Brasil não precisa desmatar para plantar

O Brasil pode dobrar a área agrícola nacional somente com a recuperação das pastagens degradadas para uso da agricultura. Isso porque, atualmente, a área agrícola total brasileira é próxima a 70 milhões de hectares e que 30% dos 200 milhões de ha de pastagens estariam degradadas. Desta forma, seria possível atender a demanda crescente por biocombustíveis e grãos, sem ampliar o desmatamento. A conclusão é da pesquisa da WWF Brasil, apresentada durante o Fórum Internacional de Seguros para Jornalistas, em São Paulo.

O desmatamento, no caso do Brasil, é o maior responsável pela emissão de gases de efeito estufa. “Se o objetivo é a produção de biocombustíveis com a melhor relação fixação/emissão de gases de efeito estufa, devemos fazê-lo em áreas previamente abertas, seja através do aumento da produtividade de áreas já estabelecidas, seja através da ocupação de áreas degradadas ou de áreas ocupadas por outras culturas”, destaca o coordenador do Programa de Agricultura e Meio Ambiente da WWF Brasil, Cássio Franco Moreira.

Entre 1995 e 2008, a produção mundial de etanol aumentou de 30 bilhões de litros para 80 bilhões de litros, enquanto a produção de biodiesel aumentou de 249 milhões de litros em 1995 para mais de 14 bilhões de litros em 2008. No Brasil, o aumento do consumo doméstico e das exportações contribuiu para que a produção de etanol crescesse de 12,6 bilhões de litros em 1995 para quase 27 bilhões de litros em 2008, enquanto a produção de biodiesel brasileira, iniciada em 2005, atingiu 1,17 bilhões de litros em 2008.

Segundo Moreira, ao contrário de outros importantes players mundiais, que já chegaram a seu limite de área e produtividade, o Brasil ainda tem muito a avançar. O país tem terras agrícolas em potencial em uma escala que nenhum outro país possui, além de água em abundância, condições climáticas favoráveis, domínio de tecnologia de agricultura tropical e uma agroindústria avançada. “O desenho de cenários para a ocupação de terras no Brasil pressupõe, portanto, tecer considerações sobre os estímulos de demanda derivados do maior consumo de alimentos e da procura crescente por biocombustíveis, de um lado, e sobre a capacidade dos diversos países atenderem a maior procura, seja pelo aumento da produtividade, seja pela ocupação de novas áreas”, declarou.

O balanço entre oferta e demanda dos principais produtos no mundo gera uma demanda residual que, ao lado da demanda doméstica, representa o motor do agronegócio brasileiro. Estímulos econômicos dessa natureza tornam rentável a exploração de novas terras para a agropecuária, seja pela conversão de áreas degradadas, como pastagens de baixa produtividade ou pela ocupação de novas áreas por meio do desmatamento. “Não bastasse o aumento na demanda por biocombustíveis, o forte crescimento econômico por que passou o mundo nos últimos anos contribuiu para elevação da renda, sobretudo das chamadas economias emergentes. Como conseqüência, a demanda de alimentos também passou por forte crescimento”, explicou o especialista.

Nos últimos 10 anos (1998 a 2008), o mundo cresceu em média 3,1% ao ano. Neste período, a renda per capita mundial saltou de US$ 5.678 para US$ 7.382 e o consumo de grãos aumentou de 2,2 para 2,6 bilhões de toneladas, enquanto a área cultivada mundialmente com grãos aumentou em 35,7 milhões de hectares, de 890,8 milhões de hectares em 1998 para 926,5 milhões de hectares em 2008.

O mundo deverá dobrar a produção de alimentos em 50 anos para alimentar uma população de 9 bilhões de pessoas. “Nesses termos, para atender não apenas a demanda de alimentos, mas também a crescente demanda por biocombustíveis, o aumento do uso de tecnologia e os ganhos de produtividade não serão suficientes; há de se considerar também a necessidade do aumento da área cultivada mundial”, acredita Moreira.

Fonte: Estadão

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