Aos 72 anos, a arquiteta Malu não pensa em parar

Quando perguntada sobre suas motivações para se manter ainda na ativa, aos 72 anos, Maria Lucia Pereira de Almeida, a Malu, é categórica: “vim a trabalho, não a lazer, e gosto muito do que faço. Não me vejo parada”, afirma a arquiteta e consultora da Kemp Projetos e Gerenciamento de Obras.

Formada em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura Mackenzie, em 1972, ela se lembra que, quando decidiu o que iria fazer profissionalmente, havia poucas mulheres na área. “Ainda era uma profissão em que se falava só ‘arquiteto’, não ‘arquiteta'”. E o início da carreira se deu ainda na faculdade. Ela até teve escritório próprio, mas migrou para o mundo corporativo, atuando por cerca de 30 anos.

A amizade que ignora posições hierárquicas  

Quem vê, pela primeira vez, Bárbara Kemp e Malu juntas certamente deve pensar que são mãe e filha tamanha intimidade e parceria. Esta relação tão estreita nasceu quando Bárbara tinha 17 anos e era, pasmem, estagiária de Malu, na Itaú Planejamento e Engenharia (Itauplan) e, por influência da mentora, ingressou na faculdade de Arquitetura. As duas trabalharam juntas por nove anos até que Malu passou a trabalhar no Instituto Itaú Cultural.  

A convite de Bárbara, Malu passou a integrar o time da Kemp. A chegada da amiga foi uma aquisição e tanto. “Se alguém está com problemas, ela sempre tenta ajudar. Aqui dentro, vira uma mãezona ou uma avozinha, dependendo da circunstância. Até tem horas em que se irrita com o barulho da garotada, mas, de forma geral, transita entre todos e muito bem”.  

Apesar da inversão das posições hierárquicas, explica Bárbara, a relação entre as duas é muito natural e saudável. “Ela consegue se moldar e se transformar. Apesar da idade, não ficou arraigada nos anos 1970, quando se formou”, garante a fundadora da Kemp. “Hoje, ela não destoa aqui dentro em nada. Nem na forma de se vestir ou de pensar. Apesar de ter 72 anos, não é aquela velhinha tradicional. A única diferença é o cabelo branco”.   

               Mais: em um ambiente em que a maioria dos colegas é bem mais jovem, Malu encontra muita motivação para dividir sua experiência, mas também se mantém aberta a aprender com a “garotada”. Para ela, uma das vantagens das novas gerações é a inquietude. “Isso pode representar certa superficialidade até no conhecimento, mas acho que é resultado da velocidade em que o mundo está”, reflete. “Na Kemp, ensino algumas coisas e aprendo muitas. Nossa convivência é horizontal, sem hierarquia de gerações”.  

Esboços feitos à mão e buscas incansáveis na internet  

A Kemp é referência no uso de tecnologias como BIM e realidade aumentada, mas, apesar disso, ela prefere fazer seus croquis “à moda antiga”, “porque curte”, segundo Bárbara. “Os croquis  são uma expressão pessoal dos arquitetos para registrar as ideias  iniciais de um projeto e, portanto, insubstituíveis”, justifica.

Em contrapartida, quando é preciso buscar alguma informação ou referência na internet, seu nome é sempre o primeiro nome a ser lembrado para executar a tarefa. “Quando pedimos para que faça buscas sobre algum assunto específico, podemos dizer que ela é incansável. Malu costuma dizer que burla a inteligência artificial do Google, que sempre “fica querendo mostrar outros resultados'”, diverte-se Bárbara. “E se todo mundo vai até a segunda ou terceira página do Google, ela vai até a décima e acaba achando o que quiser!”, completa rindo. 

Apesar disso, ela não se mostra uma heavy user das redes sociais e, há pelo menos seis anos, Malu deixou seu perfil no Facebook em “stand by”. O Instagram, usa com muita moderação e, quando está em família, esquece WhatsApp. “A gente tem que ter direito a uma vida privada. Não gosto dessa superexposição. Nem gosto tanto de falar de mim, prefiro falar de projetos, de temas”, diz.  

Sinceridade e o foco em novas possibilidades

Apesar de reconhecer que os tempos são melhores para as mulheres no mercado, Malu entende que ainda há o que se conquistar e que é preciso manter o espírito combativo que vivenciou no final dos anos 1960, quando entrou na faculdade: “Se querem ouvir só elogios, não me perguntem. Sou realista, mas sempre otimista”.   

Bárbara confirma a fama de #MaluSincera. “Se alguém perguntar o que ela achou de alguma coisa, fala na lata se está bom ou não”, admite a pupila.  

Na Akademia Kemp, lançada durante a Latam Retail Show, em agosto, em São Paulo, Malu atuará nas equipes que irão estruturar os módulos de aprendizagem voltados aos arquitetos da empresa, abordando temas como estrutura, fundações, técnicas e materiais, além de outros conhecimentos.   

“Malu é muito aberta a querer ensinar e sempre levanta questões do tipo ‘e se’. Nem sempre dá para mudarmos o rumo de um projeto, porque a gente tem o nosso speed. É tudo muito rápido”, explica Bárbara. “Mas é muito bom ter esse contraponto. A gente aprende muito com ela.”  

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