Um projeto estrutural pelo preço de uma panqueca

Eduardo Barros Millen*

Panqueca. Sim, panqueca. Ora, estarão pensando os leitores, o que tem a ver panqueca numa revista focada num público de profissionais da área de construção, infraestrutura e concessões?
Posso explicar. Estava eu há alguns dias comendo uma gostosa panqueca e meditando sobre o trabalho, pois é isso que fazemos na hora do almoço em dias úteis. E fiquei surpreso ao comparar seu preço (R$ 18,00) com o de um projeto estrutural para 2.500 casas populares cobrado por um colega projetista estrutural (R$ 27,00 por casa!). Isso, devido à repetitividade. Pensei, se eu pedisse outra panqueca igual, teria um desconto? As casas repetidas serão vendidas por preço menor por serem iguais?
A realidade, que não é de hoje, é que a sociedade como um todo e os contratantes de projetos estruturais em particular não reconhecem o seu valor.
Nenhuma construção é feita sem um projeto estrutural. Pelo menos não deveria, pois é ele que garante a construção numa estrada estreita margeada por dois precipícios: de um lado a insegurança e, do outro, o desperdício (apud Lauro Modesto dos Santos).
O engenheiro de estruturas só é lembrado na hora em que ocorre um desastre. O que já é um avanço, pois há pouco tempo eram chamados bombeiros, policiais, operários e outras pessoas sem o conhecimento técnico de estruturas.
A área da engenharia estrutural é uma especialidade que requer anos de estudo e vivência profissional. Ninguém, por mais bem formado que seja, pode ser responsável pelo projeto estrutural de uma ponte, um prédio de 30 ou mais andares, um galpão industrial com pontes rolantes para 200tf ou até uma casa térrea com uma laje em balanço na cobertura.
Os engenheiros estruturais precisam ser mais valorizados. Como pode um edifício residencial ter suas unidades vendidas a R$ 10.000,00 por m² e o projetista estrutural receber menos de 0,1% desse valor por m² para fazer seu projeto, assumir a responsabilidade legal e funcional pela sua estabilidade, segurança e durabilidade?
Alguma coisa está errada. Talvez nós, projetistas estruturais, sejamos os culpados disso, por aceitarmos trabalhar por valores aviltantes. Por que trabalhamos 10 a 12 horas por dia, sábados, domingos e feriados?
Poderíamos cobrar o dobro, perder metade dos clientes (exatamente aqueles que não merecem um bom projeto), trabalhar a metade do tempo e ter melhor qualidade de vida. No meu escritório, adotamos essa política desde sempre e contamos com clientes constantes, assim como vários outros escritórios de colegas nossos.
O que acontece é que o projetista estrutural gosta do que faz e às vezes trabalha pelo prazer de ver a obra construída com a sua participação. Mas, aí, temos de ter o cuidado de não estarmos denegrindo o mercado. Eu me orgulho de ser um projetista estrutural e de pertencer a uma comunidade responsável por projetos formidáveis, monumentais, emblemáticos e que tornam realidade a criação de arquitetos muito mais conhecidos e reconhecidos, com justa razão, mas que não teriam suas brilhantes ideias concretizadas não fossem materializadas via projeto estrutural. Eu fico pensando o que aconteceria, ou deixaria de acontecer, se houvesse uma greve dos projetistas estruturais…
Associações como a Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), que tem como razão de sua criação a valorização do engenheiro estrutural e nos 18 anos de existência tem trabalhado por isso, é reconhecida por toda a cadeia da construção e começa a ser conhecida pela sociedade em geral. É a única instituição que premia o projeto de estruturas e valoriza o seu criador.
Parabéns e obrigado à revista O Empreiteiro pela sua atuação na cadeia da construção e por abrir este espaço permitindo a divulgação do trabalho do engenheiro estrutural!

*Eduardo Barros Millen é presidente da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece).

Fonte: Padrão

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