Duas frases, pronunciadas em lugares, períodos e circunstâncias políticas e sociais distintas, interligam-se no tempo, amarradas pelo fio da meada da realidade. A primeira, de Celso Furtado, é um aceno à esperança brasileira, que não se esgota jamais: “Equivoca-se quem imagina que já não existe espaço para a utopia.” A segunda, disseminada em meio à população – “O País arrecada bem, gasta mal e investe pouco” – traduz o sentimento do contribuinte ao saber que o governo cobra imposto demais e oferece serviços públicos de qualidade, de menos. |
No ano passado, as três instâncias do governo (federal, municipal, estadual) arrecadaram R$ 1,27 trilhão – recursos suficientes para fornecer medicamentos à população durante 47 anos; construir 61 milhões de casas populares e pavimentar pelo menos 1 milhão de km de estradas, segundo cálculo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário.
A cada recorde arrecadatório, a utopia de um país sem gargalos em sua infraestrutura fica mais distante, enquanto o Brasil real torna-se um cenário, ou uma soma de cenários, dentro dos quais vem governo, passa governo, e os problemas de déficit em saneamento, habitação, transportes, e falta de melhoria em outros segmentos se acumulam, instigando duas sensações: a de que por aqui a casa nunca está arrumada e de que nada é feito para exorcizar a complacência com a esbórnia praticada com o dinheiro público.
Exemplos das indignidades que ilustram esse comentário correm pelo País afora, conquanto nos atenhamos, por ora, a alguns, apenas.
A memória de todos ainda está irrigada pelas águas das enchentes que em junho de 2010 engrossaram o rio Mundaú, em Alagoas, devastaram 19 cidades, deixaram perto de 28 mil desabrigados, 18 mil casas destruídas e milhares de vítimas arranjando-se em tendas de lona montadas pelo Exército.
Em abril daquele ano ocorreu um dos mais graves desastres ocasionados pelo deslizamento de terra: cerca de 200 pessoas ficaram soterradas no Morro do Bumba, em Niterói (RJ). E, ainda em janeiro deste ano (2011), o País registrava a maior tragédia climática da região serrana do Rio, quando temporais ininterruptos ocasionaram desabamentos, soterramentos e mortes. Mais de 900 pessoas morreram e quase 350 desapareceram.
Naquela região fluminense, as denúncias são graves. O Ministério Público Federal apura a operação de empresas que, para reconstruir cidades devastadas pelos temporais, pagam propinas a autoridades para aprovação de contratos de obras sem licitação. Em Nova Friburgo estão em andamento 10 inquéritos instaurados para se saber como R$ 10 milhões das verbas do governo federal, para obras de emergência, estão ou já foram aplicados. Segundo as denúncias, até empresas de fachada apareceram de repente, depois da tragédia, a fim de drenar recursos para bolsos de delinqüentes.
Em meio a esse cenário pipocam os escândalos dos aditivos no Ministério dos Transportes; circulam as denúncias de sobrepreço nas obras das novas pistas da Marginal do Tietê; são investigados políticos em casos de cobrança de comissão em obras do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) no Rio Grande do Norte e em outros locais, enquanto fatos, de igual ou maior comprometimento, passam a ser encarados como corriqueiros.
Longe dos artifícios do marketing político montado previamente às eleições e, depois delas, para mascarar a inação de governos, o rosto do Brasil espelha suas enormes contradições: a alfabetização, no interior brasileiro, é feita em escolas precárias, eventualmente sob árvores, ou em espaços demarcados por paredes de pau-a-pique, escoradas por pedaços de madeira e despojados de qualquer equipamento, por professores às vezes equipado apenas pela vontade de ensinar. A recíproca, nesse caso, também é verdadeira: crianças cobrem distâncias em terra, vencendo picadas abertas no mato, ou transpõem igarapés em canoas, para chegar a esses espaços precários, com vontade de aprender. São pequenos brasileiros que, só por esse esforço, deveriam ser reconhecidos como heróis nacionais.
Mudando-se rapidamente de cenário para alguns centros maiores, incluindo metropolitanos, vamos encontrar escolas públicas das quais são desviados até os magros recursos destinados à compra de mantimentos para a merenda das crianças. O contraditório é que os bandidos responsáveis por tais delitos dificilmente são colocados na cadeia. Na saúde, não é diferente. Onde há posto de saúde, falta médico; onde há
médico, escasseiam postos de saúde ou equipamentos para diagnóstico de urgência.
Essas constatações, somadas às tragédias naturais ou ocasionadas pela intervenção equivocada na natureza, além dos episódios recentes de escândalos denunciados pela imprensa e pelo Ministério Público, poderiam constituir, para o governo, parâmetros de lições políticas, éticas, morais e técnicas a serem seguidos para que não se repetissem jamais. Ele poderia aproveitar essas amargas experiências para estruturar medidas preventivas e moldar a face de um país melhor. Contudo, os flagelados da chuva em Alagoas continuam flagelados e sem casas. E, se quiserem moradia, terão de pagar, por antecipação, as casas que ainda não foram construídas. Na região serrana do Rio de Janeiro as cidades continuam na expectativa da reconstrução.
Apesar de tudo isso, o governo centra o foco de seus interesses em outras coisas. Por exemplo: o Trem de Alta Velocidade. O País que destruiu e enterrou o patrimônio ferroviário nacional, insiste em construir uma fantasia, o TAV, talvez para encobrir, com esse embuste, as mazelas que prosperam pelo Brasil afora.
Caso seja possível, um dia, inverter a lógica dessa realidade, talvez a frase popular – “O governo arrecada bem, gasta mal e investe pouco”, possa também ser invertida. Então, ela estabelecerá um nexo com aquela frase de Celso Furtado: “Equivoca-se quem imagina que já não há espaço para a utopia”.
A seguir, o Diário do Brasil – o cenário de alguns dos principais fatos ocorridos no País, de julho de 2010 a julho de 2011, mês a mês.
Fonte: Estadão