É ainda um desafio para a mineração aplicar a transição energética na planta e na mina. Para Flávia Daher, diretora Comercial e Trading da Elera Renováveis, o elevado volume de investimentos necessários para a substituição de equipamentos, adequação da infraestrutura elétrica e modernização das operações acaba assustando às empresas.
“Por isso, a transição deve ser planejada de forma gradual e estruturada. Um primeiro passo importante é identificar as etapas do processo com maior potencial de redução de emissões e melhor retorno econômico, priorizando projetos que apresentem ganhos mais rápidos”, afirma a executiva da Elera, que tem entre seus empreendimentos o Complexo Solar Janaúba, em Minas Gerais, com 1,6 GW de potência e reconhecido como o maior parque solar das Américas.
Flávia crê ser fundamental buscar linhas de financiamento voltadas para transição energética e descarbonização, que têm se tornado cada vez mais acessíveis no mercado. “Outro ponto essencial é contar com parceiros estratégicos capazes de fornecer energia renovável de forma confiável”, diz.
Para ela, a combinação entre planejamento de longo prazo, acesso a financiamento adequado e fornecimento de energia limpa é o que permitirá à mineração acelerar sua jornada de eletrificação de forma sustentável e economicamente viável.
A Elera enxerga, por outro lado, enorme potencial de descarbonização na mineração, e a eletrificação como um dos caminhos mais eficazes para atingir esse objetivo. Flávia observa algumas mineradoras avançando na agenda, muitas iniciando pela substituição da frota, por ser uma prática mais viável do ponto de vista técnico e econômico. “À medida que a tecnologia evolui e os custos diminuem, espera-se uma expansão gradual da eletrificação para outras etapas da operação”, afirma.
Ela vê a transição energética da mineração dependente da disponibilidade de energia limpa. “Ao substituir o consumo de combustíveis fósseis por energia proveniente de fontes renováveis, como hídrica, solar e eólica, as mineradoras reduzem significativamente suas emissões de carbono”, avalia.
Autoprodução e PPA
Algumas mineradoras têm apostado em projetos de autoprodução de energia tanto por questões de custo como já de olho na transição energética. “A escolha entre autoprodução e PPA (power purchase agreements; contrato de compra de energia) depende do perfil de consumo, da estratégia financeira e dos objetivos de longo prazo de cada mineradora”, explica.
Para operações de grande porte e com elevado consumo de energia, a diretora da Elera Renováveis diz que a autoprodução costuma ser uma alternativa bastante atrativa. “Além de garantir previsibilidade de custos energéticos no longo prazo, a mineradora passa a ter participação na geração da própria energia e pode se beneficiar da redução de determinados encargos setoriais sobre a parcela autoproduzida, aumentando sua competitividade”, explica.
Já os PPAs, segundo a executiva, são uma excelente solução para empresas que desejam acessar energia renovável sem a necessidade de investir diretamente em ativos de geração. “Essa modalidade oferece flexibilidade, menor comprometimento de capital e contratos estruturados para proporcionar segurança de suprimento e previsibilidade de preços”, ressalta.
A diretora acrescenta que, em alguns casos, uma estratégia híbrida pode ser o modelo mais eficiente, combinando benefícios econômicos, flexibilidade operacional e gestão de riscos.
No que tange ao armazenamento de energia em baterias, uma tendência nas mineradoras, Flávia Daher explica que a tecnologia já deixou de ser uma tecnologia experimental na mineração no exterior e passaram a ser um componente estratégico da infraestrutura energética das minas.
“As aplicações com bateria já utilizadas por grandes mineradoras da Austrália e do Chile, por exemplo, mostram que o armazenamento permite aumentar a participação de fontes renováveis, reduzir o consumo de diesel, melhorar a estabilidade da operação e acelerar a descarbonização do setor”, afirma. “À medida que os custos das baterias continuam a cair, a tendência é que sua adoção se torne cada vez mais comum em projetos de mineração de grande porte”, acrescenta.






