A engenharia ambiental brasileira vive um momento de ruptura. Embora a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e o Novo Marco do Saneamento tenham imposto o fim dos lixões, o país ainda lida com cerca de 3 mil lixões ativos e 40% dos resíduos destinados inadequadamente.
Para reverter esse cenário, o setor evoluiu do conceito de aterro sanitário convencional para os Centros de Tratamento e Transformação de Resíduos (CTTR). Liderados por empresas como a Marquise Ambiental, esses complexos funcionam como verdadeiras biorrefinarias urbanas.
O Conceito CTTR: Engenharia e Economia Circular
Segundo Hugo Nery, conselheiro da Abrema, o segredo para destravar a infraestrutura ambiental brasileira não é apenas tecnologia, mas escala e governança. O modelo CTTR substitui a simples disposição final por um hub de tecnologia ambiental, focado em quatro blocos:
- Engenharia de Base: Impermeabilização robusta e controle de estabilidade geotécnica.
- Monitoramento Contínuo: Gestão ativa de emissões e efluentes (lixiviados).
- Rastreabilidade: Controle operacional rigoroso e conformidade técnica.
- Valorização Energética: Captura de biogás para produção de biometano e eletricidade.
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“O CTTR é concebido como uma planta industrial integrada, agregando a valoração do resíduo ao seu ciclo de vida”, explica Paulo Studart, diretor operacional da Marquise Ambiental.
Biometano: O Caso de Sucesso de Fortaleza e Manaus
A valorização do biogás é o maior exemplo de como o lixo se torna um ativo econômico. O CTTR de Fortaleza, localizado em Caucaia, é um marco histórico:
- Inovação: Primeira planta autorizada pela ANP a injetar biometano diretamente na rede de distribuição.
- Impacto: Responsável por 15% do gás comercializado no Ceará.
- Capacidade: Recebimento de 180 mil toneladas mensais de resíduos.
A experiência foi replicada no CTTR Amazonas, em Manaus. Com investimento de R$ 200 milhões, a unidade foi adaptada para o regime de chuvas intensas da Amazônia e tem capacidade para atender até 16 municípios em um raio de 150 km, promovendo a regionalização do saneamento.
Desafios para a Universalização da Destinação Adequada
Apesar do potencial energético — apenas o Rio de Janeiro poderia gerar 290 milhões de m³ de biometano/ano —, o Brasil enfrenta gargalos institucionais:
- Escala: Municípios pequenos dependem de consórcios intermunicipais para viabilizar o Capex elevado.
- Segurança Jurídica: Necessidade de contratos de longo prazo e PPPs bem estruturadas.
- Licenciamento: Dificuldade na obtenção de áreas extensas e compatíveis com a logística de coleta.
Comparativo: Aterro Sanitário vs. CTTR
| Funcionalidade | Aterro Convencional | Modelo CTTR (Marquise) |
| Objetivo Principal | Disposição Final Segura | Valorização e Transformação |
| Subprodutos | Biogás (queima/controle) | Biometano e Energia Elétrica |
| Tratamento de Orgânicos | Decomposição em Célula | Compostagem e Biodigestão |
| Tecnologia de Efluentes | Lagoas de Reservação | Osmose Reversa Avançada |






