Da inteligência artificial à robótica na construção

Da inteligência artificial à robótica na construção

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Na Cersaie 2026, realizada em setembro, em Bolonha, na Itália, a digitalização ganhou aplicações que ultrapassam o desenvolvimento de produtos. Sistemas capazes de transformar imagens em estruturas tridimensionais dividiram espaço com ferramentas de realidade aumentada e equipamentos robóticos voltados à instalação de revestimentos. As demonstrações revelaram como novas tecnologias começam a aproximar a criação e a fabricação dos revestimentos cerâmicos ao trabalho de execução no canteiro de obras.

Tecnologia ao lado do instalador

No Pavilhão 19, a área dedicada ao assentamento cerâmico recebeu o nome curioso de The Game_, num programa promovido pela associação italiana Assoposa, com curadoria tecnológica do INDEXLAB, laboratório do Politecnico di Milano. O espaço mostrou como recursos digitais poderiam auxiliar os profissionais em diferentes etapas da instalação.

Uma das experiências começava pelo levantamento digital de paredes e pisos.

A partir dessas informações, o sistema elaborava a paginação e calculava os cortes necessários. As linhas eram projetadas diretamente sobre as peças, enquanto recursos de realidade aumentada orientavam seu posicionamento.

Outra demonstração permitia aos visitantes experimentar ambientes virtuais em escala real, modificando revestimentos, formatos e juntas antes da execução.

Já dois braços robóticos colaborativos auxiliavam na movimentação e no corte de placas cerâmicas, inclusive em geometrias especiais, preparando elementos personalizados para instalação.

As soluções procuravam responder a desafios conhecidos dos canteiros, como diferenças entre projeto e execução, cortes complexos e dificuldades de manipulação de grandes formatos.

Fora do ambiente experimental, a robotização também aparece na oferta de equipamentos para a construção. A DMX Robotics, divisão da DMX Asia, de Singapura, apresenta em seu site um sistema automatizado para assentamento de pisos cerâmicos. De acordo com as especificações divulgadas pela empresa, o equipamento pode posicionar até 240 peças por dia, trabalhar com formatos quadrados de até 1,20 por 1,20 m e alcançar precisão de junta inferior a 0,3 mm.

Da imagem à estrutura tridimensional

Enquanto a robótica avançava sobre a execução, a italiana Digital Design apresentava uma aplicação de inteligência artificial voltada à criação de superfícies cerâmicas. A empresa, especializada em design de superfícies e tecnologias digitais, demonstrou um sistema treinado com imagens bidimensionais associadas a estruturas tridimensionais reais, previamente escaneadas. “Ensinamos à IA a transformar a cor em estrutura”, explicou William Prampolini, integrante da equipe da Digital Design, durante a apresentação acompanhada pela reportagem.

A tecnologia integra o projeto Digital Infinito, Le Cave Virtuali, que explora a criação de revestimentos a partir de referências digitalizadas de materiais naturais. A pesquisa tem antecedentes no DDGAN, sistema generativo desenvolvido pela empresa em parceria com o AImageLab, da Universidade de Modena e Reggio Emilia. O DDGAN utiliza fragmentos digitalizados de mármores, madeiras e outros materiais para gerar novas imagens com características semelhantes às referências originais. Já a demonstração apresentada na Cersaie avançava da criação gráfica para a geração de estruturas tridimensionais.

A próxima etapa da pesquisa busca permitir que a IA também determine a distribuição de materiais, como granilhas, responsáveis pelos efeitos físicos da superfície. A proposta pode reduzir a necessidade de grandes amostras naturais para o desenvolvimento gráfico, embora seus benefícios ambientais ainda dependam de avaliação quantitativa. “Na natureza temos pouco; na IA temos muitíssimo. Então a escolha será ainda mais difícil”, observou Prampolini, ao destacar o papel dos profissionais na seleção das alternativas geradas.

A IA na indústria brasileira de revestimentos

No Brasil, a inteligência artificial já participa do desenvolvimento de revestimentos, embora com aplicações diferentes daquelas apresentadas pela Digital Design.

Na Castelatto, fabricante de revestimentos cimentícios, a tecnologia acompanha o trabalho dos designers desde a pesquisa de tendências até a visualização de novos produtos. “A inteligência artificial atua como assistente do time de design, desde a análise de tendências até a visualização das propostas”, explica Caroline Oliveira, especialista em design e comunicação da Castelatto.

A equipe utiliza fotografias de feiras de design, desenhos feitos à mão e texturas do próprio portfólio para explorar novas possibilidades. A partir dos rascunhos, a ferramenta produz imagens que simulam volumes tridimensionais e permitem avaliar diferentes combinações antes da fabricação dos protótipos.

A linha Dive-in ilustra essa aplicação. Inspirada na ideia de mergulho, reúne Brick, uma peça retangular, e Stick, elemento filetado derivado do desenho negativo de Brick. A IA auxiliou na simulação de como os traços bidimensionais se comportariam em uma volumetria tridimensional, mas o conceito e as decisões criativas permaneceram com a equipe. “O designer ganha autonomia para levar seu desenho até uma primeira visualização tridimensional, sem depender de outra equipe de 3D nessa etapa”, afirma Caroline.

A imagem gerada, entretanto, não constitui um arquivo final de fabricação. A proposta ainda precisa ser traduzida em softwares de modelagem, passar pela definição das dimensões reais e avançar para a confecção artesanal dos moldes e os testes com peças em gesso e concreto. O ciclo completo de desenvolvimento permanece próximo de um ano. O ganho está principalmente na agilidade da análise de tendências e na autonomia dos profissionais para preparar simulações e avaliar propostas antes da prototipagem física.

Na Portinari, marca da Dexco, a aplicação da inteligência artificial está concentrada na visualização e na avaliação interna de produtos. A ferramenta é utilizada para criar ambientações digitais, inclusive de coleções previstas para lançamento em 2027, permitindo observar como os revestimentos se apresentam nos espaços. “A IA amplia os recursos de visualização das propostas e apoia sua avaliação interna, enquanto o designer mantém a responsabilidade pela pesquisa, pela criação e pelas decisões que dão identidade a cada coleção”, explica Tatiana Rech Vergara, coordenadora de design da Portinari.

A distinção é importante porque a tecnologia não atua diretamente na criação dos desenhos, relevos ou texturas das peças. Essas características continuam relacionadas à pesquisa de materiais e aos processos industriais empregados pela marca. Entre eles está o Deep Design, que permite sincronizar o desenho gráfico com o relevo físico do revestimento, conferindo profundidade a veios e nuances inspirados em materiais naturais. “O Deep Design permite a correspondência entre o desenho gráfico e o relevo da superfície”, afirma Tatiana.

Na coleção Luce di Luna Serena, a tecnologia produz diferentes volumes e texturas, com aplicação de granilhas de vidro para acentuar a profundidade dos veios. A Nex Concreto também utiliza o processo, mas nenhuma das duas deve ser apresentada como uma superfície criada por inteligência artificial.

O repertório da Portinari inclui referências naturais e artesanais. Limestone Eterna, por exemplo, é inspirada na pedra calcária, enquanto Carpigiano remete à escaiola, técnica italiana de reprodução da aparência do mármore.

As experiências da Castelatto e da Portinari mostram diferentes funções para a IA. Na primeira, ela amplia as possibilidades de simulação das formas. Na segunda, facilita a apresentação e a avaliação dos produtos em ambientes. Em ambas, a concepção das superfícies permanece sob responsabilidade dos designers.

Da demonstração à obra

As experiências apresentadas na Cersaie revelaram diferentes estágios de transformação tecnológica. Na indústria, a IA amplia as possibilidades de criação e simulação, enquanto equipamentos digitais já executam operações complexas de fabricação. Nos canteiros, realidade aumentada e robótica começam a oferecer novas ferramentas à equipe que vai assentar os revestimentos.

A aplicação em larga escala dependerá de ganhos comprovados de produtividade, qualidade e custos, além da integração entre equipamentos e profissionais.

Entre a superfície concebida digitalmente e o revestimento instalado na obra, o desafio deixa de ser apenas desenvolver novas tecnologias. Passa a ser incorporá-las aos processos reais do canteiro de obras.


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