Antigas oficinas ferroviárias do Rio de Janeiro passaram por complexo trabalho de restauro e requalificação, conciliando técnicas construtivas históricas, novas soluções de engenharia e a transformação dos espaços para novos usos
Augusto Diniz – Rio de Janeiro (RJ)
A história da engenharia ferroviária brasileira também está preservada nas construções que acompanharam o desenvolvimento das ferrovias. No Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio de Janeiro, um conjunto que já abrigou um dos mais importantes complexos de tecnologia ferroviária do continente tornou-se exemplo dos desafios de recuperar esse patrimônio.
As antigas Oficinas de Locomoção de Engenho de Dentro ocupavam uma área próxima à estação ferroviária e ao Estádio Engenhão, posteriormente denominado Estádio Nilton Santos. O conjunto incluía um prédio administrativo de 2,5 mil m² e dois grandes galpões.
O prédio administrativo havia sido reconstruído a partir de 1904, após um incêndio. Décadas depois, o complexo encontrava-se abandonado e em processo de deterioração.
A recuperação da área integrou as intervenções realizadas no entorno do estádio para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e deu origem à Praça do Trem, concebida também como legado para os moradores da região.
O desafio de restaurar antigas estruturas ferroviárias
Por se tratar de uma construção tombada pelo patrimônio histórico municipal, a intervenção exigiu cuidados diferentes daqueles encontrados em uma obra convencional.
O projeto de restauro foi desenvolvido pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), enquanto o projeto executivo ficou sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Obras. A Mascarenhas Barbosa Roscoe Construções foi contratada para executar os serviços.
“O local estava abandonado e em ruínas, tomado pelo mato e árvores nascendo dentro da edificação”, relatou o engenheiro Roberto Rodrigues, então gerente de obras da Zona Norte da Secretaria Municipal de Obras do Rio de Janeiro.
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Um dos principais desafios estava em conciliar as técnicas utilizadas originalmente na construção com os métodos contemporâneos de engenharia.
“Os trabalhos de restauro foram cuidadosos. Integrar as metodologias construtivas antigas e atuais é uma tarefa complexa”, explicou Rodrigues.
A recuperação mobilizou diferentes especialidades, incluindo engenharia, arquitetura, museologia e profissionais especializados em restauro. As dimensões originais das estruturas existentes foram preservadas.
Paredes de pedra e tijolos maciços são preservadas
No prédio administrativo, de dois pavimentos, a arquitetura externa foi mantida.
O trabalho de restauro preservou inclusive características do antigo sistema construtivo. As paredes eram constituídas por alvenaria estrutural de pedra argamassada e tijolos maciços, revestidos com argamassa de areia e cal.
Rachaduras foram reparadas e as estruturas recuperadas procurando manter as características da construção histórica.
Internamente, entretanto, o edifício precisou receber adaptações para atender às novas necessidades de utilização.
As instalações elétricas, hidráulicas, de telecomunicações e climatização foram executadas de maneira aparente, já que as características das paredes de pedra e argamassa dificultavam a incorporação desses sistemas em seu interior.
Uma escada metálica com degraus de madeira também foi instalada.
Na cobertura, as antigas telhas foram substituídas depois de não atenderem aos testes de resistência. A nova solução adotou telhas metálicas duplas, do tipo sanduíche. Uma claraboia de policarbonato foi criada no centro da edificação para ampliar a entrada de iluminação natural.
Engenharia recupera estruturas metálicas dos antigos galpões
Os dois grandes galpões ferroviários também passaram por intervenções.
Parte das estruturas foi restaurada, enquanto elementos que não apresentavam condições adequadas foram reconstruídos.
Os antigos perfis metálicos receberam um processo específico de recuperação, envolvendo remoção da ferrugem, aplicação de emulsão, instalação de manta de tecido anticorrosivo, nova camada de emulsão, pintura epóxi e aplicação de poliuretano.
A recuperação da cobertura também foi extensa. O projeto previa a utilização de 125 mil novas telhas nos galpões. Elementos originalmente fechados com vidro passaram a utilizar policarbonato.
Os dois galpões de estrutura metálica formariam uma esplanada com aproximadamente 35 mil m².
Patrimônio ferroviário ganha novos usos
Durante os Jogos Olímpicos, os galpões seriam utilizados como parte das estruturas provisórias de acesso ao Estádio Nilton Santos. Posteriormente, o projeto previa transformar a área em um espaço destinado à população.
Entre os equipamentos planejados estavam cinco quadras poliesportivas, rampa de skate, parque infantil e academia para a terceira idade.
O antigo prédio administrativo também ganhou uma nova função, com a previsão de receber uma Nave do Conhecimento Olímpico e posteriormente um espaço permanente relacionado à memória dos Jogos.
As intervenções foram acompanhadas por outras obras de infraestrutura no entorno, incluindo ciclovia de 2 km, substituição de redes aéreas por redes subterrâneas, implantação de iluminação LED e reurbanização de vias.
A recuperação das antigas Oficinas de Locomoção de Engenho de Dentro mostra uma vertente particular da trajetória da engenharia brasileira: preservar estruturas concebidas em outros períodos e, ao mesmo tempo, prepará-las para novas funções.
Nesse tipo de obra, a engenharia precisa compreender como se construía no passado antes de decidir como intervir no presente. A permanência das antigas paredes de pedra, dos tijolos maciços e das estruturas metálicas ajuda a preservar também a memória de um período importante do desenvolvimento ferroviário brasileiro.





