Tragédia consentida

São dois fatos, dentre milhares. Mostram, a exemplo de outros, em tempo e em escala diferentes, como o governo, em suas várias instâncias, trata a população.

Primeiro: o Morro do Bumba, em Niterói. Fora um imenso, extraordinário lixão. Uma montanha de lixo, conforme a imprensa documenta. Embora, por conta disso e de outros fatores geológicos, o local fosse uma área de risco, a administração pública local deixou que ali uma camada pobre da população construísse suas casas.

O geólogo Adalberto da Silva, professor da Universidade Federal Fluminense, lembra que um estudo já advertia, há cerca de seis anos, para a instabilidade do morro. Ocupá-lo seria caminhar para a morte coletiva. E, no entanto, deixaram que a ocupação continuasse.

O estudo, entregue às autoridades depois que a ocupação já era um fato consumado, ressaltava a necessidade de haver, ao menos, um monitoramento periódico do terreno. Pelos dados da tragédia, com dezenas de mortos, monitoramento não houve. O que se observou foi uma tragédia consentida.

Segundo: Verba para prevenção contra enchentes. No ano passado, o Rio de Janeiro não viu a cor de um centavo sequer do dinheiro que a Defesa Civil Nacional deveria colocar nas mãos do Estado. Sabe-se agora que 90% dos recursos liberados em 2009, pelo Ministério da Integração Nacional, então sob o comando do deputado Geddel Vieira Lima, foram destinados a municípios da Bahia. Outros municípios de outros Estados, por exemplo RJ e SC, que tiveram graves problemas, com desastres e mortes em razão de chuvas excepcionais, foram deixados de fora. O resultado é o que se está vendo: o lixão virou um túmulo coletivo.

Mas não se pode deixar de lado outro registro: a coluna semanal do senador José Sarney, na FSP de hoje (9). Ele faz uma Ode ao bigode. Enquanto seu Estado, o Maranhão, priva das maiores carências – ali faltam escolas, faltam hospitais, faltam estradas, falta tudo – ele se delicia a falar do seu próprio bigode. Trata-se, segundo ele, de um bigode que "resistiu a tudo e a todos".

Esse é o Brasil.

Fonte: Estadão

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