Nova ordem desafia marcas tradicionais

A crise que estremeceu os alicerces da economia global, apontando para o surgimento de uma nova ordem mundial, atingiu em cheio a indústria de base e de bens de capital, pegando os fabricantes nacionais de máquinas para construção e equipamentos agrícolas de calças curtas. Altos estoques parados em pátios de fábricas, equipamentos importados esperando encomendas nos portos, retração de demanda, aperto de crédito e taxas de juros poucos estimulantes são alguns dos problemas enfrentados pelas fábricas brasileiras. Se não bastassem, esses problemas se somam a um grave desafio que veio pra ficar: a concorrência com os equipamentos importados da Ásia, que competem de forma agressiva, com preços bem menores que os praticados por aqui.
Diante desse cenário, era de se esperar que o governo, que tem nas grandes obras de infraestrutura – que por sua vez depende diretamente dessa indústria – um forte gerador de empregos e indutor de desenvolvimento econômico, passasse a oferecer estímulos à essa indústria, de forma a minimizar os impactos da crise. Mas não é o que está acontecendo.
De acordo com Antonio Carlos Bonassi, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Rodoviárias (CSMR), da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a atenção que o governo federal dá para este segmento da indústria é zero. "Não contamos com o mesmo respaldo oficial que contam as indústrias de automóveis, caminhões e até de motos. Até setembro do ano passado esse apoio não fazia muita falta, porque estávamos vindo muito bem, com forte participação das exportações. Mas com a crise esse cenário mudou. Embora não tenha havido grande impacto no mercado doméstico, registramos um grande número de cancelamentos de encomendas para exportação."
Bonassi diz que atualmente os volumes de vendas no mercado externo estão até acima dos índices registrados em 2007. "Nem estamos considerando os números de 2008, porque aquele foi um ano atípico, que distorce a curva de desempenho do setor, com picos de vendas que tão cedo não se repetirão. Mas nas exportações a queda foi feia, afetando drasticamente os resultados da indústria".
Ele revela que com muito esforço a indústria de máquinas conquistou-se a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que antes era de 5%. Mas que isso não se constitui, atualmente, em estímulo relevante, diante dos grandes descontos que os fabricantes são obrigados a dar, para vender seus produtos. Há casos em que as empresas estão trabalhando com 20% de desconto, zerando a margem de lucro, para por máquina na rua.
Para Bonassi, impacto positivo teria, de fato, a adoção de medidas, por parte do governo, para destravar a concessão de créditos para a aquisição das máquinas. "Uma idéia seria a criação de um programa de financiamento a juros baixos, para a aquisição de máquinas, de forma simplificada e a juros baixos, semelhante ao que foi criado pelo governo para a aquisição de tratores, renovação da frota de ônibus e outras".

Burocracia e falta de crédito

Outro pleito que vem sendo encaminhado pela Abimaq junto às autoridades fiscais do País é a simplificação da estrutura dos impostos. "Hoje onera muito as despesas o fato de termos que recolher um número muito grande de impostos, cada um com suas características, independentemente do seu valor. Uma simplificação dessa estrutura tributária já seria um bom começo e ajudaria bastante", analisa.
"Além disso, os fabricantes de máquinas têm, em geral, créditos acumulados de impostos, como o Imposto sobre Circulação de Mer-cadorias e Prestação de Serviços (ICMS), que poderiam ser usados para abatimento de outros tributos, de forma simplifi cada, ou até mesmo como redução dos custos para a compra de matéria prima. Mas a burocracia acaba embaraçando, retendo os créditos que não são liberados".
Para o diretor Comercial da Case, Roque Reis, ainda há algumas vantagens a serem conquistadas, no âmbito da redução de tributos. "Estamos empenhados na redução de PIS/COFINS. Recentemente, os representantes da indústria do setor, através da Abimaq, elaboraram uma carta para o Ministro do Desenvolvimento, com várias sugestões nesse sentido. O PIS/Cofins, juntos somam cerca de 6%. Mas ainda não tivemos sucesso. Além disso tem o ICM, que varia de 7% a 12%, dependendo da região. Mas se trata de um imposto estadual. Portanto, não adianta querer fazer nada no âmbito federal, onde as decisões acontecem meio que por decreto.
Roque Reis concorda com o presidente da CSMR que a questão do crédito é fundamental para a indústria nesse momento. "De imediato, na minha opinião, isso sim, traria verdadeiro impacto sobre as vendas. Os bancos, depois do susto que levaram, estão muito rigorosos na análise dos riscos. Isso serve pra qualquer banco, inclusive para os bancos próprios das empresas. A avaliação dos riscos, hoje, além de muito demorada, é excessivamente detalhista. Por qualquer coisinha o candidato ao crédito tem sua proposta recusada. E oferecer a máquina como garantia do financiamento já não é grande diferencial. Se o cliente não paga, você até pode recuperar a máquina. Mas se o mercado de máquinas usadas não está comprador, você corre o risco de fica com mais uma máquina usada encalhada. É difícil repassá-la prá frente", analisa. Ele afirma que hoje tem muita máquina usada no mercado, resultado de renegociação de dívidas das pequenas empresas prestadoras de serviços na área de mineração, por exemplo, que perderam contratos. "Muitas empresas tiveram que se descapitalizar, pra se sustenta, e a saída foi por a máquina usada à venda."
Quando a fabricante tem banco existe um pouco mais de facilidade de negociação e a relação de confiança é muito maior. Mas mesmo os bancos próprios têm seus limites. "A análise de risco no banco da Case é tão rígida ou até maior que em um banco comercial. No nosso caso, temos duas linhas de atuação: a agrícola e a de construção. No passado, a área agrícola deu muita dor de cabeça, com elevados índices de inadimplência. Isso levou nosso banco a travar a concessão de crédito. Mas na área de construção, há pelo menos oito anos não há sem nenhum atraso. Não há inadimpl&ec
irc;ncia", garante Roque Reis.
Yoshio Kawakami, presidente de Volvo Construction Equipment Latin America, lembra que as aquisições através da Finame tem grande peso no volume de negócios do setor. "O BNDES tem apoiado a comercialização de máquinas nacionais através do Finame. Mas existe a necessidade de melhorar o custo do crédito também aos produtos importados pelos fabricantes instalados no Brasil, uma vez que neste setor há uma permanente necessidade de importação de determinados produtos para atender as demandas do mercado (em virtude da grande variedade de modelos de equipamentos). Esta abordagem seria válida pelo benefício de custos para os empreiteiros e pelo benefício de manutenção da atividade darede de serviços e distribuição de equipamentos, que também representa importante atividade econômica e um número significativo de profissionais contratados pelo setor" defende Kawakami.
Para ele, a redução dos custos de crédito e financiamentos para máquinas de construção poderia ocorrer através da redução ou eliminação do spread, que incorre sobre os custos do financiamento oferecido pelo BNDES, como no caso do Finame.
Outro sério desafio para a indústria, segundo o executivo da Case, é uma forte tendência de migração para a locação de máquinas e equipamentos. "Por conta ainda de uma grande insegurança na economia, o ideal é não imobilizar capital. E a empresa de rental, quando compra, compra em pacote. Ela faz um leilão, e os fornecedores oferecem o desconto que é possível. Eu diria que, hoje, para o produto importado, todo mundo está trabalhando com margem de lucro zerado e equalizando taxa", afirma.

Esperança no PAC

Além da possibilidade de destravar o crédito, Antonio Carlos Bonassi deposita grande esperança na efetiva execução dos projetos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, cujo andamento, em sua opinião, até hoje, deixou muito a desejar. "Com a aceleração das obras, esperada para a partir do segundo semestre deste ano, a nossa expectativa é de que haja um aquecimento no mercado nacional de máquinas e equipamentos para construção." Roque Reis reconhece que as obras do PAC, embora ainda fora do ritmo desejado, estão sustentando os negócios na área da construção no Brasil. "Tanto que no Nordeste,onde o PAC está mais forte, não registramos queda nas vendas. Não houve crise. Por outro lado, na região Norte o negócio está complica do. O volume de vendas caiu bastante faz algum tempo e não tem se recuperado. Já no mercado de São Paulo, mesmo sem PAC, pelas obras que estão sendo realizadas pelo governo do estado, a situação está bastante razoável. Em Minas Gerais, o mercado sofreu bastante e quase que parou por causa da crise na mineração".

Importados X Produtos nacionais

No mercado globalizado é natural que exista um maior intercâmbio comercial em todos os segmentos que apresentem oportunidades de negócios. No mercado de máquinas e equipamentos para construção não é diferente. O que se tem observado é uma crescente invasão de fabricantes asiáticos no Brasil. Os chineses ainda não representam um volume de vendas muito significativo. Eles começaram a entrar mais fortemente no segundo trimestre do ano passado. Mas quem atacou fortemente foram os coreanos. Ambos vêm ganhando espaço, competindo de forma agressiva, com preços bem menores que os praticados por aqui.
Não há estatísticas confiáveis com relação à participação deles no mercado nacional. Sabese, no entanto, que no ano passado, o mercado brasileiro representou algo em torno de 14.500 máquinas. Os números são da Abimaq, que não incluem coreanos nem chineses. No entanto, pelos cálculos da Association of Equipment Manufacturers (AEM), dos Estados Unidos, que colhe informações do mundo todo, esse volume foi de 18.500 máquinas. A diferença, de 4 mil máquinas, supõe-se que seja a participação das coreanas e chinesas.
Para Roque Reis, não há como competir com as asiáticas no preço. O diferencial a ser buscado pelos fabricantes estabelecidos no Brasil, em sua opinião, seriam qualidade, tecnologia de ponta, assistência técnica e oferta de rede de distribuição e manutenção. "Os fabricantes locais têm sua própria rede de distribuição, já instalada há vários anos, nas principais cidades do País. Já conhecem as necessidades dos clientes, têm disponibilidade de peças e serviços. Isso tudo garante um valor de revenda maior na hora da troca do equipamento. Além do mais, os produtos nacionais podem ser adquiridos através do Finame e os grandes fabricantes têm suas próprias instituições financeiras. Tudo isso gera facilidade na hora da compra e da revenda", analisa.
O executivo da Case não acredita que os preços praticados pelos chineses, se manterão tão baixos por muito tempo. "Creio que mais cedo ou mais tarde haverá uma pressão por parte da sociedade chinesa, pela melhoria das condições de trabalho da população, o que se refletirá nos custos da mão-de-obra. Além disso, estamos assistindo a uma migração de empresas chinesas que estão se instalando em outros países. E nas novas bases eles não vão conseguir reproduzir os custos que tem lá na China. Tudo isso deve impactar nos custos de produção. Mesmo na China o mercado tende a atingir a estabilidade de volume. Lá a faixa de consumo se situa no patamar de 200 mil máquinas/ano. Em primeiro lugar vêm as escavadeiras, em segundo, as pás. O mercado de retro na China praticamente não existe".
Para Yoshio Kawakami, o equipamento importado da Ásia já faz parte da oferta de produtos de fabricantes instalados no Brasil há alguns anos. "Este já comprovou a sua confiabilidade e a sua importância no mercado. A origem do produto não representa preocupação ou uma concorrência desleal. Mas, na falta de regulamentação de normas de Emissão de Gases e Ruídos e de normas de segurança para equipamentos de construção, poderia haver um prejuízo ao mercado. Aspiramos por uma condição de mercado que corresponda a uma sociedade moderna e responsável no trato destas questões e que os participantes do mercado atendam a normas comuns, já efetivas nos principais mercados do mundo.
Roque Reis não concorda com Kawakami quando o assunto é o nível da tecnologia embarcada nos equipamentos asiáticos. "Uma discussão que se tem travado hoje é: por que eu vou querer tecnologia, nesse momento? Para responder isso basta observar onde o
mercado está crescendo.
Ele está em queda nos Estados Unidos e na Europa, onde vigoram as normas de emissão de poluentes Tier 3 e Tier 4. E está crescendo no Brasil, China, Índia, África, onde não há normas de emissões e onde, portanto, não há necessidade de tanta tecnologia. Então, as máquinas que têm possibilidade de crescimento são justamente as que não têm tanta tecnologia. Ou então, se você tem necessidade de tecnologia embarcada você tem custo elevado."
Ele explica que na medida em que o fabricante diminiu os volumes de produção dessas máquinas com tecnologia mais avançada, diminiu também a economia de escala e aumenta os custos de produção, que são repassados para o produto final.
Para ele, a redução do ritmo de incorporação de novas tecnologias nas máquinas é uma das conseqüências imediatas dessa nova ordem mundial. Nesse momento, a prioridade passa a ser desovar os estoques mundiais. No último Intermat, o que se observou foi que todas as grandes fabricantes estão lançando tecnologias híbridas, que estarão disponíveis a partir de 2010. A Case, por exemplo, mostrou uma escavadeira da Sumitomo que gera energia quando está girando e parando. O que se tem, no entanto, é que o pay back desses equipamentos, considerando a economia de combustível, é três anos. Eu acho muito tempo, se considerarmos que o tempo de vida útil de uma dessas máquinas, na mineração, por exemplo, é de quatro anos. Creio que essa tecnologia ainda terá que reduzir muito ainda do seu custo adicional, para se tornar atrativa. Tem que se trabalhar com um pay back de um ano e meio, no máximo. Senão ninguém vai investir numa coisa dessas".

Importados X Produtos nacionais

No mercado globalizado é natural que exista um maior intercâmbio comercial em todos os segmentos que apresentem oportunidades de negócios. No mercado de máquinas e equipamentos para construção não é diferente. O que se tem observado é uma crescente invasão de fabricantes asiáticos no Brasil. Os chineses ainda não representam um volume de vendas muito significativo. Eles começaram a entrar mais fortemente no segundo trimestre do ano passado. Mas quem atacou fortemente foram os coreanos. Ambos vêm ganhando espaço, competindo de forma agressiva, com preços bem menores que os praticados por aqui.
Não há estatísticas confiáveis com relação à participação deles no mercado nacional. Sabese, no entanto, que no ano passado, o mercado brasileiro representou algo em torno de 14.500 máquinas. Os números são da Abimaq, que não incluem coreanos nem chineses. No entanto, pelos cálculos da Association of Equipment Manufacturers (AEM), dos Estados Unidos, que colhe informações do mundo todo, esse volume foi de 18.500 máquinas. A diferença, de 4 mil máquinas, supõe-se que seja a participação das coreanas e chinesas.
Para Roque Reis, não há como competir com as asiáticas no preço. O diferencial a ser buscado pelos fabricantes estabelecidos no Brasil, em sua opinião, seriam qualidade, tecnologia de ponta, assistência técnica e oferta de rede de distribuição e manutenção. "Os fabricantes locais têm sua própria rede de distribuição, já instalada há vários anos, nas principais cidades do País. Já conhecem as necessidades dos clientes, têm disponibilidade de peças e serviços. Isso tudo garante um valor de revenda maior na hora da troca do equipamento. Além do mais, os produtos nacionais podem ser adquiridos através do
Finame e os grandes fabricantes têm suas próprias instituições financeiras. Tudo isso gera facilidade na hora da compra e da revenda", analisa.
O executivo da Case não acredita que os preços praticados pelos chineses, se manterão tão baixos por muito tempo. "Creio que mais cedo ou mais tarde haverá uma pressão por parte da sociedade chinesa, pela melhoria das condições de trabalho da população, o que se refletirá nos custos da mão-de-obra. Alem disso, estamos assistindo a uma migração de empresas chinesas que estão se instalando em outros países. E nas novas bases eles não vão conseguir reproduzir os custos que tem lá na China. Tudo isso deve impactar nos custos de produção. Mesmo na China o mercado tende a atingir a estabilidade de volume. Lá a faixa de consumo se situa no patamar de 200 mil máquinas/ano. Em primeiro lugar vêm as escavadeiras, em segundo, as pás. O mercado de retro na China praticamente não existe".
Para Yoshio Kawakami, o equipamento importado da Ásia já faz parte da oferta de produtos de fabricantes instalados no Brasil há alguns anos. "Este já comprovou a sua confiabilidade e a sua importância no mercado. A origem do produto não representa preocupação ou uma concorrência desleal. Mas, na falta de regulamentação de normas de Emissão de Gases e Ruídos e de normas
de segurança para equipamentos de construção, poderia haver um prejuízo ao mercado. Aspiramos por uma condição de mercado que corresponda a uma sociedade moderna e responsável no trato destas questões e que os participantes do mercado atendam a normas comuns, já efetivas nos principais mercados do mundo.
Roque Reis não concorda com Kawakami quando o assunto é o nível da tecnologia embarcada nos equipamentos asiáticos. "Uma discussão que se tem travado hoje é: por que eu vou querer tecnologia, nesse momento? Para responder isso basta observar onde o mercado está crescendo. Ele está em queda nos Estados Unidos e na Europa, onde vigoram as normas de emissão de poluentes Tier 3 e Tier 4. E está crescendo no Brasil, China, Índia, África, onde não há normas de emissões e onde, portanto, não há necessidade de tanta tecnologia. Então, as máquinas que têm possibilidade de crescimento são justamente as que não têm tanta tecnologia. Ou então, se você tem necessidade de tecnologia embarcada você tem custo elevado."
Ele explica que na medida em que o fabricante diminiu os volumes de produção dessas máquinas com tecnologia mais avançada, diminiu também a economia de escala e aumenta os custos de produção, que são repassados para o produto final.
Para ele, a redução do ritmo de incorporação de novas tecnologias nas máquinas é uma das conseqüências imediatas dessa nova ordem mundial. Nesse momento, a prioridade passa a ser desovar os estoques mundiais. No último Intermat, o que se observou foi que todas as grandes fabricantes estão lançando tecnologias híbridas, que estarão dis
poníveis a partir de 2010. A Case, por exemplo, mostrou uma escavadeira da Sumitomo que gera energia quando está girando e parando. O que se tem, no entanto, é que o pay back desses equipamentos, considerando a economia de combustível, é três anos. Eu acho muito tempo, se considerarmos que o tempo de vida útil de uma dessas máquinas, na mineração, por exemplo, é de quatro anos. Creio que essa tecnologia ainda terá que reduzir muito ainda do seu custo adicional, para se tornar atrativa. Tem que se trabalhar com um pay back de um ano e
meio, no máximo. Senão ninguém vai investir numa coisa dessas".

Fonte: Estadão

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