Com o início das obras do segundo trem (unidade) de refino, em dezembro, a Petrobras retomou a ampliação da capacidade da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), localizada no Complexo Industrial Portuário de Suape, em Ipojuca (PE). Quando essa fase estiver concluída, em 2029, a refinaria estará produzindo 260 mil barris por dia, dobrando a capacidade atual. Até lá, serão R$ 12 bilhões investidos em obras e serviços complementares.
A ampliação elevará significativamente a produção de derivados de petróleo, especialmente diesel S-10, que terá incremento de 176 mil barris por dia. Hoje a produção desse tipo de diesel gira em torno de 3,1 bilhões de litros por ano, o que corresponde a cerca de 12% da produção nacional. Entre as refinarias brasileiras, a RNEST apresenta a maior taxa de conversão de petróleo em diesel. Ao final da expansão, cerca de 70% da capacidade da refinaria será dedicada à produção de diesel S-10, combustível de baixo teor de enxofre e menor impacto ambiental. A expectativa da Petrobras é que a RNEST passe a responder por até 17% da demanda nacional de diesel.
Os 30% restantes da produção serão destinados à fabricação de gasolina, gás liquefeito de petróleo (GLP) e nafta, contribuindo para reduzir a necessidade de importações desses produtos.
Segundo a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, a companhia tem como objetivos expandir, adequar e diversificar o parque industrial, com monetização do petróleo nacional, na busca de aumentar a oferta de produtos de alta qualidade e baixo carbono. “Os volumes reforçam a relevância da RNEST na ampliação da produção de derivados de maior valor agregado no parque de refino da Petrobras, promovendo ganhos em produtividade e contribuindo para o fornecimento de combustíveis com baixo teor de enxofre. Teremos investimentos rentáveis, que nos permitirão integração e diversificação dos negócios, com geração de valor na transição energética justa”, afirma, em nota, Chambriard.
Considerada a refinaria mais moderna da Petrobras, a RNEST opera desde 2014 e foi projetada com elevado nível de automação e tecnologias de padrão internacional. Em 2025, a Petrobras concluiu o processo de modernização do primeiro trem de refino (Revamp), além de colocar em operação a unidade SNOX, sistema pioneiro no refino nacional para abatimento de emissões de óxidos de enxofre (SOx) e de nitrogênio (NOx), com produção de ácido sulfúrico como subproduto comercializável.
A ampliação inclui ainda a instalação de uma usina solar fotovoltaica de 12 megawatts (MW), capaz de suprir cerca de 10% da demanda elétrica da refinaria, reforçando a estratégia de eficiência energética e redução de emissões.
Em termos de produção, um trem de refino opera de forma integrada, em múltiplas etapas, para transformar o petróleo bruto em produtos de maior valor agregado. A primeira etapa é a separação, na qual o petróleo é fracionado em diferentes correntes, como nafta, querosene e diesel, conforme suas faixas de ebulição. Em seguida ocorre a conversão, fase em que as frações mais pesadas são transformadas em moléculas menores e mais valiosas, a exemplo da gasolina de alta octanagem. Por fim, realiza-se o tratamento, etapa destinada a remover impurezas dos derivados e ajustá-los aos padrões de qualidade exigidos pelas normas.

De acordo com o projeto de ampliação da RNEST, a entrega das unidades de processamento do petróleo e de seus derivados será feita de forma escalonada. A segunda planta de destilação atmosférica deve ser concluída até o fim deste ano, com início de operação em 2027, acrescentando 50 mil barris por dia à capacidade instalada. A conclusão integral do segundo trem, incluindo a unidade de hidrotratamento de diesel, está programada para julho de 2029.
DESAFIOS CONSTRUTIVOS E LOGÍSTICOS
A construção do trem 2 deve gerar cerca de 30 mil postos de trabalho diretos e indiretos ao longo do empreendimento, sendo que cerca de 4,5 mil trabalhadores já estão em atividade na obra, segundo a Petrobras, que informa também ter finalizado todas as assinaturas de contratos para a retomada da construção das unidades de processamento da refinaria. Ao todo, são nove contratos com empresas como a Consag Engenharia, Tenenge, CPL, Possebon, Tecnosonda e Schneider Electric, que somam mais de R$ 8,3 bilhões em investimentos.
O projeto representa um dos mais relevantes empreendimentos industriais em execução no País, tanto pelo porte quanto pela complexidade de engenharia envolvida. A construção do trem 2 não se limita à montagem de novos equipamentos de processo, mas envolve a implantação de um conjunto integrado de unidades industriais, sistemas auxiliares, infraestrutura pesada e soluções de eficiência energética, dentro de um ambiente já operacional.
Do ponto de vista da engenharia, as obras contemplam a implantação da Unidade de Coqueamento Retardado (UCR), da Unidade de Hidrotratamento de Diesel S10 (UHDT-D) e da Unidade de Destilação Atmosférica (UDA). A UCR terá potencial para processar até 75 mil barris/dia de carga, enquanto a UHDT-D poderá operar com até 82 mil barris/dia. Já a UDA contará com capacidade de 130 mil barris/dia. Os contratos de construção dessas plantas foram assinados com a Consag Engenharia e representam investimentos de R$ 4,9 bilhões.

Segundo especialistas, em empreendimentos do porte de uma refinaria localizados em áreas costeiras como o Complexo de Suape, é comum a adoção de fundações profundas e blocos de concreto armado dimensionados para suportar cargas dinâmicas significativas (compressores, bombas, turbinas), além de sistemas robustos de drenagem e contenção ambiental.
A área de instrumentação também ganha complexidade com o novo trem, que inclui a instalação de diversos instrumentos de campo (transmissores de pressão, temperatura, vazão e analisadores on-line), exigindo comissionamento faseado e integração aos sistemas centrais sem comprometer a operação do trem 1. O comissionamento é conduzido em etapas, com testes de pré-operação, flushing de linhas, testes hidrostáticos, inertização e partidas assistidas, respeitando protocolos rigorosos de segurança operacional.
Um dos principais desafios construtivos está relacionado à logística. O fato de estar em uma área portuária facilita o recebimento de equipamentos de grande porte por via marítima, mas exige planejamento detalhado de içamento e transporte interno. Já a montagem eletromecânica envolve guindastes de alta capacidade, sistemas de içamento sincronizado e planejamento 4D para mitigar interferências com as unidades já em operação no trem 1. Como se trata de uma ampliação brownfield, a compatibilização entre estruturas existentes e novas frentes de obra requer modelagem tridimensional detalhada e verificação contínua de interferências.
Inserida no Plano de Negócios da Petrobras 2025-2029 e vinculada ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a ampliação da RNEST integra a estratégia da estatal de ampliar em 320 mil barris por dia a capacidade de refino no País nos próximos cinco anos. Desse total, a refinaria pernambucana deverá contribuir com parcela relevante, consolidando-se como um hub logístico e industrial para as regiões Norte e Nordeste. A unidade também desempenha papel central no Complexo Portuário de Suape, onde a Petrobras responde por mais de 80% da movimentação, o que tende a se intensificar com o aumento da produção. Nacionalmente, a companhia está investindo US$ 19,6 bilhões (cerca de R$ 101,3 bilhões) até 2029 no segmento de refino, transporte e comercialização, petroquímica e fertilizantes.








