Falemos de paraísos

Poderia falar de vários paraísos. Serão muitos os que se espalham por aí, nos continentes e nas ilhas. Os reais e os imaginários, todos convergindo para um pensamento único: a obtenção da completa felicidade, desde que estejamos convencidos de que é o dinheiro que move o sol e os outros astros.

Mas, a notícia que me chega, via jornal, me induz a falar de paraísos clássicos, os mais cortejados e ambicionados pelos que detém fortunas de fontes imprecisas, seguramente inescrupulosas: os paraísos fiscais.

A nota, apoiada em relatório de uma organização de nome curioso – Tax Justice Network – traz uma revelação que, se não surpreende, ao menos tem o mérito de exibir números. E, os números, quando adequadamente apurados e contabilizados, podem ser de difícil contestação.

O relatório mostra que o Brasil é o quarto maior cliente  de contas em paraísos fiscais. Tanto é, que de 1970 até hoje, vários brasileiros mantinham, depositados lá fora, US$ 520 bilhões, o correspondente a R$ 1 trilhão. E são muitos os paraísos fiscais. Eles estão nas Bahamas, Ilhas Cayman, Ilhas Turks e Caicos, Mônaco, Bermudas e por aí em diante.  Quem sabe até haja alguns perto de nós e não atentemos para isso. De qualquer modo, eles preferem tranquilos e longínquos ambientes insulares.

Para a grande maioria de brasileiros, acostumada ao salário contado e medido do final do mês, com todas as despesas avaliadas para ver se poderão ser pagas e ainda sobrar alguma coisa para o arroz e o feijão cotidianos, é impossível imaginar como são possíveis desvios dessa ordem. É muito dinheiro acumulado para além de nossos limites geográficos.

Mas o dinheiro está lá, sem que ninguém cuide de repatriá-los. Vez ou outra há informações de que esta ou aquela quantia pode ser devolvida. Mas, coisa pouca; apenas o suficiente para demonstrar que estando em paraísos fiscais, eles são intocáveis. 

Mas, o que surpreende, nessas terras apropriadas ao florescimento de riquezas ilegais,  é a blindagem. Como é possível que o sistema financeiro internacional e a justiça desses países permitam que tantas fortunas, extraídas da corrupção, do narcotráfico, das fraudes em escala mundial, fiquem ali protegidas como se estivessem em cofres indevassáveis, sem possibilidades de repatriação? Somente uma rede internacional de cumplicidade pode ser a explicação para o fenômeno.

Fonte: Nildo Carlos Oliveira

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