Cândido Rondon: o engenheiro que integrou o Brasil e construiu a ideia de nação

Cândido Rondon: o engenheiro que integrou o Brasil e construiu a ideia de nação

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O engenheiro e marechal Cândido Mariano da Silva Rondon ocupa um lugar singular na história da engenharia e da formação territorial do Brasil. Mais do que um desbravador de sertões, Rondon foi um construtor de nação, responsável por conectar regiões isoladas, estabelecer bases de comunicação e conduzir uma das mais complexas empreitadas de engenharia e integração do país entre o fim do século XIX e o início do século XX.

Filho de origens indígenas por parte dos bisavós maternos e da bisavó paterna, Rondon nasceu em Mimoso, em 5 de maio de 1865. Engenheiro militar formado pela Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, tornou-se símbolo de uma engenharia que avançava sobre o território não apenas com técnica, mas com propósito humanista.

Engenharia da comunicação e integração territorial

À frente da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas, Rondon foi responsável pela implantação pioneira de 2.270 km de linhas telegráficas e pela instalação de 28 estações de comunicação, ligando Goiás, Mato Grosso e posteriormente o Acre ao restante do país. O impacto dessa obra foi tão profundo que o dia 5 de maio passou a ser celebrado como o Dia das Comunicações no Brasil.

Entre 1919 e 1924, Rondon ocupou o cargo de diretor de Engenharia do Exército, consolidando sua atuação técnica e institucional. As expedições que comandava avançavam por áreas até então desconhecidas, atravessando 1.650 km de sertões e 1.980 km de florestas, em jornadas feitas a pé, em canoas ou no lombo de bois e mulas.

Mesmo em plena selva, mantinha os rituais cívicos: celebrava o 7 de Setembro, fazia tocar o Hino Nacional em um gramofone levado exclusivamente para esse fim e hasteava a bandeira brasileira em mastros improvisados no meio da mata — símbolos claros de que aquela engenharia também era um ato de afirmação do Estado nacional.

Relação inédita com os povos indígenas

Ao contrário da lógica dominante da época, Rondon estabeleceu contatos pacíficos com povos indígenas, como bororos, terena, nhambiquara, urupá, jaru, karipuna, ariqueme e guaraya, sempre impondo como condição o respeito absoluto às comunidades e sua proteção pelo Estado brasileiro.

Dessa postura nasceu sua frase mais célebre, que atravessou gerações e se tornou um marco ético da atuação no território:

“Morrer, se preciso for; matar, jamais.”

Essa visão levou Rondon a fundar o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), embrião das políticas indigenistas no Brasil.

O Rio da Dúvida e o reconhecimento internacional

Em 1914, ao ser designado pelo governo brasileiro para integrar a expedição do ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, Rondon recusou o papel de simples guia. Propôs algo mais ambicioso: a exploração e o mapeamento científico do então desconhecido Rio da Dúvida, na Amazônia.

A jornada foi dura, marcada por perdas humanas e materiais, mas entrou para a história como uma das grandes expedições científicas do século XX. A epopeia é narrada no livro O Rio da Dúvida, da jornalista Candice Millard, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

Roosevelt passou a considerar Rondon um modelo de militar e humanista, classificando-o como um dos quatro maiores exploradores de seu tempo, ao lado de Roald Amundsen, Richard Byrd e Robert Peary.

Rondon, a engenharia e a reinvenção do Brasil

Outro olhar aprofundado sobre sua trajetória está no livro Rondon, da série Perfis Brasileiros, escrito pelo historiador Todd A. Diacon, professor da Universidade do Tennessee. A obra reforça que Rondon não foi apenas um sertanista, mas um engenheiro estratégico, cuja atuação ajudou a moldar a presença do Estado brasileiro em regiões até então invisíveis.

Forjado na filosofia positivista de Auguste Comte, Rondon chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz pelo Explorer’s Club, reconhecimento raro para um engenheiro militar brasileiro.

Segundo Diacon:

“A invenção e reinvenção de Cândido Mariano da Silva Rondon continuará a acompanhar a invenção e a reinvenção da nação brasileira.”

Na história da engenharia brasileira, Rondon permanece como símbolo de uma técnica colocada a serviço da integração, do respeito humano e da construção do país — valores que atravessam os 120 anos da engenharia brasileira e seguem atuais.


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