É uma questão de tempo para a publicação dos editais de uma das licitações mais esperadas dos últimos anos: as obras de ampliação do Canal do Panamá. Com investimentos estimados na ordem de US$ 5,2 bilhões, o projeto promete movimentar o mercado global de engenharia.
Os documentos da licitação estão em fase de revisão e o processo de pré-qualificação das empresas que participarão da expansão deve acontecer até junho. A obra atrai empreiteiras do mundo todo por diversas razões: a magnitude do projeto, os desafios técnicos e logísticos e os altos valores envolvidos para a operação de um terceiro jogo de eclusas.
Os resultados esperados incluem:
- Maior capacidade de transporte de carga nos navios;
- Criação de uma via alternativa aos dois conjuntos de eclusas existentes;
- Fim do congestionamento de cargueiros durante as épocas de manutenção.
O Projeto de Modernização e Capacidade
Aprovada por 78% da população em plebiscito, esta será a maior modernização do local em seus mais de 90 anos de história. A proposta é que as obras se iniciem ainda este ano e sejam finalizadas no centenário do canal.
Os números da obra impressionam:
- Estrutura: Duas novas eclusas (uma no Pacífico e outra no Atlântico), dotadas de três câmaras de 55 m de largura, 427 m de comprimento e 18,3 m de profundidade.
- Escavação: Aproximadamente 133 milhões de m³ de rocha e terra.
- Mão de obra: Cerca de 15 mil trabalhadores no pico das obras.
- Capacidade de trânsito: Salto de 14 mil navios (279 milhões de toneladas de carga) para 19.600 navios (525 milhões de toneladas de carga estimadas para 2025).
Consórcio Brasileiro na Disputa
No Brasil, construtoras de peso como Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez se uniram para formar o Consórcio Interoceânico, fortalecendo-se perante uma disputa de gigantes mundiais. O consórcio brasileiro irá disputar as licitações para a escavação do novo canal e para a construção e montagem das eclusas.
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Corporações internacionais como Vinci, Hochtief, Bilfinger, Bouygues, Bechtel, Caterpillar, General Electric, Siemens e Mitsubishi já tornaram explícito que estão no páreo. A Odebrecht também demonstrou interesse, mas ainda não formou consórcio, enquanto a Hochtief do Brasil será representada por seu grupo mundial.
A Importância da Competitividade
Segundo Jorge de la Guardia, gerente de Projetos da Autoridade do Canal do Panamá (ACP), a expansão é essencial para o povo panamenho. Os recursos do canal representam cerca de 7% do PIB do país, e o empreendimento precisa manter a competitividade de sua rota marítima.
Atualmente, apenas navios panamax (até 32 m de largura e 294 m de comprimento) atravessam o canal. Com a expansão, navios pós-panamax (com 49 m de largura e 365 m de comprimento) poderão utilizar a rota.
Sem as obras, o canal teria uma capacidade máxima estagnada e não faria frente à demanda de transporte dos grandes centros de produção e consumo da Ásia e da costa-leste dos EUA, perdendo espaço para o Sistema Intermodal dos Estados Unidos e para o Canal de Suez. Além disso, o novo jogo de eclusas permitirá a passagem de rotas de gás líquido natural, carvão e superpetroleiros.
Engenharia Financeira: Como a obra será paga?
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Para o governo panamenho, a conta do financiamento é clara. O projeto será custeado da seguinte forma:
- Aumento de Pedágios: A ACP aumentará os pedágios em 3,5% ao ano, o que cobrirá mais de 50% da obra.
- Financiamentos Externos: O restante virá de financiamentos que não excederão US$ 2,3 bilhões.
A expectativa é que o investimento total seja recuperado em oito anos. A expansão permitirá que o Panamá alcance, em 2025, um PIB expressivo, significando um crescimento anual de 5% nos próximos 18 anos. Uma premissa rigorosa será mantida: não haverá paralisação do trânsito de navios durante as obras.
A Melhor Fatia para as Mais Experientes
A construção das eclusas e os trabalhos de dragagem devem ser executados, em sua maioria, por companhias estrangeiras devido à vasta experiência exigida. No entanto, empresas panamenhas atuarão como subcontratadas.
A Sociedade Panamenha de Engenheiros e Arquitetos (SPIA) ressalta que as empresas internacionais devem atuar de forma idônea e cumprir as leis locais, o que implica a inclusão de profissionais panamenhos capacitados nas obras.
Os Desafios Mais Complexos
Os principais desafios do projeto incluem:
- O cumprimento rigoroso dos prazos;
- A construção complexa das eclusas;
- Os métodos de escavação e sistemas de recuperação de água;
- A logística de suprimentos (cimento, aço, madeira e equipamentos), que exigirá intensa importação.
“A ampliação do Canal do Panamá não nos mete nenhum medo. É o que sabemos fazer. Nosso País tem capacidade para suprir todas as demandas exigidas pela obra”, afirma Ricardo Castanheira, diretor de coordenação da América Latina da Andrade Gutierrez.
Antecedentes Históricos
Fundado em 1914 pelos Estados Unidos, o Canal do Panamá é considerado a hidrovia mais importante do mundo. A ideia de ligar os oceanos remonta a 1534, com o rei Carlos V da Espanha, e passou por uma tentativa frustrada dos franceses em 1882, que esbarrou em problemas financeiros e doenças endêmicas.
Foi apenas em 1904 que os EUA iniciaram a construção, investindo US$ 375 milhões em uma obra que durou nove anos e empregou mais de 56 mil trabalhadores. Inaugurado em 15 de agosto de 1914, o canal tem 82 km de comprimento e supera uma diferença de 26 metros entre o Atlântico e o Pacífico utilizando um sistema de eclusas.
Desde 1999, o controle do Canal passou integralmente para as mãos do Panamá, conforme previsto pelos Tratados Torrijos-Carter, assinados em 1977.



