica, instrumentação, mecânica e automação. Além de operar a planta, esses profissionais são responsáveis por mantê-la em pleno funcionamento. “Imagine uma plataforma com cerca de 350 metros de comprimento e uma infinidade de equipamentos, válvulas e instrumentos. A manutenção é constante, englobando rotinas preventivas e corretivas”, observa o técnico. Somam-se a eles os executantes, as equipes de empresas contratadas que realizam serviços específicos de manutenção. Entre elas, está o setor responsável por caldeiraria, montagem de andaimes e reparos navais.
Experiências memoráveis e curiosas
Por trás da disciplina e da rotina intensa, as plataformas também guardam experiências marcantes, histórias curiosas e até episódios engraçados que ficam na memória de quem embarca. Sobre ser mulher em um ambiente ainda hoje muito masculino, Silmara Campos diz que a forma de comportamento dos homens quando havia mulher por perto era, sim, diferente, mas não desrespeitosa. “Trabalhei embarcada entre 1986 e 1994. Naquela época, a presença feminina nas sondas e plataformas era pequena e sempre que alguma mulher estava a bordo, a rotina do ambiente era, digamos, ‘perturbada’ por essa presença. Isso significava que os homens se vestiam de forma mais adequada e maneiravam nos palavrões. De lá para cá, ocorreram muitas melhorias, tanto do ponto de vista de gestão das condições de trabalho quanto relativo ao comportamento masculino em ambiente restrito”, revela a geóloga. “Cada vez mais mulheres ingressam no universo offshore. É um ambiente ainda machista, mas está mudando, com elas conquistando mais espaço”, pondera Fernandez.
Na jornada embarcada, a geóloga ressalta que conflitos pontuais ocorreram, mas em função de decisões que tinha de tomar do ponto de vista técnico. “Nada que tivesse sido determinante para que eu não quisesse mais trabalhar ali. Minha postura também foi muito firme nas responsabilidades que assumia”. Ela lembra de uma operação denominada teste de formação, em que é colocado o poço por algumas horas em estado de produção, o fluido era gás, com vazão e pressão relativamente altas. “Em casos como esse temos que direcionar o fluxo do gás para o queimador da plataforma, o qual ficava numa posição que, na minha visão, causava risco para o helicóptero descer e realizar a troca de turma. Como naquele momento era a responsável, solicitei que adiasse a descida até que terminássemos a operação. É claro que essa é uma decisão com consequências e a turma que estava esperando não ficou muito feliz comigo. Mas, sob minha avaliação de risco, era melhor adiar por algumas horas a descida da aeronave”, conta.
A geóloga se recorda também que nem todas as experiências vividas offshore foram tranquilas. “Presenciei alguns acidentes. Em um deles, o plataformista caiu no mar. O colega que estava trabalhando com ele se jogou atrás para tentar salvá-lo. Foi acionado o sistema de resgate, com o uso de um barco salva-vidas, e houve outro acidente, dessa vez com a pessoa que conduziria o barco, ou seja, uma sucessão de problemas. Ao fim dessa jornada, os trabalhadores foram resgatados com vida e o condutor do barco medicado. Mas é uma situação difícil e comovente”, frisa Campos.
“Passamos mais da metade da vida embarcado, então os laços vão se fortalecendo e os colegas acabam se tornando nossa segunda família. Como em qualquer lugar há problemas, divergências, diferenças de personalidade, mas que são superadas, porque tem que haver sucesso do trabalho e não ter acidentes. Os laços de amizade são muito fortalecidos nessas circunstâncias, sobretudo porque o trabalho em uma plataforma é muito complexo e o profissional tem que estar sempre preparado”, pontifica Fernandez.
“O trabalho embarcado é emocionante, porque você está vivenciando o momento de encontrar o petróleo. Em uma época que não havia transmissão de dados em tempo real, é o geólogo embarcado que vai se deparar primeiro com a possibilidade de ter encontrado petróleo. A tomada de decisões recaía muito sobre responsabilidade da equipe da plataforma. Isso é muito bom de vivenciar”, destaca Campos. “O que não era bom, e acredito que ainda não seja, é a questão do confinamento. Ficar durante 15 dias preso ao ambiente de trabalho pode ser angustiante para algumas pessoas”, ressalva.
“A saudade da família é um dos maiores desafios da vida embarcada, especialmente para quem tem filhos pequenos”, faz coro Fernandez. Mas, segundo ele, hoje a tecnologia ajuda a amenizar essa distância – há internet a bordo, cabines telefônicas e a possibilidade de fazer videochamadas e trocar mensagens pelo WhatsApp, algo impensável há 30 ou 40 anos. “Ainda assim, o impacto emocional permanece. Muitos relatam que, poucos dias antes do embarque, as crianças já começam a sentir e até apresentar sintomas como febre de origem emocional. Para o trabalhador offshore, lidar com isso exige foco e resiliência, pois, apesar da distância e do peso emocional, é preciso manter a mente concentrada para desempenhar as atividades com segurança. Afinal, ninguém está embarcado apenas porque quer, mas pela profissão e responsabilidade”, sublinha.
Mesmo com todos os protocolos seguidos à risca, o trabalho offshore está sujeito a imprevistos, especialmente por depender de aeronaves e das condições meteorológicas. Quando há chuva forte, ventos intensos ou qualquer situação adversa, os voos são suspensos. Isso significa que, muitas vezes, o petroleiro perde eventos importantes, como festas, casamentos, formaturas ou até o nascimento de um filho. “Foi o que aconteceu comigo: não pude desembarcar no dia em que minha filha nasceu e acompanhei tudo pelo computador, ansioso e eufórico. São histórias marcantes que fazem parte da vida no mar”, diz o técnico de segurança.
Entre os incidentes vividos a bordo, Fernandez se recorda de um que ocorreu após um churrasco, quando brasas ainda acesas foram descartadas no lixo junto com papel, provocando um perigoso princípio de incêndio com labaredas de média altura. “Felizmente, o episódio aconteceu no horário do jantar, quando havia muitos colaboradores no refeitório, permitindo a rápida identificação e o controle das chamas pela equipe. O caso reforça como pequenos descuidos podem representar riscos graves em uma plataforma.”
Entre as histórias curiosas da vida a bordo, há uma brincadeira recorrente que costuma pegar os novatos de surpresa, como lembra Enaldo Barcellos Rego, coordenador de manutenção elétrica aposentado da Petrobras, onde trabalhou por 21 anos, e atualmente diretor do Sindipetro. “Os mais experientes espalham que, na lotação da plataforma, as refeições mais sofisticadas, como filé mignon, picanha, lagosta ou camarão, seriam descontadas no contracheque do mês seguinte, enquanto pratos mais simples, como fígado, não pesariam no bolso. A pegadinha, combinada com toda a equipe, faz com que muitos recém-embarcados passem dias evitando as iguarias e até adotem uma dieta improvisada de sopa com pão e manteiga”, diverte-se o coordenador de manutenção.
Pioneirismo da Petrobras em águas profundas
A Petrobras começou na exploração em águas profundas no início da década de 1980. “Foi um processo natural e gradativo no aperfeiçoamento dos modelos geológicos. Os grandes marcos foram as descobertas dos campos gigantes de Marlim e Albacora, entre 1984 e 1985, na Bacia de Campos, na costa do Rio de Janeiro”, revela Marco Antônio Pinheiro Machado, geólogo aposentado da Petrobras que participou da equipe de geocientistas que esteve à frente das descobertas do pré-sal da Bacia de Santos.
A descoberta do campo de Albacora confirmou a existência da Província Petrolífera do depocentro da Bacia de Campos, e a revelação do Campo de Roncador, em 1996, garantiu ao Brasil a autossuficiência em petróleo poucos anos depois. “Os sucessos e as lições aprendidas em águas rasas induziram ao avanço tecnológico para as águas profundas”, afirma Machado, ressaltando que essa trajetória preparou o terreno para desafios ainda maiores.
O pré-sal entra nessa história com a descoberta do campo de Parati, em 2005, e de Tupi, em 2006, recorda o geólogo. “Posteriormente, a confirmação de Tupi como campo supergigante sacudiu a indústria do petróleo, guindando o País para um novo patamar na exploração.” As primeiras descobertas impulsionaram um intenso processo de avanço de know-how, “com essa tecnologia ‘feita em casa’, representada principalmente no processamento dos dados sísmicos e no aperfeiçoamento dos modelos geológicos”, completa.
Machado, autor do livro Pré-sal: a saga. A história de uma das maiores descobertas de petróleo, ressalta que a Petrobras sempre atuou com as técnicas mais modernas, no estado da arte do setor. “Na exploração, o diferencial esteve no processamento especial da sísmica de reflexão, que facilitou a visualização em subsuperfície das áreas mais promissoras, e em metodologias pioneiras desenvolvidas pela própria empresa para avaliar o potencial dos poços.” Some-se a isso as avançadas técnicas de perfuração capazes de atravessar 2 quilômetros de sal sem comprometer a estabilidade. “Como operadora, a Petrobras esteve na vanguarda em águas profundas e ultraprofundas, levando consigo seus parceiros internacionais ao pré-sal. Nos sistemas de produção e escoamento, os desafios e conquistas foram tão expressivos que renderam quatro prêmios de destaque – considerados o ‘Oscar’ do setor – na principal conferência internacional de petróleo, em Houston, nos EUA”, comenta.
“Fui contratado com a missão de atuar na manutenção elétrica de uma das primeiras unidades flutuantes da Petrobras, que começaram a operar por volta de 1983”, conta Enaldo Barcellos Rego, coordenador de manutenção elétrica aposentado da Petrobras. “Até então, essas unidades, tanto de perfuração quanto de produção, eram contratadas e operadas por mão de obra internacional, com custos diários em dólares. O avanço da capacitação interna da Petrobras foi fundamental para reduzir custos e desenvolver tecnologias próprias voltadas à prospecção, exploração e produção de petróleo no Brasil”, enfatiza.
No início, lembra Rego, o País importava mão de obra e tecnologia. Porém, nos anos 1990, a Petrobras foi desafiada a expandir sua atuação nas águas profundas, diante dos indícios promissores nessa direção. Materiais, equipamentos, tecnologias e, principalmente, o desenvolvimento da mão de obra própria foram frutos do empenho de inúmeros profissionais, movidos pelo desafio de posicionar a Petrobras entre as dez maiores empresas do setor no mundo. “Os desafios foram imensos, mas a expertise que o monopólio propiciou à Petrobras na avaliação de todas as bacias sedimentares brasileiras, bem como a atuação de um centro de pesquisa de classe mundial (CENPES) produziu inúmeros cases de sucesso”, acrescenta Machado.




