Em Bologna, caminhar pela cidade significa quase inevitavelmente caminhar sob um pórtico. São 62 quilômetros de passagens cobertas que atravessam o centro e chegam a outras partes da cidade. Construídos em diferentes períodos e materiais, da madeira medieval à pedra, ao tijolo e, mais tarde, ao concreto armado, eles formam uma estrutura que há séculos interfere na maneira como a população circula, encontra pessoas e ocupa o espaço urbano.
Doze conjuntos representativos dos pórticos foram inscritos na lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 2021. A organização destaca não apenas seu valor arquitetônico, mas também sua função urbana e social. Há uma particularidade importante nesse sistema: os pórticos fazem parte dos edifícios privados, mas são espaços de uso público. A manutenção fica sob responsabilidade dos proprietários, enquanto a Prefeitura estabelece regras para garantir sua conservação e utilização coletiva.
A continuidade desse modelo tem uma longa história. O Estatuto de 1288 estabeleceu regras para os pórticos, consolidando uma tipologia que acompanharia a expansão urbana de Bologna pelos séculos seguintes.
Mas talvez a característica mais interessante da cidade esteja justamente no fato de que preservar não significou simplesmente impedir mudanças.
Uma cidade histórica que continua sendo vivida
A preservação do centro histórico de Bologna ganhou uma nova dimensão em 1969, quando a Prefeitura aprovou o Plano Urbanístico de Recuperação e Restauro do Centro Histórico. O plano ampliou o olhar sobre o patrimônio, até então concentrado principalmente em monumentos isolados, e passou a considerar o conjunto urbano histórico como objeto de preservação.
Mas conservar esse patrimônio não significou transformar o centro em um espaço apartado da vida cotidiana. Os pórticos talvez sejam a expressão mais evidente dessa relação. Construídos ao longo de séculos e protegidos como patrimônio, continuam sendo usados diariamente pela população para caminhar, encontrar pessoas, acessar lojas, restaurantes, residências e edifícios da universidade.
Essa relação entre preservação e vida urbana aparece também na leitura do arquiteto italiano Daniele Rangone, cofundador do escritório Settanta7, que conversou com a revista O Empreiteiro em Bologna durante a Cersaie 2026.
Questionado sobre o que a cidade pode ensinar a outros centros europeus na relação entre conservação, regeneração urbana e qualidade de vida, Rangone salienta justamente a maneira como as pessoas ocupam Bologna.
“Qualidade de vida, muitíssimo valorizado. Eu saí ontem à noite e havia estudantes por toda parte, comendo e bebendo.”
A presença dos estudantes tem um significado particular em Bologna. Fundada convencionalmente em 1088, a Universidade de Bologna é considerada a mais antiga do mundo ocidental ainda em funcionamento. Mais de nove séculos depois, a vida universitária continua profundamente integrada ao centro histórico e ajuda a explicar a ocupação de suas ruas, praças e pórticos.
Essa relação também aparece na conservação dos edifícios. Rangone chama a atenção para os investimentos do município na recuperação do patrimônio histórico ligado à universidade. “São edifícios históricos que estão sendo recuperados para o âmbito universitário. Eles desempenham muito bem esse papel”, afirma.
Para o arquiteto, as decisões recentes sobre mobilidade fazem parte desse mesmo olhar sobre a qualidade de vida na cidade. Um dos exemplos citados por ele é a Bologna Città 30, implantada em janeiro de 2024, que estabeleceu 30 km/h como limite predominante nas vias urbanas.
Rangone lembra que a medida enfrentou resistência, mas foi mantida pela administração municipal. “Tiveram a coragem de levar adiante essa política dos 30 km/h. Foi muito contestada por muitas pessoas, mas o prefeito a enfrentou de maneira muito determinada e isso, na minha opinião, é positivo.”
Os resultados dos dois primeiros anos mostram uma redução nos principais indicadores de violência no trânsito. Em 2024 e 2025, Bologna registrou 22 mortes, ante 39 nos dois anos anteriores, uma queda de 43,6%. Os acidentes diminuíram 12,5%. Em 2024, primeiro ano da política, não houve nenhuma morte de pedestre, algo que não ocorria desde o início da série estatística disponível em 1991.
Quase 100 mil m² para reconectar Bologna
Se no centro histórico o desafio é manter vivo um patrimônio construído ao longo de séculos, em outra parte de Bologna a questão é recuperar um território que perdeu sua função original.
O Scalo Ravone, antiga área ferroviária com 96.580 m², faz parte da regeneração do quadrante noroeste da cidade. A intervenção integra a Città della Conoscenza, ou Cidade do Conhecimento, estratégia da Prefeitura de Bologna que reúne projetos relacionados à pesquisa, ciência, cultura, inovação e formação, ao mesmo tempo em que recupera áreas desativadas.
É no Scalo Ravone que o escritório Settanta7, de Daniele Rangone, participa diretamente. O projeto está em andamento desde 2024 e prevê recuperar estruturas existentes e introduzir novos usos em uma área que, segundo o arquiteto, se apresenta hoje como uma ruptura no tecido urbano.
“São 90 mil metros quadrados, é muito extensa. Essa área divide Bologna de baixo da Bologna de cima. Então nós precisamos fazer uma intervenção que se torne um pouco uma cerniera, porque, caso contrário, Bologna fica cortada em duas”, explica.
Cerniera significa dobradiça em italiano. Rangone usa a palavra para definir a função urbana pretendida para o projeto. A ideia é fazer com que uma área que funcionava como separação passe a aproximar partes da cidade.
O projeto tem o Comune di Bologna como cliente e reúne, além do Settanta7, Perillo, Studio Valle, WEST8, La Stanza C., Rizoma Architetture, Vibes e o geólogo Tuberga. Segundo a ficha técnica divulgada pelo Settanta7, o valor indicado para a intervenção é de € 38,32 milhões.
A recuperação do Scalo Ravone não se limita aos edifícios e à reorganização física do terreno. A proposta combina atividades para ampliar a utilização do espaço pela população.
“Estamos fazendo edifícios heterogêneos para que possam ser atrativos para a maior parte possível dos cidadãos”, explica Rangone. “O que haverá? Esporte, cultura, alimentação, arte. Cada um desses edifícios tem uma caracterização particular e assim poderá servir de atração para toda a cidade.”
A proposta reforça o caráter público do Scalo Ravone ao combinar a recuperação das estruturas existentes com novos espaços e atividades voltados à população.
Preservar e transformar
Os pórticos e o Scalo Ravone pertencem a momentos completamente diferentes da história de Bologna. Os primeiros começaram a moldar a cidade medieval e continuam integrados ao cotidiano hoje. O segundo ocupa uma antiga área ferroviária que agora busca uma nova função.
Nos dois casos, a questão ultrapassa a preservação física das estruturas. No centro histórico, edifícios construídos há séculos continuam incorporados à vida urbana. No Scalo Ravone, o desafio é fazer com que uma área antes marcada pela separação volte a participar dessa dinâmica.
A palavra escolhida por Rangone para definir o papel do projeto: dobradiça, talvez seja também uma boa imagem para essa Bologna contemporânea. Uma cidade que preserva o que recebeu do passado, mas continua procurando maneiras de adaptar seu território às necessidades do presente e futuro.



