Acidente de Mariana deixa a engenharia brasileira na berlinda

De cima para baixo, as barragens de Paulo Afonso (BA), São Simão (MG-GO), Campos Novos
(SC) e, por fim, a do Fundão (MG), que se rompeu causando enorme estrago. A engenharia
tem experiência no segmento e poderia evitar tragédias como a de Minas Gerais
 

 

 

 

Os chamados barrageiros devem estar incrédulos: a mesma engenharia que ergueu as hidrelétricas de Paulo Afonso, Furnas, Ilha Solteira e Itaipu assistiu impotente ao rompimento da barragem de rejeitos de Fundão em Mariana (MG), provocando um desastre ambiental de proporções poucas vezes vistas. Criou-se uma “tempestade perfeita” quando se juntou a ausência de fiscalização e monitoramento efetivos pelos órgãos públicos, presumidos erros graves na operação da barragem e planos de contingência ineficazes contra um acidente dessa natureza e dimensão.

 

As empresas de engenharia acompanharam a tudo isso de braços cruzados — por que não foram mobilizadas em tempo hábil? Os mais experientes projetistas de barragens, o instrumental mais atualizado de monitoramento (que pode ser feito em tempo real), as técnicas tradicionalmente empregadas para reforçar as fundações e a estrutura de barragens — tudo isso aparentemente ficou ocioso, assistindo de longe ao desenrolar desse trágico acidente que poderia ter sido evitado. O estado da arte da engenharia poderia ter sido aplicado desde a fase de projeto, passando pela construção da estrutura da barragem e seguindo-se à operação da mesma.

 

As entidades de engenharia precisam se posicionar nesse cenário pós-desastre, para assegurar que tais acidentes não se repitam. Estamos nos referindo a 662 barragens, segundo levantamento do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). E as instituições governamentais têm obrigação de recomendar as melhores técnicas disponíveis no mercado para os trabalhos de reconstituição das regiões atingidas, incluindo a reconstrução da infraestrutura básica e a recomposição do ecossistema. E prevenir a repetição desses acidentes, que ocorrem de tempos em tempos, como se fosse inexorável.

 

Nem a desculpa recorrente de carência de quadros técnicos para realizar trabalhos de campo se sustenta. O uso de drones para fotos aéreas, somado a softwares de processamento de imagens, que conseguem reconstituir o cenário real em detalhes, tornou esse argumento inócuo. No Japão, empresas privadas realizam esse serviço e colocam num site na internet essas imagens em 24 horas, para acesso irrestrito da população. Quando a informação é clara, acabam as especulações e boatos.

 

Que não se repita mais do mesmo. Um acidente parecido, mas de menor escala, ocorreu há 14 anos em São Sebastião de Águas Claras e atingiu o ribeirão Taquaras, no município de Nova Lima (MG). A empresa responsável — Rio Verde — cumpriu as determinações estabelecidas pelos órgãos estaduais, reconstruiu a estrada que liga a BR-040 e levantou outra barragem. Mas moradores da região reclamam que o ribeirão é hoje um filete d’agua quando antes era quase um rio, com bagres e lambaris. As condições originais do meio ambiente atingido ainda vão demorar a voltar. Conclusão: vale mais gastar cem mil reais em prevenção do que xis vezes mais em reparos…

Fonte: Revista O Empreiteiro

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