O grupo português Vila Galé prepara uma nova frente de expansão no Brasil, com investimentos estimados em cerca de R$ 1 bilhão até 2028. Estão previstos oito empreendimentos em diferentes regiões do País, combinando construções do zero, reformas de hotéis fechados e revitalização de edifícios históricos. A estratégia amplia a presença da rede no mercado brasileiro e diversifica o perfil dos projetos, com foco na recuperação do patrimônio histórico e na racionalização dos processos construtivos.

“O ciclo de expansão combina diferentes modelos de implantação. Teremos empreendimentos construídos integralmente do zero, como os projetos de Florianópolis (SC), Brumadinho (MG) e Coruripe (AL), e projetos de adaptação de imóveis existentes em São Luís (MA), João Pessoa (PB) e Cabo de Santo Agostinho (PE)”, revela Rick Rocha, engenheiro civil responsável pela área técnica da Vila Galé no Brasil. Ele explica que o R$ 1 bilhão representa uma estimativa global e que a distribuição dos recursos entre construções novas, retrofits e recuperação de patrimônio ainda não está definitivamente estabelecida. “Trata-se de uma previsão sujeita à evolução dos projetos, dos licenciamentos e dos custos da construção civil”, sustenta.
Com 13 unidades, o Brasil é o segundo maior mercado da Vila Galé, atrás apenas de Portugal, com 34. No total, o grupo conta com 52 unidades, incluindo quatro em Cuba e uma na Espanha. A rede, fundada há quatro décadas, pretende ampliar sua presença brasileira justamente no ano em que completa 25 anos de atuação no País. Até 2028, estão previstos oito empreendimentos: dois no Centro Histórico de São Luís, com conclusão prevista para outubro deste ano e março de 2027, respectivamente; dois em Coruripe, para junho de 2027; além das unidades de Brumadinho, em junho de 2028, Florianópolis, em julho de 2028, João Pessoa, em abril de 2028, e Cabo de Santo Agostinho, em novembro de 2026. Além dos projetos com cronograma definido, a empresa mantém estudos para um novo empreendimento em Areal, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Segundo Rocha, o projeto está associado ao turismo de experiência e ao enoturismo e deverá ser construído do zero.
Uma das características do ciclo de expansão é a recuperação de imóveis que já possuem uma história ligada às cidades onde estão localizados. Em São Luís, serão recuperados prédios históricos onde funcionaram a antiga Defensoria Pública e a Casa do Maranhão. Segundo Rocha, os projetos terão conceitos associados à música, à ópera e à poesia, numa tentativa de integrar a atividade hoteleira ao patrimônio cultural e à identidade do centro histórico maranhense. Já em João Pessoa, o antigo Colégio Pio XII será revitalizado para receber um hotel da marca Collection, com 80 apartamentos inicialmente, além de restaurantes, spa, piscina e estrutura para crianças.
Em Cabo de Santo Agostinho, a estratégia será diferente: a empresa está reformando e adequando aos padrões da rede um hotel que permanecia fechado desde 2020. Na unidade, que terá 298 apartamentos e suítes, haverá três restaurantes, dois bares, beach club, piscinas para adultos e crianças, parque aquático, academia e estrutura para eventos.
Entre os novos empreendimentos, Coruripe terá um complexo de lazer formado por um hotel com 144 apartamentos e um resort com 350 apartamentos, direcionado ao turismo familiar com crianças. Já Florianópolis receberá um hotel construído do zero, com 309 apartamentos, enquanto Brumadinho contará com um empreendimento de 312 apartamentos, voltado à vocação cultural e turística da região.
Para Rocha, a escolha entre construir um empreendimento novo ou recuperar uma edificação existente começa pela análise do destino e do produto que se pretende desenvolver. “Avaliamos a demanda turística, a acessibilidade, a disponibilidade de infraestrutura urbana, a atratividade cultural e ambiental da localização, a sazonalidade, o potencial para eventos e a capacidade de integração do empreendimento à economia local”, explica.
No caso dos imóveis existentes, a análise técnica é ainda mais ampla. A equipe verifica o estado de conservação das estruturas, a geometria dos pavimentos, os pés-direitos, as condições das fundações e a capacidade de implantação das novas instalações. Também são avaliadas as condições de circulação vertical e a compatibilidade do edifício com as normas atuais de segurança, acessibilidade e prevenção contra incêndio. Entram ainda na análise condicionantes urbanísticas e patrimoniais, como tombamentos, áreas de proteção, limitações de intervenção, índices construtivos e restrições ambientais. A infraestrutura disponível de água, esgoto, energia, telecomunicações e mobilidade também pesa na decisão.
“Não comparamos apenas o custo inicial da obra”, ressalta o engenheiro. “Na avaliação econômica, consideramos o valor global do empreendimento, prazo de implantação, riscos técnicos, potencial de valorização do imóvel, custos futuros de operação e manutenção e capacidade de o projeto proporcionar uma experiência diferenciada ao hóspede.” Em alguns casos, o retrofit pode ser mais complexo e imprevisível do que uma construção nova. O benefício, por outro lado, está na possibilidade de criar um produto com identidade própria e forte ligação cultural. “Essa valorização da história e da arquitetura local é um dos elementos centrais da estratégia da Vila Galé”, afirma

ENGENHARIA PARA PRESERVAR E MODERNIZAR
A recuperação de prédios históricos impõe um desafio particular: transformar construções concebidas para outras funções e épocas em hotéis contemporâneos sem eliminar os elementos que lhes conferem identidade. O trabalho começa antes mesmo da definição das intervenções. “Em edifícios antigos, é comum encontrarmos patologias ocultas, alterações realizadas ao longo do tempo e diferenças entre a documentação disponível e a situação real”, explica Rocha.
Depois vem o desafio de inserir, em construções antigas, toda a infraestrutura necessária a um hotel moderno. Isso inclui sistemas de climatização, instalações elétricas e hidrossanitárias, redes de dados, sistemas de proteção contra incêndio, elevadores, cozinhas profissionais, lavanderias e áreas técnicas. A acessibilidade também exige atenção, com rotas acessíveis, unidades adaptadas, sanitários e elevadores, conciliando essas exigências com as limitações físicas e patrimoniais dos edifícios. Na parte estrutural, podem ser necessários reforços localizados, recuperação de elementos degradados e criação de novas estruturas independentes ou parcialmente integradas ao edifício original.
“O equilíbrio está em preservar aquilo que transmite a história e a identidade do imóvel, introduzindo as novas instalações de maneira tecnicamente segura e, sempre que possível, discreta e reversível”, resume o engenheiro. A Vila Galé já utilizou esse modelo em um hotel instalado na Lapa, no Rio de Janeiro, em Ouro Preto e em Belém, onde recuperou antigos galpões portuários para implantação de um empreendimento hoteleiro.
Nos empreendimentos novos, a engenharia também busca reduzir prazos e aumentar a previsibilidade da construção. Não há, entretanto, um único sistema construtivo adotado pela rede. As soluções são definidas de acordo com o terreno, porte do hotel, prazo de execução e condições logísticas. De maneira geral, a empresa procura ampliar a industrialização e a racionalização das obras. Entre as alternativas avaliadas estão estruturas metálicas ou sistemas mistos, lajes industrializadas, fechamentos e divisórias leves, componentes pré-fabricados e modulação dos ambientes.
Coordenação entre os projetos também ganhou importância. Arquitetura, estrutura e instalações precisam ser compatibilizadas antes do início da execução. “A coordenação digital e o uso de modelagem tridimensional ajudam a identificar interferências antes da execução, reduzir retrabalhos, melhorar os quantitativos e dar maior previsibilidade ao planejamento da obra”, salienta Rocha. A estratégia é particularmente importante em hotéis, nos quais a repetição de ambientes e a padronização de determinados elementos permitem ganhos de produtividade, sem eliminar características específicas do empreendimento.
A expansão da rede também movimenta a cadeia brasileira da construção. “Implantação dos hotéis exige conhecimento das normas técnicas nacionais, das condições locais, dos processos de licenciamento, da disponibilidade de materiais e da realidade operacional de cada região. Por isso, buscamos contratar empresas brasileiras e fornecedores locais ou nacionais sempre que apresentem capacidade técnica e experiência compatível”, afirma Rocha.
A proximidade dos fornecedores também pode ser um diferencial, segundo o engenheiro, por reduzir custos logísticos, facilitar a manutenção dos hotéis, gerar empregos e fortalecer a economia regional. Nos projetos patrimoniais, a exigência é ainda mais específica, com a necessidade de profissionais e empresas familiarizados com restauração, arqueologia, recuperação estrutural e execução em ambientes protegidos. “Entretanto, a escolha não é baseada exclusivamente na nacionalidade da empresa. O objetivo é encontrar, para cada contratação, a solução que ofereça a melhor combinação entre qualidade, prazo, custo, segurança e confiabilidade”, conclui o engenheiro.




