Os sete anos de obras para a modernização da Repar

Foi uma saga que ficará para a história da Petrobras. Ao menos esta é a expectativa do engenheiro químico João Adolfo Oderich, que ao longo de sete anos acompanhou, passo a passo, as obras de reforma da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar) em Araucária (PR)

Nildo Carlos Oliveira – Araucária (PR)

Repar não é uma obra à parte do conjunto das refinarias da Petrobras. Como toda obra desse tipo, teve lá as suas peculiaridades e complexidades afins. O engenheiro João Adolfo Oderich, que ali chegou em 2005 para assumir a gerência geral da refinaria e dar consistência aos planos de reforma e modernização da planta industrial, explica que ela, em sua origem, foi concebida para produzir 120 mil barris/dia de petróleo. Mas o tempo passou e alterações na política da empresa levaram-na a fazer vultosos investimentos destinados a prepará-la para produzir 180 mil barris/dia.

O salto, de um patamar de produção para outro, dentro de uma estratégia para manter a refinaria competitiva no mercado internacional de derivados de petróleo, e ainda adicionalmente adequá-la às futuras fases da legislação ambiental, significaria pôr em andamento um conjunto de obras civis e de montagens eletromecânicas consideradas “absolutamente desafiadoras”. E o termo “saga” veio a refletir apropriadamente o que ali aconteceu nos últimos sete anos.

O engenheiro fez à revista O Empreiteiro um relato dessas obras, em um momento compreensivelmente tenso: na tarde da entrevista arrumava as malas para deixar a Repar e partir para o Sul. É que, no dia seguinte, assumiria as obras de reforma e modernização de outra refinaria, a Alberto Pasqualini, no município gaúcho de Canoas, onde a sua história profissional começou.

A construção da Repar ocorreu em 1973. Contudo, só foi inaugurada em maio de 1977. Desde aquela época passou a ser considerada a principal unidade do segmento petroquímico do Paraná e a maior planta industrial da região Sul.
Logo que chegou nessa refinaria, em 2005, a fim de responder pela gerência geral da planta, o engenheiro recebeu a informação de que ali seriam investidos nada menos que US$ 5,4 bilhões. Deveriam ser construídas 19 novas unidades para a produção de coque de petróleo, gasolina, diesel, gás de cozinha, propeno e hexano e nos trabalhos para a melhoria da qualidade dos produtos derivados. “Seriam os maiores investimentos já aplicados pelo setor de abastecimento e de refino de toda a Petrobras”, lembra o engenheiro.

Uma refinaria no meio do caminho

João Oderich nasceu em 1951 no município gaúcho de São Sebastião do Caí. Na adolescência, quando acaso seguia desse município para Porto Alegre, onde moravam seus avós, costumava observar, na passagem por Canoas, a evolução das obras de construção da Refinaria Alberto Pasqualini. Talvez não imaginasse, à época, que um dia trabalharia na Petrobras. Mas as imagens das obras de engenharia daquela unidade jamais lhe sairiam da memória. Algum tempo depois ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e cursou engenharia química.

Certa ocasião, com outros colegas, foi convidado a estagiar no laboratório da Alberto Pasqualini, então em franco processo produtivo. E, com esse estímulo, acabou prestando concurso e ingressando na Petrobras, o que ocorreu em 1975. Ele iniciou sua carreira profissional naquela unidade, onde trabalhou durante 17 anos. Mas haveria necessidade de obtenção de outras experiências. Prestou serviços na Petrobras Internacional (Braspetro) e passou algum tempo no Equador; esteve na Refinaria de Manaus, cujo nome foi mudado para Isaac Sabbá, e esteve na Refinaria Capuava, no ABC paulista, de onde seguiu, mais tarde, para a Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão. Com know how nas mais diferentes modalidades de obras de engenharia, e com o conhecimento verticalizado do potencial e urgência da empresa, consideraram-no apto a enfrentar trabalhos até de maior complexidade.

Tanto é, que a Petrobras o escolheu para gerenciar as obras de engenharia que iriam modernizar e deixar a Repar pronta para outra fase de produção.
As obras tiveram a dimensão previsível. Exigiram técnicas convencionais e especiais da melhor engenharia e a mobilização de um contingente que, no pico, chegaria a cerca de 25 mil trabalhadores. E tudo aconteceu porque, conforme lembrariam alguns de seus colegas e colaboradores, um dia esse engenheiro encontrou uma refinaria no meio do caminho: exatamente ali, no percurso que fazia, quando adolescente, entre São Sebastião do Caí e Porto Alegre.

O depoimento do engenheiro

O engenheiro João Adolfo Oderich tem um feitio aparentemente tranquilo. Fala com simplicidade, procurando ajustar as palavras exatas a sua linha de pensamento. Evita utilizar expressões técnicas incomuns e revela conhecimento pormenorizado de cada episódio e de cada momento das obras que ali acompanhou. Almoça no refeitório com os trabalhadores e é tratado não como chefe, mas como um parceiro. Ali, os que sabiam de sua transferência para outra refinaria procuraram cumprimentá-lo deixando escapar, por antecipação, alguma dose de saudosismo. Foi nesse ambiente – e naquele ambiente, já de olho no relógio contando as horas para o embarque para outras ousadias da engenharia – que ele prestou o depoimento que se segue.

Vou contar essa história dizendo que cheguei aqui em 2005. Não é necessário precisar a data. Mas, logo nos primeiros dias de minha presença na Repar, recebi o anúncio oficial de que aqui seriam aplicados os maiores investimentos do setor de abastecimento e refino da empresa. Seriam construídas 19 novas unidades. E por que essas novas unidades e por que no Paraná?
É fácil responder. São as necessidades do mercado. A refinaria foi projetada originalmente para produzir 120 mil barris/dia de petróleo. E essa escala teria de ser alterada. Para que viesse a produzir mais e com maior eficiência teria de ser, digamos assim, desengargalhada: e eliminar os gargalos que a impedissem de partir para a meta de produção de 180 mil barris/dia.

Ao longo dos últimos 30 anos, o perfil do mercado nacional do petróleo mudou muito. O produto mais importante, que era a gasolina, deu lugar ao diesel. E a gasolina passou a ser substituída pelo álcool. Ao mesmo tempo, o petróleo importado passou a aumentar gradativamente a sua participação no petróleo nacional. Além disso, outras mudanças adviriam e somente a construção e a operação de novas unidades poderiam garan
ti-las.

Veja o seguinte: houve alterações nas especificações do combustível por conta das restrições ambientais ocasionadas pelas preocupações, cada vez mais necessárias e acentuadas, em relação aos cuidados com a natureza. Poderemos acrescentar a isso o impacto das atividades industriais, das emissões de dióxido de carbono, do consumo de água, da geração de resíduos e assim por diante. E as obras previstas na Repar, objeto daqueles investimentos de que falamos, teriam de ser executadas considerando todas essas interveniências.

Para a construção das 19 novas unidades iniciamos, em 2006, todo o processo de audiência pública, iniciativas para a obtenção de licenciamento ambiental, a licença prévia, a licença para a instalação de canteiros, enfim, todas as tratativas administrativas que corriam paralelamente à elaboração dos projetos básicos de engenharia civil e de montagem. Na sequência foram elaborados os editais, as definições dos grandes consórcios, as contratações e, então, o começo efetivo das obras.

Mas que obras? Tínhamos um passivo relacionado às necessidades de modernização. Façamos uma metáfora: a cabine desse grande avião, que é a refinaria, teria de ser modernizada. Precisava de uma nova sala de controle; de um centro integrado com esse fim. As novas unidades exigiriam o fornecimento de maior volume de vapor; daí a necessidade da montagem da caldeira 3, por exemplo. E tudo isso impunha, como requisitos, mudanças na legislação da Secretaria do Meio Ambiente do Paraná. Tivemos de acompanhar as gestões políticas com esse fim.

A demanda de propeno

Mas voltemos às obras de engenharia. A alta demanda de propeno no País levou a Petrobras a extraí-lo do gás de cozinha e a purificá-lo para uso pela indústria petroquímica. Vieram a reboque dessas iniciativas as carteiras de gasolina, do coque e do diesel. Para a movimentação desses empreendimentos se faria necessária a construção de uma grande subestação elétrica interligada ao sistema nacional, além de outras 25 subestações de área, o que impunha a modernização da casa de força existente, além do funcionamento de um novo turbo gerador, sem falar no sistema de utilidades para suprimento de água de resfriamento, ar comprimido e outros insumos. Isso explica o montante daqueles investimentos: US$ 5,4 bilhões.

Colocadas essas urgências, partimos para as obras civis, considerando, previamente os estudos geológicos e geotécnicos para a evolução correta dos trabalhos de terraplenagem e das fundações das grandes estruturas, destinadas a receber equipamentos adquiridos em diversas praças, logicamente resguardando os requisitos de conteúdo nacional. Em geral, os equipamentos mais sofisticados vieram da Europa, Estados Unidos e Ásia. Por exemplo: reatores da Índia; geradores da Inglaterra; turbogeradores do Japão e outros equipamentos da Coreia, China, Alemanha, França, Estados Unidos etc.

Superadas as etapas mais complexas das obras civis, ou, em alguns casos, paralelamente a elas, tivemos as montagens eletromecânicas, que requerem mão de obra muito especializada. Mas foi em 2011 que houve a maior parte dos serviços eletromecânicos.

Contudo, considero que o momento mais complexo das obras foi em 2010, quando alcançamos um contingente de 25 mil pessoas.  Acredito que, naquele ano, naquele momento, a Repar concentrou o maior volume de trabalhadores do País em um só canteiro. Hoje estamos com um contingente de 8.500 pessoas.

Uma das complexidades a que gostaria de me referir aconteceu com o desembarque, no Porto de Paranaguá, de cinco reatores. A logística envolveu a Ecovias, o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná, por intermédio da Secretaria dos Transportes, além de empresas de energia elétrica, de comunicação, prefeituras, Polícia Rodoviária, empresas de engenharia que tiveram de proceder ao rebaixamento de pistas e ao escoramento de pontes e viadutos ao longo do percurso. As peças, pesadas, transportadas assim por via terrestre, jamais poderiam sofrer quaisquer avarias. E, como esse trabalho se desenvolveu em março, em plena estação das chuvas, que Planejamento no megacanteiro

Simultaneamente às complexidades das obras – e da logística – esse megacanteiro não estava imune a outros problemas. Tivemos de enfrentar o surgimento de moléstias, como a meningite. Houve casos isolados, mas a Petrobras precisou acionar as secretarias da Saúde do Estado e do município, além da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para resolver o problema e evitar que ele se propagasse. 

Um dado para o qual sempre chamo a atenção é o de que nesses sete anos tudo aqui transcorreu com tranquilidade. Nunca tivemos nem um movimento grevista sequer. E sabe por que tudo deu certo? Porque, desde o começo, fizemos tudo privilegiando o planejamento, antecipando-nos aos eventuais problemas e prevendo soluções para aqueles que viessem a aparecer. Diálogo e prevenção, com planejamento – essa a receita. E, isso, num contingente de milhares de pessoas, em múltiplas frentes de trabalho.

E, agora, para onde seguir?

O engenheiro João Adolfo Oderich deu por encerrada, aí, a entrevista, que aqui reproduzo, com a mudança de uma palavra aqui, outra lá adiante, mas mantendo a fidelidade a todas as informações que passou. Ao final, a indagação: E agora, engenheiro, para onde vai?
A resposta veio simples, conforme é de sua postura: “Estou deixando esta obra e partindo para outra. Naturalmente parto levando na bagagem o peso da experiência obtida nos últimos sete anos de obras na Repar. Sigo para a Alberto Pasqualini – exatamente ali, onde a minha vida profissional começou.”

Propeno deu a partida às mudanças

As obras de reforma e modernização da Repar estão em fase de conclusão. O propeno, objeto das maiores alterações naquela refinaria, é material utilizado na produção do polipropileno, substância usada na indústria petroquímica para a produção de resinas aplicadas em peças de automóveis, utensílios plásticos, eletrônicos, remédios e produtos químicos. Para complementar a unidade do propeno foram construídas cinco novas esferas-tanques, três das quais destinadas ao armazenamento do produto e duas para propano, além de uma estação de carregamento rodoviário para a expedição do produto.

A primeira etapa das obras incluiu a montagem de uma caldeira com capacidade para 180 t/h de vapor e duas estações de energia elétrica com níveis de tensão de 230 kV e 60 kV. O vapor é utilizado nas unidades de processo e
na geração de energia elétrica.

A subestação de energia elétrica que opera com nível de tensão de 230 kV é alimentada em anel por duas linhas de transmissão da rede básica nacional de duas subestações diferentes da rede de energia estadual. A unidade possui dois transformadores com capacidade de 50 MVA que reduzem a tensão para 69 kV. Essa subestação, apontada como a primeira a operar dessa forma em uma refinaria da Petrobras, atende à demanda das atuais e futuras unidades de processo da Repar. A segunda subestação, que opera com nível de tensão em 69 kV, possui tecnologia avançada de isolamento a gás e é alimentada pelos dois transformadores da subestação de 230 kV. Tal sistema apresenta alto nível de confiabilidade e promove maior robustez ao projeto de modernização da refinaria.
O novo centro integrado de controle (CIC) conta com sistema de automação industrial e integra e centraliza todas as operações e atividades de controle e monitoramento das unidades de processo, utilidades, transferência e estocagem.

O trabalho de cada consórcio

Foram vários os consórcio e empresas particulares que estiveram, nos últimos sete anos, operando na Repar. Aqui, os trabalhos da maior parte deles:

Conpar. Este consórcio, formado pelas empresas Odebrecht, OAS e UTC, construiu oito unidades industriais, assim distribuídas: cinco plantas de gasolina e três de coque (combustível derivado do carvão betuminoso), com a realização simultânea do projeto executivo, da construção das obras civis e da montagem industrial.

Consórcio PMP. A tarefa para a construção daquelas oito plantas industriais, segundo cronograma considerado apertado, levou o Consórcio Conpar a reunir três empresas de projetos de engenharia, propondo-lhes a formação de um consórcio – o Consórcio PMP, formado pelas empresas Planave, Mana e Projectus. O consórcio atendeu a todas as exigências do consórcio construtor.

Consórcio CCPR-Repar. Este consórcio foi formado em junho de 2008 pelas empresas Camargo Corrêa e Promon, sendo responsável pela construção da nova Unidade de Coqueamento Retardado (UCR). Ele teve em vista a elaboração do projeto executivo e a construção, montagem, condicionamento e a assistência à pré-operação da unidade, além da construção das subestações SE-2212 e SE-6821 e das unidades auxiliares que formam o conjunto principal da planta.

Consórcio Passarelli-Gell-Repar. Ele participou da construção da unidade de tratamento de despejos industriais (UTDI-II, da Carteira de Coque e HDT de Diesel). Operou, para esse consórcio, como subcontratada, a empresa Intertechne, no período 2010-2011, desenvolvendo a elaboração do projeto civil, composto por memórias de cálculo e desenhos para a execução de fôrmas e armaduras das estruturas, envelopes elétricos, tubovias (pipeway), caixas e canaletas de drenagem e projeto e edificações do sistema.

Consórcio Interpar. Formado pela Setal, Mendes Júnior e MPE, construiu a rede de tubulações, cabos elétricos e de comunicação, bem como executou as instalações para coleta e tratamento de efluentes e armazenamento de produtos.
Dentre outras empresas operou também na Repar a Azevedo & Travassos, que venceu a licitação para executar as obras de preparação do sítio para as obras de ampliação. Ela abriu uma nova entrada para a unidade, uma pista, cercas de contenção, terraplenagem e sistema de rede contra incêndio, além de outros serviços essenciais. A Conenge Construções e Engenharia, de Santa Catarina, forneceu materiais, equipamentos e serviços, incluindo a elaboração do projeto executivo para obras civis e montagens eletromecânicas, condicionamento e assistência à pré-operação, partida, operação e manutenção da torre de resfriamento R-5303, sistema de água de máquinas etc. E outras empresas, tais como ABB/Cegelec/MHA, o consórcio Technip/Moncalm, Cesb, Confab, Usiminas, também estiveram presentes nas obras.

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