Estudo do Fluxo de Passageiros em 22 Estações de Trem da CPTM

A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – CPTM é uma operadora de transporte sobre trilhos vinculada à Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo. A companhia transporta em média 3 milhões de passageiros por dia útil. Atualmente são 7 linhas, 273 km de vias e 94 estações em operação que atendem 23 municípios na Região Metropolitana de São Paulo.

Por meio de várias ações a empresa vem promovendo constantemente obras de melhoria e modernização do sistema ferroviário por ela administrado. A expansão da rede, o estímulo ao aumento da oferta e o consequente incremento da demanda de passageiros do sistema nos últimos anos são resultados desse processo. Frente a esse desafio, a utilização de novos recursos tecnológicos foi estimulada e incorporada às práticas da empresa nos últimos anos.

A CPTM foi uma das operadoras pioneiras no uso da simulação dinâmica de pedestres com o software Legion, da Bentley Systems. A implantação da ferramenta teve como objetivo analisar o fluxo de passageiros e permitir intervenções em estações existentes, prolongando sua vida útil e otimizando as estruturas instaladas, bem como a capacidade de antever, ainda na fase de projeto, como poderia se comportar o deslocamento de pessoas em ambientes de determinada estação.

A implantação da ferramenta na companhia passou pela aquisição do software e pela capacitação de técnicos de diferentes áreas da empresa, dada a diversidade de aplicação de usos, envolvendo quadros das áreas de projeto, operação e novos negócios. Além disso, uma consultoria analisou o fluxo de passageiros de 22 estações (10 existentes e 12 em projeto), o que propiciou um aprendizado complementar com casos de aplicação direta à realidade da CPTM.

Terminado o período de implantação que transcorreu por 18 meses, a ferramenta foi incorporada na rotina de trabalho da equipe técnica da CPTM, que realizou ao menos 15 estudos de simulação dinâmica de passageiros, sobretudo na área de operação, com análise de estações existentes e avaliação de estações em planejamento.

Desafios

Durante o período de implantação, o principal desafio foi a quebra de paradigma decorrente da utilização de uma nova ferramenta como instrumento de análise. Em reuniões de trabalho as áreas interessadas da empresa foram apresentadas ao software e posteriormente convidadas para participar como parte atuante do trabalho que estava em desenvolvimento. Após o estágio de implantação os desafios foram: consolidação da ferramenta nas diferentes áreas que foram capacitadas e repasse de conhecimento, fomentando a utilização por outros funcionários.

Baseada na interação dos indivíduos uns com os outros e com os obstáculos físicos do ambiente, o modelo gerado pelo Legion reproduz a dinâmica complexa de movimentos de pedestres e é capaz de recriar precisamente o ambiente e as atividades encontradas em locais reais.

Estas características tornam o Legion uma ferramenta única de simulação dinâmica de pedestres e altamente indicada para análise de estações de transportes, pois consegue representar realisticamente o comportamento de cada passageiro como uma entidade individual, que apresenta características próprias de velocidade e de conhecimento da estação.

Aplicações

As principais aplicações do software na CPTM  permitiram avaliação espacial de projetos novos e reforma de estações existentes; análise do fluxo de transferências entre modos de transporte; avaliação do impacto de diferentes níveis de demanda de passageiros; estratégias operacionais em eventos esportivos, culturais e de entretenimento; formas de evacuação das estações em caso de emergência; impacto oriundo da interrupção do serviço e irregularidades operacionais; e locação de pontos comerciais e máquinas de venda de bilhetes.

Vídeos com a movimentação de usuários, mapas de densidade e gráficos obtidos através dos modelos possibilitaram avaliar objetivamente os seguintes aspectos das estações: eliminação de pontos críticos e de confronto de fluxo de passageiros; dimensionamento de áreas de plataforma, saguões e espaços de circulação; dimensionamento e posição de bloqueios e bilheterias; e dimensionamento, posição e sentido de escadas fixas e rolantes.

Caso

O caso específico da Estação Morumbi diz respeito à integração da Linha 9 – Esmeralda da CPTM com a Linha 17 – Ouro do Metrô (monotrilho) e se baseou nos dados de acesso lindeiro de 2016 e de integração para o cenário 2020, que considera: extensão da Linha 9 até Varginha; Linha 17 do Metrô (trecho Aeroporto-Morumbi); Linha 5 do Metrô (extensão até Chácara Klabin) e Linha 4 do Metrô (extensão até São Paulo-Morumbi).

Deste modo, a estação Morumbi da Linha 17 atua como estação de ponta de linha, com um dos sentidos somente para desembarque e outro somente para embarque.

O projeto que serviu de base para o desenvolvimento do modelo da estação prevê a integração da estação existente da CPTM com o mezanino da estação do metrô, através de escadas rolantes e elevador posicionados na extremidade leste da plataforma da estação da CPTM. Assim sendo, o acesso ao metrô também passa a ser possível a partir da estação CPTM e também será criado um segundo acesso junto ao corpo da estação do Metrô.

O caso da estação Morumbi é emblemático pois diz respeito a uma estação que atualmente já sofre com os efeitos da superlotação do saguão de acesso no horário de pico da tarde.

Diante deste cenário, a conexão com a Linha 17 – Ouro do Metrô pode agravar um problema já existente, uma vez que trará mais usuários para um equipamento que já aponta sinais de saturação.

Após o desenvolvimento do modelo, ficou evidente que intervenções de maior porte serão necessárias, a fim de solucionar ou minimizar o problema do conflito de fluxos na região das plataformas e as filas que se formam no saguão de acesso na região da linha de bloqueios.

O projeto proposto pelo metrô gera conflito entre fluxo de embarque/desembarque e transferência, propiciando condições inadequadas de circulação e de segurança.

Dessa forma, os dois cenários avaliados, um com variação de demanda e outro com maior intervalo entre trens, demonstram a fragilidade operacional da infraestrutura existente, sobretudo quando exposta a uma mínima alteração das condições normais.

Os resultados obtidos poderão subsidiar o desenvolvimento de um novo projeto que contemple a segregação dos fluxos de embarque/desembarque e transferência, minimizando o problema de saturação na região da plataforma.

Resultados

A CPTM foi uma das operadoras pioneiras no uso da simulação dinâmica de pedestres com o software Legion no Brasil. O ganho obtido com as possibilidades de uso dessa versátil ferramenta é enorme, não somente por possibilitar a análise do fluxo de pedestres e permitir intervenções e adequações em equipamentos já existentes, prolongando sua vida útil e otimizando estruturas que se encontram instaladas, bem como a capacidade de antever, ainda na fase de projeto funcional, como determinada estação poderá se comportar quanto ao deslocamento de usuários em suas áreas de acesso e distribuição – estabelecendo, definitivamente, uma nova abordagem quando se fala em projeto de estação.

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