Operações de alto risco.

Exemplos recentes – e antigos – mostram que as empresas de engenharia que exportam serviços invariavelmente incorrem em operação de risco
Nunca foi fácil exportar serviços. Especialmente serviços de engenharia. Teoricamente as empresas contam com a retaguarda do país de origem.
Na prática, quando se vêem com problemas técnicos, econômicos, de natureza social ou institucional, têm de resolvê-los por sua conta e risco.

Há algum tempo, ao participar de um encontro nacional de comércio exterior, Ângelo Vian, presidente da diretoria da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia (ABCE), disse que um insucesso pode prejudicar todo o trabalho de conquista do mercado, comprometendo a credibilidade tecnológica do país inteiro ou do segmento envolvido. “Como sempre, em qualquer circunstância, fora de casa, falhar é fatal”, disse ele.

Tal observação é válida para as empresas que começam a ingressar na exportação de serviços, da mesma forma como continua válida para as empresas que já mantêm, arraigada, a tradição de trabalho no exterior.

Atualmente o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) e a ABCE, vem realizando gestões junto à Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), para eliminar barreiras que subsistem nessa área, tanto pela falta de suporte financeiro quanto pela falta de apoio fiscal e diplomático.

A ousadia da exportação de serviços requer da empresa que se lança a esse objetivo, capacidade de negociação; domínio das técnicas de engenharia que serão aplicadas nas obras contratadas; treinamento de mão-de-obra no próprio país onde se realizem os serviços de engenharia; obediência à legislação local e aos tratados internacionais; aceitar desafios em países de cultura diferente, assimilando língua, hábitos e costumes e ter capacidade de adaptação e capacidade para mobilizar máquinas e equipamentos nas praças de origem ou em praças internacionais. Embora precisem reunir todos esses atributos para fixarem-se no exterior, as empresas de engenharia invariavelmente não contam com o suporte financeiro e diplomático à altura das exigências que lhes são cobradas.

A experiência brasileira na exportação de serviços começou em fins da década de 1960 do século passado quando, pioneiramente, a Mendes Júnior iniciou a construção de uma hidrelétrica na Bolívia e, em seguida, construiu uma rodovia na Mauritânia.

Em meados dos anos 1970 o Brasil começou a registrar problemas de caixa no balanço de pagamentos, e parte de suas importações de petróleo passou, então, a ser paga com serviços de engenharia. Foi quando a Mendes Júnior desembarcou também no Iraque, onde construiu a ferrovia que liga Bagdá a Akashat; fez freeways e as obras de drenagem do rio Eufrates. Empregou cerca de 20 mil pessoas e obteve para o país cerca de R$ 1 bilhão em divisas.

Contudo, o Iraque começou a sua guerra contra o Irã. O governo de Saddam Hussein, pressionado pelas condições do país, deixou de honrar seus compromissos, levando a Mendes a desistir das obras. O Iraque ameaçou a empresa, afirmando que, se ela não retomasse imediatamente os trabalhos, cobraria pelo petróleo que o Brasil importava de lá.

Como, pela falta de pagamento do governo iraquiano, a empresa se via impedida de retomar as obras, o Banco do Brasil resolveu cobrar uma indenização diretamente da Mendes, quando, segundo o empresário Murillo Mendes, deveria fazê-lo junto ao Instituto de Resseguros do Brasil, responsável pela cobertura à tomada dos recursos necessários para o início das obras. A dívida no BB, que era de US$ 400 milhões, subiu para US$ 600 milhões, e o valor da indenização reivindicada pela construtora pode ser, hoje, da ordem de US$ 1 bilhão.

Conforme apurou a revista Istoé Dinheiro (edição 565), o governo brasileiro quer receber ao menos US$ 120 milhões, de uma dívida da ordem de US$ 600 milhões, herdada do governo iraquiano.

Leia mais na edição nº 469 da revista O Empreiteiro

Fonte: Estadão

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