Estudo da SOS Mata Atlântica sobre a poluição dos rios no Brasil apontou que corpos d’água analisados em diferentes estados apresentavam níveis preocupantes de contaminação. Esgoto doméstico, lixo e falta de saneamento estavam entre os principais problemas identificados.
Marisa Marega (SP)
A Fundação SOS Mata Atlântica coleta e analisa amostras de água desde 2009. Para o estudo, foram consideradas amostras recolhidas entre janeiro e dezembro de 2010, cujos resultados foram divulgados em fevereiro do ano seguinte.
O levantamento revelou um cenário preocupante para a qualidade da água dos rios brasileiros. Entre as amostras analisadas, 4% apresentaram qualidade péssima, 28% foram classificadas como ruins e 68% como regulares.
Segundo o geógrafo Vinicius Damazio, da entidade, a classificação regular significava que a água apresentava condições sofríveis e estava distante de uma qualidade considerada boa.
Estudo avalia a qualidade da água de rios e lagos
As amostras foram coletadas em rios de dezenas de municípios visitados pelo projeto “A Mata Atlântica é Aqui”, iniciativa voltada à conscientização sobre a poluição.
Com um kit de monitoramento, a qualidade da água foi classificada em cinco categorias: péssima, ruim, regular, boa e ótima. Nenhum dos rios e lagos analisados alcançou as duas melhores classificações.
O sistema utilizado tomou como referência o Índice de Qualidade da Água (IQA), considerando diferentes variáveis para avaliar as condições dos corpos d’água.
Esgoto doméstico está entre as principais fontes de poluição
Malu Ribeiro, coordenadora da Rede de Águas da Mata Atlântica, explicou que as coletas foram realizadas principalmente em corpos d’água localizados em regiões urbanas, inclusive dentro de parques.
A principal fonte de poluição identificada foi o esgoto doméstico sem tratamento ou submetido a baixos níveis de tratamento.
Entre as consequências estavam a ocorrência de doenças de veiculação hídrica, os impactos sobre os ecossistemas e o empobrecimento das regiões afetadas pela poluição dos rios.
Duas décadas antes, segundo a matéria, parte significativa da contaminação dos rios estava associada às indústrias, com a presença de metais pesados, produtos químicos e substâncias cancerígenas. Com o maior controle dessas fontes, o esgoto doméstico e o lixo passaram a ocupar papel relevante no problema.
Os pesquisadores encontraram situações de qualidade ruim ou péssima em rios como Tietê, Paraíba do Sul, Meia Ponte, Maranguapinho, Paraibuna e Santa Maria. Entre os piores índices identificados estavam o rio Verruga, em Vitória da Conquista (BA), e o lago da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro (RJ).
Em municípios menores, também foram encontrados problemas relacionados a vestígios de adubação química utilizada nas lavouras.
Despoluição dos rios exige investimentos em saneamento
O cenário identificado pelos pesquisadores já vinha motivando investimentos em diferentes estados.
Em São Paulo, por exemplo, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) havia investido US$ 2,1 bilhões desde 1992 no projeto de despoluição da Bacia do Tietê, segundo informações apresentadas na matéria.
Os recursos foram direcionados principalmente para a ampliação da rede de coleta e para a construção de estações de tratamento de esgoto.
Apesar dos investimentos, especialistas apontavam dificuldades nos municípios não atendidos pela companhia, onde as próprias prefeituras eram responsáveis pelos serviços de saneamento.
Mananciais contaminados aumentam riscos à saúde
Outro problema identificado foi a contaminação de nascentes e mananciais.
Segundo Malu Ribeiro, mesmo cidades pequenas e lagos localizados dentro de parques apresentavam sinais de contaminação. Em determinados locais, pessoas nadavam ou utilizavam água de qualidade inadequada, aumentando os riscos à saúde.
Também foi identificada a chamada poluição difusa, provocada, entre outros fatores, pelo lixo presente nas ruas e carregado pela chuva para rios e outros corpos d’água.
O problema se somava à deterioração dos mananciais de grandes regiões metropolitanas.
Na Grande São Paulo e em outras áreas urbanizadas, desmatamento, poluição e ocupação urbana descontrolada já comprometiam fontes de abastecimento. Como consequência, algumas cidades passaram a depender da captação de água em regiões cada vez mais distantes.
Brasil tem grande disponibilidade de água, mas enfrenta desperdício
O professor Aldo da Cunha Rebouças, especialista em hidrologia e planejamento de recursos hídricos, destacava uma contradição brasileira.
Embora o País tenha uma das maiores disponibilidades de água doce do planeta, diversas cidades enfrentavam dificuldades de abastecimento.
De acordo com os dados apresentados na matéria, 65% dos estados estavam bem abastecidos, 25% enfrentavam problemas localizados e 10% viviam situação crítica, relacionada à ausência de chuvas e de políticas públicas.
Ao mesmo tempo, desperdício de água, poluição e problemas de planejamento contribuíam para reduzir a disponibilidade de água adequada ao consumo.
Estimativas citadas indicavam perdas entre 40% e 50% da água em alguns sistemas.
Uso racional da água também entra no debate
Além dos investimentos em infraestrutura, especialistas defendiam políticas de conscientização e estímulo ao consumo racional.
Entre as medidas discutidas estavam incentivos à adoção de equipamentos mais econômicos, redução do desperdício, individualização da medição de consumo e mecanismos de cobrança capazes de desestimular usos excessivos.
Experiências internacionais também eram apontadas como exemplos de políticas capazes de estimular o reúso e a economia de água.
Falta de saneamento provoca impactos na saúde
Os problemas relacionados à água estavam diretamente associados a outro grande desafio de infraestrutura do Brasil: o saneamento básico.
Segundo dados apresentados na matéria, cerca de 5,4 bilhões de litros de esgoto sem tratamento eram lançados diariamente na natureza, contaminando solo, rios, praias e mananciais.
Levantamento do Instituto Trata Brasil em parceria com a Fundação Getulio Vargas indicava que os serviços de coleta de esgoto haviam alcançado 50,9% da população brasileira.
Nas 79 cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes analisadas pelo estudo, cerca de 70 milhões de pessoas geravam aproximadamente 8,4 bilhões de litros de esgoto diariamente. Em média, apenas 36% desse volume recebia algum tipo de tratamento.
Leia também: BRT na avenida Brasil terá quatro viadutos
Saneamento precário amplia ocorrência de doenças
O estudo “Esgotamento Sanitário Inadequado e Impactos na Saúde da População” também apontou uma relação entre saneamento básico precário, pobreza e internações por diarreia.
A pesquisa analisou 81 dos municípios mais populosos do País entre 2003 e 2008, cruzando informações sobre coleta de esgoto, internações e custos hospitalares assumidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
As crianças de até cinco anos estavam entre os grupos mais vulneráveis.
As regiões Norte e Nordeste apareciam entre aquelas com taxas mais elevadas de internações por diarreia, enquanto áreas mais pobres e periferias dos grandes centros urbanos concentravam algumas das situações mais críticas.
Saneamento brasileiro ainda avançava lentamente
Outro levantamento citado na matéria mostrava a dimensão do desafio.
Pesquisa divulgada em 2010 pela Organização Mundial da Saúde indicava que cerca de 18 milhões de brasileiros não possuíam sequer banheiro em casa.
Embora o déficit de saneamento tivesse diminuído em relação às décadas anteriores, a expansão dos serviços ainda ocorria lentamente diante das necessidades da população.
A implantação da infraestrutura também apresentava grandes diferenças entre municípios e regiões.
Investimento público pode transformar o cenário
A experiência de Salvador foi apresentada como exemplo do impacto que políticas públicas e investimentos em saneamento poderiam produzir.
Com a implantação do programa Bahia Azul, voltado a obras e ações de coleta e tratamento de esgoto nos municípios da Grande Salvador, a taxa de acesso aos serviços aumentou significativamente ao longo de nove anos.
O exemplo reforçava uma das principais conclusões levantadas pelos especialistas: disponibilidade de recursos, isoladamente, não seria suficiente. Seria necessário transformar saneamento, preservação dos mananciais e qualidade da água em prioridades permanentes de planejamento e investimento.
A situação encontrada nos rios brasileiros mostrava, portanto, que preservar a água exigia uma combinação de infraestrutura de saneamento, tratamento de esgoto, gestão dos recursos hídricos, fiscalização e participação da sociedade.
Fonte: Estadão





