Relatório da Fifa de 2007 avaliou aeroportos, mobilidade urbana, hotéis, hospitais, telecomunicações e segurança e revelou a dimensão das transformações necessárias para receber o Mundial.
Quando o Brasil se preparava para receber a Copa do Mundo de 2014, a construção e modernização dos estádios representavam apenas uma parte do desafio de engenharia e infraestrutura colocado diante do país.
Em outubro de 2007, inspetores da Fifa avaliaram as condições apresentadas pelas cidades brasileiras candidatas a receber o Mundial. O diagnóstico contemplava transporte aéreo, mobilidade urbana, hospedagem, hospitais, telecomunicações e segurança.
A conclusão da entidade era otimista: segundo o relatório produzido naquele momento, o Brasil estava bem posicionado para realizar uma Copa do Mundo considerada excepcional.
Por trás dessa avaliação, entretanto, existia uma extensa agenda de investimentos e problemas de infraestrutura que precisariam ser enfrentados nos sete anos seguintes.
Aeroportos eram um dos principais desafios para 2014
O transporte aéreo ocupava posição estratégica porque a dimensão territorial brasileira tornaria os aviões fundamentais para o deslocamento entre as cidades-sede.
Na avaliação apresentada em 2007, os inspetores consideraram que o país possuía 18 “bons aeroportos” nas cidades candidatas e classificaram a infraestrutura de transporte aéreo como elemento-chave para a realização do Mundial.
O próprio relatório previa grandes deslocamentos de torcedores entre cidades em um mesmo dia.
A análise, porém, apresentava uma limitação importante: segundo o material daquele período, os inspetores utilizaram informações fornecidas pelas próprias cidades candidatas.
O diagnóstico contrastava com os problemas enfrentados naquele momento pelo setor aéreo brasileiro, que atravessava um período marcado por atrasos, cancelamentos, dificuldades operacionais e forte pressão sobre a infraestrutura aeroportuária.
Aeroporto do Galeão tinha R$ 100 milhões em investimentos previstos
No Rio de Janeiro, uma das intervenções anunciadas naquele período estava concentrada no Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão.
Segundo o então presidente da Infraero, Sérgio Gaudenzi, estavam previstos R$ 100 milhões em investimentos para preparar o aeroporto para o aumento da demanda.
As intervenções anunciadas para o Terminal 1 incluíam melhorias no sistema elétrico, pisos, climatização e banheiros.
Também estava prevista a instalação de 50 novos equipamentos de raios X nos principais aeroportos brasileiros, com o objetivo de aumentar a capacidade de atendimento aos passageiros.
E havia um desafio que ultrapassava a própria Copa.
Naquele momento, Ralph Terra, então vice-presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), apontava que aproximadamente 120 milhões de passageiros por ano circulavam pelos aeroportos brasileiros.
A estimativa apresentada à época indicava que esse movimento poderia dobrar nos seis anos seguintes mesmo sem considerar o impacto adicional provocado pela Copa.
Mobilidade urbana colocava cidades brasileiras em alerta
O transporte dentro das cidades constituía outro grande desafio.
O relatório da Fifa identificou dificuldades para atingir os parâmetros desejados de transporte público em algumas das cidades candidatas, mencionando especificamente Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis, Maceió, Natal e Rio Branco.
Ao mesmo tempo, grandes metrópoles já conviviam com problemas estruturais de congestionamento.
Em São Paulo, o então secretário estadual de Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, reconhecia o trânsito como um dos principais problemas enfrentados pela população.
Leia também: Situação dos principais aeroportos é “crítica ou preocupante”, diz Ipea
O governo estadual anunciava naquele momento um plano de expansão de R$ 16 bilhões para os quatro anos seguintes, envolvendo a infraestrutura de transporte metropolitano.
A mobilidade acabaria se tornando um dos principais campos de investimento relacionados à preparação das cidades brasileiras para o Mundial.
Hotelaria precisava atender à demanda da Copa
Outro componente da infraestrutura necessária era a capacidade de hospedagem.
A exigência apresentada pela Fifa era de aproximadamente 55 mil leitos disponíveis no país.
Segundo informações da Secretaria Estadual de Turismo citadas naquele período, somente o Rio de Janeiro contabilizava aproximadamente 54 mil.
A distribuição dessa capacidade, entretanto, era desigual.
Algumas cidades, principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste, apresentavam infraestrutura hoteleira mais limitada.
Para o setor, outro desafio estava na qualificação das equipes.
Eraldo Alves da Cruz, então diretor da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, afirmava que apenas 16% dos estabelecimentos treinavam seus funcionários e que somente 18% contavam com profissionais capazes de falar uma segunda língua, segundo os dados apresentados naquele momento.
Telecomunicações eram consideradas suficientes pela Fifa
A infraestrutura de telecomunicações também foi analisada.
Os técnicos da Fifa consideraram a rede disponível naquele momento suficiente para atender ao evento e indicaram que não seriam necessárias grandes melhorias.
A avaliação não era consensual.
Profissionais envolvidos na cobertura esportiva relatavam dificuldades de comunicação até mesmo em grandes instalações brasileiras.
O radialista José Silvério citou como exemplo problemas enfrentados por jornalistas no Maracanã durante uma partida entre Brasil e Equador pelas Eliminatórias da Copa.
O episódio mostrava que a infraestrutura necessária para um Mundial ia além da capacidade dos estádios: era preciso garantir comunicação simultânea para profissionais de imprensa e emissoras de diferentes países.
Hospitais e segurança também entraram na avaliação
Na área da saúde, a análise da Fifa estava concentrada principalmente na capacidade de prestar atendimento aos integrantes da entidade e às delegações participantes.
O relatório considerou que as cidades avaliadas dispunham de redes hospitalares capazes de atender a essa demanda, principalmente considerando a estrutura privada.
A segurança também aparecia entre os pontos analisados.
Os inspetores reconheciam preocupações em determinadas cidades, embora avaliassem que a percepção pública sobre o problema poderia ser mais negativa do que a situação identificada por eles.
Copa colocou infraestrutura brasileira sob pressão
Vista a partir de hoje, a avaliação realizada em 2007 funciona como um retrato do ponto de partida da infraestrutura brasileira antes de um dos maiores ciclos de preparação para eventos internacionais realizados no país.
Aeroportos precisariam absorver um crescimento expressivo de passageiros. Sistemas metropolitanos demandavam expansão. Algumas cidades precisavam ampliar sua estrutura hoteleira. Telecomunicações, segurança e atendimento hospitalar também integravam a equação.
A engenharia necessária para receber a Copa do Mundo de 2014, portanto, ultrapassava amplamente os limites dos estádios.
Rodovias, aeroportos, metrôs, corredores de transporte, terminais, sistemas de comunicação e outras estruturas urbanas passaram a integrar uma agenda nacional de preparação para o evento.
O diagnóstico produzido sete anos antes do Mundial ajuda a compreender a dimensão dessa transformação — e oferece um ponto de partida para avaliar, posteriormente, o que foi planejado, o que efetivamente foi construído e qual infraestrutura permaneceu como legado para as cidades brasileiras.





