Offsite Park surge como alternativa à falta de mão de obra na construção civil

Offsite Park surge como alternativa à falta de mão de obra na construção civil

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O setor da construção civil brasileira enfrenta um duplo desafio: além da escassez crescente de mão de obra qualificada, convive com baixa produtividade e altos índices de desperdício nos canteiros de obras. Diante desse cenário, iniciativas voltadas à industrialização da construção ganham protagonismo.

É nesse contexto que surge o Offsite Park, lançado em Fortaleza pela Cooperativa da Construção Civil do Ceará (Coopercon), em parceria com o Instituto de Tecnologias de Industrialização das Edificações (ITIE). O projeto propõe uma resposta estrutural às limitações do modelo tradicional, fortemente dependente de mão de obra intensiva.

Segundo Gilberto de Freitas, diretor-geral do ITIE e coordenador do Offsite Park, a iniciativa nasce como reação direta à crise de mão de obra barata. “Os Offsite Parks são uma resposta direta à crise de mão de obra barata que afeta o setor, devido à falência de seu modelo tradicional em relação à retenção de talentos e geração de empregos para jovens operários”, afirma.

Industrialização da construção e novos perfis profissionais

O modelo do Offsite Park é adaptável e pode gerar dezenas de empregos diretos durante a implantação. No entanto, o foco principal está na geração de empregos durante a fase operacional, especialmente para jovens que vêm se afastando da construção convencional.

Para Freitas, há uma pressão crescente provocada pelas transformações sociais e pela mudança no perfil dos profissionais, o que exige a reorganização da estrutura de trabalho no setor.

Inspirado em modelos internacionais, o Offsite Park segue o conceito “fabricar para montar”. Componentes como kits hidráulicos, elétricos, banheiros prontos e fachadas passam a ser produzidos em ambiente fabril controlado e padronizado, sendo posteriormente transportados para montagem no local definitivo da obra.

“Construir, fabricar, montar e integrar. Essa é a nova realidade que os empreendedores devem assimilar. Acreditamos que o futuro da construção brasileira está na convergência entre o tradicional e o industrializado”, destaca Freitas.

Construção offsite como novo mercado tecnológico

A construção offsite representa um novo mercado de base tecnológica, distinto do modelo artesanal predominante no País. Segundo Freitas, é na cooperação entre fabricantes, construtoras e incorporadoras que surgirão novos modelos de negócio, com ganhos mútuos de eficiência, qualidade e produtividade.

Embora a construção industrializada já exista no Brasil, o Offsite Park do Ceará se destaca por ser um polo pioneiro dedicado exclusivamente a essa finalidade. A iniciativa foi apresentada durante a Expo Construção Offsite 2025 e lançada oficialmente em junho, em evento realizado na Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC).

O projeto conta ainda com o apoio da Inovacon e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Ceará. “O Offsite Park-CE é um polo pioneiro de industrialização da construção no Nordeste. Nosso planejamento inicial é atender às demandas das empresas ligadas à Coopercon”, afirma Freitas, que também preside a Associação Brasileira da Construção Off-site e Modular (Abcom).

Redução de custos e ganhos de produtividade

A estratégia inicial do Offsite Park prevê o fornecimento de kits hidrossanitários, elétricos, de gás e mecânicos, com possibilidade de expansão para fachadas e banheiros prontos.

Em relação à logística, Freitas destaca que ela faz parte da análise de viabilidade de qualquer processo de industrialização. “Integrar empresas em ambientes colaborativos gera uma redução de custos significativa”, afirma. Em larga escala, as projeções indicam redução de custos de até 20% e ganhos de produtividade que podem ser até oito vezes superiores ao sistema tradicional.

Modelo colaborativo e investimento inicial

O investimento inicial da primeira fase do projeto no Ceará é de aproximadamente R$ 600 mil, destinado à aquisição de máquinas e equipamentos para produção de kits, fachadas e banheiros prontos. A infraestrutura compartilhada com o Senai, parceiro da iniciativa, não está incluída nesse valor.

Segundo Freitas, o investimento tende a crescer conforme as construtoras adotem mais componentes industrializados. Atualmente, a fabricação de kits hidráulicos e elétricos não exige novos projetos, o que facilita a adoção do sistema.

A infraestrutura do Offsite Park será modular e escalável, com galpões a partir de 300 m². “Nosso maior desafio será formar profissionais e desenvolver projetos considerando a industrialização desde a concepção. A falta de uma mentalidade industrial é a principal barreira”, afirma.

Nesse sentido, o programa educacional “Inteligência Multiconstrutiva”, referência na América Latina, será estratégico para impulsionar o mercado. Colaboradores de empresas associadas à Coopercon CE já estão em processo de capacitação.

Governança, tecnologia e sustentabilidade

O diferencial central do Offsite Park está no modelo de negócio colaborativo, e não verticalizado. Na primeira fase, diversos empreendedores já aderiram à proposta, incluindo empresas como Iktel, Tecno Montagens, Ametal, Purcom Química, m-tec Brasil, Bauser, Emmeti Brasil e AltoQi.

A produção abrangerá diferentes métodos construtivos, combinados de forma híbrida e multiconstrutiva, como a união de light steel frame com estruturas metálicas tradicionais. Cada Offsite Park terá uma vocação produtiva e tecnológica própria, de acordo com as características regionais.

O Offsite Park-CE contará com fabricação digital, corte CNC, automação e integração com modelos BIM, promovendo ganhos de inovação e produtividade.

Além disso, o projeto incorpora práticas sustentáveis e foco em economia circular. A construção industrializada reduz significativamente a geração de resíduos e retrabalho. Segundo dados da Abrema, o Brasil produziu cerca de 44,46 milhões de toneladas de resíduos de construção e demolição em 2023.

Expansão nacional e perspectiva de crescimento

A capacidade produtiva do Offsite Park-CE dependerá da adesão das construtoras, do volume de obras públicas e privadas e da composição final do polo empresarial. Em países industrializados, uma edificação pode atingir até 90% de industrialização.

“Estamos no início dessa jornada, mas ela é inevitável. Diante do enorme déficit habitacional, vejo um crescimento exponencial da habitação de interesse social por meio da parceria dos Offsite Parks com as construtoras”, avalia Freitas.

O projeto já nasce com perspectiva de expansão em 2026, com implantação de Offsite Parks em diversas regiões do Brasil e da América Latina. Iniciativas estão em andamento no Rio de Janeiro, Paraná, Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e no Chile.


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