Aviação impõe limites à ponte estaiada do BRT na Ilha do Governador

Obra mais complexa do Transcarioca dará acesso ao terminal de integração na Ilha do Fundão

Augusto Diniz – Rio de Janeiro (RJ)

A ponte do BRT Transcarioca, ligando a Ilha do Governador à Ilha do Fundão, teve de atender a normas da aviação para ser construída, já que uma da cabeceiras de pista do Aeroporto do Galeão fica próxima à estrutura. Obra de arte principal do sistema com cerca de 1 km de extensão, o vão de 400 m cruzando o canal da Baía de Guanabara é estaiado com tabuleiro metálico — atualmente se processa o lançamento das aduelas metálicas.

A estrutura desembocará na Ilha do Fundão em um terminal de integração, que terá uma estação do BRT (Bus Rapid Transit) e local onde linhas de ônibus alimentadores farão ponto final. O terminal, localizado ao lado do Hospital Universitário do Fundão, será ainda construído e substituirá todos os miniterminais hoje existentes naquele bairro do Rio de Janeiro.

O BRT Transcarioca, corredor que ligará o Aeroporto Internacional do Galeão à Barra da Tijuca, está previsto de ser entregue em março de 2014, segundo a Secretaria Municipal de Obras do Rio de Janeiro, responsável pelo projeto. Ele terá 39 km de extensão e 45 estações – incluindo uma para cada terminal do aeroporto internacional do Rio. O sistema deve atender a 400 mil pessoas/dia.

O Transcarioca é o mais importante BRT implementado na cidade, por atravessar populosa região da Zona Norte, incluindo os bairros de Jacarepaguá, Madureira, Penha, Olaria e Ramos. Outros BRTs são o Transoeste (em funcionamento), Transolímpica (em construção) e Transbrasil (licitação da obra prevista para o final deste ano).

A construção do BRT Transcarioca se divide em dois lotes: Barra da Tijuca-Penha – com obras sob responsabilidade da Andrade Gutierrez – e Penha-Aeroporto do Galeão – Consórcio Transcarioca, integrado pela OAS (líder), Carioca e Contern. O custo total da obra é de R$ 1,6 bilhão. Hoje, há 1.600 operários trabalhando somente no lote Penha-Galeão.

Principal intervenção

A ponte estaiada do BRT Transcarioca na Ilha do Governador, cujo projeto é da empresa Enescil, é a etapa mais importante do sistema e fica no âmbito dos trabalhos do Consórcio Transcarioca.

A ponte teria um mastro, mas depois definiram por dois por conta da proximidade com o Aeroporto Internacional do Galeão. É que a ponte suportada por um mastro invadiria o chamado cone de aproximação (área de tráfego aéreo) do terminal aeroportuário, conta o engenheiro Alzamir Araújo, da Secretaria Municipal de Obras do Rio de Janeiro, responsável pelo Lote 2 de 11 km (Penha-Galeão) do projeto.

Assim, a ponte, que teria um mastro de pouco mais de 100 m de altura, passou a ter dois, com cerca de 60 m de altura cada, cujos pilares se fecham no topo, dando estilo gótico à estrutura. Cada mastro suportará 200 m de tabuleiro, sendo 100 m de cada lado – são no total 64 estais, 32 em cada mastro. O trecho estaiado da ponte, que terá duas faixas (uma para cada sentido) e mais o acostamento, tem 400 m.

O vão estaiado é metálico – peso total de 7.230 t de aço – e as peças estão sendo usinadas pela Martfer. Serão 32 aduelas, variando de 60 t a 80 t, que estão sendo cuidadosamente instaladas já apoiadas pelos mastros.

Uma treliça lançadora posiciona as aduelas da ponte, depois que elas são içadas de balsa localizada no mar da Baía de Guanabara. O processo de colocação das aduelas tem avançado ao mesmo tempo nos dois mastros.

O gabarito da ponte é de 12 m em relação à maré média naquele local. O trabalho de fundação dos mastros atingiu 18 m de profundidade – os estudos de fundação foram da Geofortes. Cada mastro tem 12 estacas. Há quatro dolphins – dois de cada lado do mastro da ponte – para proteção de embarcações que circulam naquele trecho da baía.

Na época da concretagem dos mastros da ponte estaiada, a complexidade geométrica, com inclinações positivas e negativas, exigiu-se a implantação de um sistema especial fornecido pela Mills, o SM, que permite com precisão a regulagem e o nivelamento das plataformas de trabalho na medida em que as execuções avançam.

Área de aterro

O restante da ponte de 600 m, de estrutura pré-moldada, foi construída sobre o mar e ao lado de uma ponte já existente para tráfego de veículos e da estrada que margeia a baía e que dá acesso ao aeroporto e ao bairro da Ilha do Governador.

No final da ponte na Ilha do Governador, para fazer a ligação da estrutura com terra firme, dando prosseguimento ao traçado da linha até o aeroporto, no trecho de área aterrada as estacas de fundação foram cravadas com martelo de fundo. De acordo com o engenheiro Alzamir Araújo, não foi possível utilizar uma perfuratriz normal porque ela movimentaria as pedras do enrocamento e criaria instabilidade no solo.

A construção da ponte, erguida paralela à costa, também teve de respeitar o cone de aproximação do Aeroporto do Galeão. Para aquele trecho, as construtoras envolvidas nas execuções somente poderiam trabalhar com equipamento de até 9 m de altura – a área é um ponto crítico de aproximação de aviões e a cabeceira da pista do aeroporto não dista mais de 500 m do local.

Como as empresas estavam tendo muitas dificuldades para realizar as obras por conta de ter apenas 9 m de vão livre para trabalhar naquele trecho – a ponte paralela à costa é composta de 21 vigas pré-moldadas com cerca de 30 m cada que exigia ampla área de manobra -, o consórcio fez uma solicitação especial à Infraero (administradora do Galeão) para operar equipamentos de maior porte do que seria permitido, conta o engenheiro Jorge Souza, responsável de produção da construtora OAS. A solução encontrada com a Infraero foi recuar em 300 m o trecho da pista do Galeão utilizado para pousos e decolagens. A operação especial de recuo de pista durou 45 dias em julho e agosto.

A construção dos mastros da ponte estaiada apresentou também um desafio logística. Trabalhou-se no mar com quatro balsas flutuantes para realização das fundações. Além disso, usou-se um porto auxiliar na Ilha do Fundão para dar apoio às embarcações que transportavam equipamentos, tiravam entulhos e carregavam máquinas. Mais de 15 flutuantes foram usados nesse período, relata o engenheiro da Secretaria Municipal de Obras.

Obras de arte

A construção da ponte estaiada na Ilha do Governador não é a única grande obra de arte feita para a passagem do BRT Transcarioca. No trecho Penha-Galeão, há uma ponte sobre linha férrea em balanço sucessivo, que está em estágio de fundação, e um arco estaiado que cruza a Avenida Brasil cuja construção já tem os pilares erguidos. No trecho Penha-Barra também está em construção uma ponte estaiada na Avenida Ayrton Senna, na Barra da Tijuca.

Algumas estruturas já inauguradas do BRT Transcarioca ao longo de seus 39 km incluem o mergulhão Clara Nunes, no Campinho, a ampliação do viaduto de Madureira (Negrão de Lima), ampliação do viaduto João XXIII, na Penha, o mergulhão Billy Blanco, na Barra (próximo à Cidade das Artes), o mergulhão na altura do Hospital Municipal Lourenço Jorge, também na Barra, e a ponte sobre o canal do Fundão.

Ficha Técnica

Ponte sobre a Baía de Guanabara – BRT Transcarioca

Extensão: 1 km (aproximadamente) – sendo 400 m estaiada

Responsável: Secretaria Municipal de Obras do RJ

Projeto: Enescil

Construtora: OAS (líder), Carioca e Contern

Fonte: Revista O Empreiteiro

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