O ano de 2026 pode se tornar um dos mais interessantes para a infraestrutura do País, com um volume expressivo de concessões e parcerias público-privadas (PPPs). O Ministério dos Transportes (MT) trabalha com a previsão de pelo menos 21 leilões de rodovias e ferrovias federais ao longo do ano, que somam aproximadamente R$ 289 bilhões em investimentos. Outros segmentos da infraestrutura, como mobilidade urbana e saneamento, também devem inflar esses números em cerca de R$ 50 bilhões.
No setor rodoviário, a previsão é de realizar 13 leilões, que garantirão aproximadamente R$ 149 bilhões em investimentos, conforme levantamento do MT. Já no segmento ferroviário, estão previstos oito leilões em 2026, totalizando mais de 9 mil km de extensão e cerca de R$ 140 bilhões em aportes. Segundo a pasta, o primeiro leilão já está marcado para março, com a concessão da Rota Gerais, formada pelas BR-116 e BR-251, em Minas Gerais.
O otimismo da pasta está ancorado no sucesso dos leilões realizados ao longo dos últimos anos. Desde o início da atual gestão, o Ministério dos Transportes estruturou 36 concessões, sendo 22 entre 2023 e 2025, que asseguraram R$ 247 bilhões em aportes privados. Apenas em 2025, o governo federal realizou 13 leilões de infraestrutura rodoviária, que garantiram R$ 135 bilhões em investimentos em mais de 6.200 km de estradas.
A atual carteira de concessões rodoviárias federais conta com seis projetos de otimizações contratuais, incluindo a Régis Bittencourt (BR-116 SP/MG) e a BR-163 PA/MT (Arco Norte). Ambas possuem peso estratégico na agenda de leilões para 2026, segundo o MT, demonstrando que a otimização é um instrumento central para recuperar contratos estressados e alinhar as concessões às melhores práticas atuais. Essa reorganização prevê a reestruturação de contratos mais antigos, incorporando novos investimentos.

aprimoramentos regulatórios e instrumentos contratuais mais modernos, já consolidados nos modelos recentes. No caso da Régis Bittencourt, corredor fundamental para a ligação entre as regiões Sudeste e o Sul, a otimização busca destravar obras represadas e acelerar intervenções em um dos trechos mais movimentados da malha federal. Já no Arco Norte, a reestruturação do contrato é vista como essencial para fortalecer a logística de escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste em direção aos portos do Norte. Segundo o ministério, essas iniciativas viabilizam novos investimentos em duplicações, terceiras faixas, dispositivos de segurança, tecnologia e gestão operacional, reforçando eixos estratégicos para a integração regional e a redução de custos logísticos.
“As reestruturações permitem a retomada e a aceleração de obras relevantes em corredores logísticos essenciais, como a ligação entre São Paulo e Paraná e entre Mato Grosso e os portos de Miritituba, no Pará”, afirma a pasta, em nota.
A carteira inclui concessões e reestruturações de contratos em corredores que concentram grande volume de tráfego de cargas e passageiros, como a BR-116 em diferentes trechos do País, entre eles, a Rota dos Sertões, entre a Bahia e Pernambuco. A Rota do Pequi, que engloba trechos da BR-060 e da BR-153 no Distrito Federal e em Goiás, conectando polos industriais e agrícolas do Centro-Oeste, tem papel central no transporte regional e interestadual. Já a Rota Litoral Sul, que reúne segmentos da BR-116 e da BR-376 no Paraná e da BR-101 em Santa Catarina, atravessa áreas densamente povoadas, regiões turísticas e importantes polos industriais, atendendo milhares de usuários e exigindo obras complexas de ampliação e modernização. Também estão previstas a Rota Portuária do Sul (BR-116 e BR-392), no Rio Grande do Sul, integrando acessos rodoviários a áreas portuárias estratégicas, e a Rota Planalto Sul (BR-116), que corta o interior do Paraná e de Santa Catarina, fortalecendo a logística regional.
Outros projetos relevantes incluem a concessão da Transbrasiliana (BR-163/SP), eixo importante de ligação entre o Sudeste e o Centro-Oeste; a Rota 2 de Julho, que envolve trechos da BR-116 e da BR-324 na Bahia; os lotes de Rodovias Integradas de Santa Catarina, que reúnem trechos das BR-153, BR-282, BR-470 e BR-480; e a Rota Integração do Sul, no Rio Grande do Sul, conectando diferentes corredores federais e atendendo regiões industriais, agrícolas e portuárias. Juntas, essas concessões somam milhares de km e contratos de longo prazo, com foco na ampliação da capacidade, modernização operacional e redução de acidentes.
FERROVIAS GANHAM PROJEÇÃO
Paralelamente às rodovias, o setor ferroviário deve protagonizar uma mudança estrutural a partir de 2026, com destaque para a nova Política Nacional de Outorgas Ferroviárias, lançada para modernizar o modelo de concessões do setor.
“Esse novo marco estabelece diretrizes claras para aportes governamentais, estratégias de financiamento e instrumentos de garantia, assegurando a sustentabilidade econômica e financeira dos empreendimentos. Esses três pilares rompem com a estratégia passada de alocar integralmente os riscos no setor privado, passando a um modelo em que o poder público induz os investimentos privados de forma eficiente, com incentivos adequados e compartilhamento de riscos”, esclarece o MT.

“O modelo ferroviário atual apresenta, de fato, uma equação de risco-retorno mais equilibrada.
e madura do que no passado”, frisa o diretor-presidente da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), Davi Barreto. “O novo marco legal, somado à Política Nacional de Outorgas Ferroviárias instituída recentemente, trouxe diretrizes claras de governança e estabeleceu um novo modelo de funding que combina recursos públicos e privados”, completa.
Já o diretor de Planejamento e Economia da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Roberto Figueiredo Guimarães, pondera que ainda há entraves regulatórios, mas que podem ser resolvidos. “A questão principal está na financiabilidade dos projetos ferroviários, que, por sua natureza, são intensivos em capital e não ficam de pé apenas com investimentos privados. São necessários investimentos públicos para complementar os privados”, diz, destacando que em decorrência das históricas restrições fiscais do Estado brasileiro, o setor não avançou. “O Ministério dos Transportes está inovando e tudo indica que projetos ferroviários podem sair do papel, por meio de aportes públicos a título de transferência de capital para a realização de obras, em complemento aos recursos privados. Os valores previstos ainda estão muito aquém do necessário. Mas já é um bom começo”, complementa.
Entre os projetos mais relevantes estão corredores historicamente complexos, como a Ferrogrão, que liga Sinop, no Mato Grosso, a Itaituba, no Pará, e o Anel Ferroviário do Sudeste, conhecido como EF-118. Ambos enfrentaram, ao longo dos últimos anos, desafios jurídicos e ambientais que retardaram seu avanço. De acordo com a nova Política Nacional de Ferrovias, o poder público passará a assumir o licenciamento ambiental prévio desses empreendimentos, reduzindo incertezas e aumentando a segurança jurídica para os investidores.

“Esses eixos são corredores estruturantes do ponto de vista logístico e ambiental. Eles têm potencial para aumentar a eficiência do transporte de cargas na região central do País e no Sudeste, reduzindo significativamente os custos logísticos. São projetos que ampliam a competitividade entre portos, promovendo uma mudança estrutural na matriz de transportes, com redução de emissões de gases de efeito estufa ao substituir modais mais intensivos em carbono”, diz o MT. Além do Anel Ferroviário do Sudeste e da Ferrogrão, estão na lista dos novos leilões o Corredor Leste-Oeste (FICO-FIOL), a Malha Oeste, a extensão norte da Ferrovia Norte-Sul, a Malha Sul (Corredores Mercosul, PR-SC e RS) e o Corredor Minas-Rio.
De acordo com Davi Barreto, para que o Brasil consiga dar um salto logístico e o modal ferroviário sair dos atuais 20% de participação na matriz de cargas, o País precisa de uma guinada estrutural que transforme intenções genéricas em uma verdadeira política de Estado, criando um caminho seguro e pragmático para o setor. “É imperativo corrigir a assimetria histórica em que a ferrovia carrega um fardo pesado de custos de capital para manter sua própria via, enquanto compete com um transporte rodoviário frequentemente subsidiado e com regulação. mais branda. Para equilibrar o jogo, o Estado precisa atuar como parceiro estratégico, oferecendo financiamentos verdadeiramente diferenciados (com taxas subsidiadas e prazos longos) e garantindo que os recursos de outorgas voltem para o próprio setor.”
OUTROS SEGMENTOS TAMBÉM DEVEM ATRAIR INVESTIDORES
Outro segmento com peso crescente na carteira de 2026 é o de mobilidade urbana. Estima-se em R$ 31 bilhões os investimentos que podem ser contratados. Em São Paulo, o programa de parcerias inclui projetos metroferroviários, como a Linha 19, que pode ser leiloada no segundo semestre, e de trens metropolitanos em fase de estruturação (Linhas 10 e 14 da CPTM), com previsão de editais e leilões ao longo do ano. No Rio de Janeiro, está prevista a licitação para escolha da nova concessionária dos trens urbanos metropolitanos, substituindo a atual operadora (SuperVia).
O setor de saneamento básico também segue relevante na agenda, com potencial de gerar R$ 20,5 bilhões em investimentos em 2026. Já o segmento portuário terá uma agenda ativa neste ano, incluindo leilões de terminais e canais de acesso importantes, entre eles, os de Macapá, Natal, Porto Alegre e Recife, previstos para fevereiro.
O Tecon Santos 10 (Porto de Santos), um dos maiores terminais de contêineres do País, deve ter seu leilão realizado em março, com investimentos estimados em mais de R$ 6,4 bilhões.
O novo terminal terá área de 621 mil m2 e será destinado à movimentação e armazenagem de contêineres e carga geral, com capacidade anual de movimentação devendo chegar a 9 milhões de contêineres.
Pelo projeto, serão construídos quatro berços de atracação de navios para embarque e desembarque.
Segundo os critérios definidos, vencerá o leilão quem apresentar o maior valor de outorga, partindo do piso de R$ 500 milhões. A concessão será pelo prazo de 25 anos.
Com a entrada em operação do novo terminal, o Ministério de Portos e Aeroportos projeta que o País salte da atual 45ª para a 15ª posição no ranking mundial de movimentação de contêineres.





